National Gallery of Art
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Exposição coloca Johaness Vermeer frente a frente com influências

Pintor holandês do século 17 deixou poucas telas, mas ficou conhecido por suas cenas domésticas

The Economist, O Estado de S.Paulo

21 Outubro 2017 | 15h12

Vermeer foi um pintor brilhante, mas isso não quer dizer que não tenha sido influenciado por outros artistas.

Há séculos, os quadros em que o pintor holandês Johannes Vermeer (1632-1675) retrata momentos contemplativos em interiores serenos, com traços tipicamente holandeses, atraem o olhar fascinado das pessoas. De um total de não mais de 50 telas, chegaram até nós apenas 34. E da sua própria vida interior, pouco se sabe: o artista não deixou cartas nem diários. No século 19, um historiador da arte o chamou de “a Esfinge de Delft”, dando origem à imagem de um gênio solitário, que produzia isoladamente suas obras-primas.

Vermeer e os Mestres da Pintura de Gênero: Inspiração e Rivalidade, exposição que atraiu público recorde em sua passagem por Paris e Dublin e que chega à National Gallery of Art, em Washington, neste domingo, 22, foi pensada para pôr fim a esse mito. 

Exibindo dez telas de Vermeer ao lado de obras com motivos semelhantes, produzidas por artistas que lhe foram contemporâneos, os curadores pretendem apresentar o pintor holandês como alguém inserido em um meio artístico, participando ativamente de uma intensa rede de troca de ideias.

Os artistas sempre dialogam uns com os outros, diz Adriaan Waiboer, da National Gallery da Irlanda e principal curador da exposição. “A pergunta a ser feita é: que ideias Vermeer absorve de outros artistas e como ele as modifica?” Uma característica frequentemente associada a Vermeer, por exemplo, é o foco em figuras solitárias, retratadas no interior de um cômodo, costurando, despejando leite numa vasilha, escrevendo uma carta ou às voltas com alguma outra tarefa doméstica. Apesar de Vermeer ser um mestre nesse tipo de cena do cotidiano, seu precursor foi um pintor de uma geração anterior: Gerard Ter Borch.

No século 17, não havia artista cuja influência se comparasse à de Ter Borch, diz o cocurador da exposição, Arthur Wheelock, da National Gallery de Washington. Ele “inaugurou uma nova estrutura temática, levando as pessoas para o santuário do lar”, expondo suas incertezas, deixando pequenas pistas sobre sua vida interior. “Foi uma revolução nesse gênero de pintura. A questão é: ‘por que Vermeer superou Ter Borch como artista?’”

Filho de outro pintor, Ter Borch foi encorajado a estudar em Londres e visitar a Espanha, onde viu as obras de Velázquez. Também foi incentivado a pintar naquele que era considerado o “estilo moderno”. Ao regressar à Holanda, trazendo ideias novas nas malas, suas telas influenciaram Gabriel Metsu, Gerrit Dou, Eglon van der Neer e Vermeer.

A troca de cartas de amor entre homens e mulheres, por exemplo, foi um dos principais temas da pintura de gênero holandesa entre os anos de 1650 e 1675. O primeiro quadro desse tipo de que se tem notícia é de Ter Borch, que o pintou entre 1655 e 1656, usando sua meia-irmã como modelo. No início da década de 1660, Metsu produziu duas telas impressionantes sobre o tema; numa delas a carta é escrita por um homem; na outra, por uma mulher.

Em 1667, Frans van Mieris retratou uma mulher usando a chama de uma vela para selar uma carta. Vermeer pintou seu célebre quadro Senhora Escrevendo uma Carta entre 1665 e 1666 e o adorável Senhora Escrevendo uma Carta e sua Criada entre 1670 e 1671.

Quando essas telas são vistas lado a lado, é fácil identificar elementos comuns: a mesa coberta com uma toalha ou tapeçaria; a janela aberta pela qual entra a luz do dia; o mensageiro à espera da carta a ser enviada; o instante que precede o envio, prenhe de expectativa. A ligação entre os vários artistas, para a qual os curadores pretendem chamar a atenção do público, fica evidente. Percebe-se com nitidez o que cada pintor resolveu tomar de empréstimo de seu antecessor e o que preferiu descartar.

Também é sedutor avaliá-los segundo seus diversos feitos estilísticos: os tecidos ganham textura superior nos quadros de Metsu, por exemplo. Os traços faciais de Vermeer às vezes são inferiores, mas seu senso de cor e luz está a léguas de distância do de seus contemporâneos.

A noção de que Vermeer talvez não tenha sido um pioneiro, e sim um seguidor, ou mesmo – opa! – um imitador, seria vista como uma heresia para os que nutrem adoração por seu gênio. Mas não era com essa impressão que as pessoas deixavam a exposição quando ela passou por Paris e Dublin.

“Volta e meia alguém comenta comigo: ‘Eu sempre gostei mais do Vermeer’, e eu respondo: ‘Mas a ideia da exposição é justamente essa’”, diz Waiboer. “Não acho que seja preciso explicar às pessoas que Vermeer foi um artista excepcional. Qualquer um percebe isso sozinho”. O que a exposição mostra é como um pintor de gênero, mesmo dialogando com seus contemporâneos, sobressai a eles.

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