João Musa/Masp
João Musa/Masp

Exposição conta a vida de Cézanne por meio de seus retratos

Pintor retratou sua família, amigos e intelectuais de sua época

Holland Cotter, The New York Times

30 Junho 2018 | 16h00

WASHINGTON - Fala-se com palpitação sobre uma exposição na National Gallery of Art: Cézanne Portraits. Com cerca de 60 retratos pintados por um artista avesso a pessoas e notoriamente mal-humorado, está é a maior exposição do tipo em um século. (A última foi em Paris em 1910). Você deve reconhecer muitos protagonistas pelo rosto, se não pelo nome. O próprio Cézanne, nos autorretratos, está muito presente, parecendo alternativamente um tipo selvagem ou professoral, como também sua companheira de quase 40 anos, Hortense Fiquet, sentada com as mãos sobre o colo e uma vida inteira de paciência inscrita em seu rosto. E verá o pai, Louis Auguste Cézanne, com a cabeça debruçada sobre um jornal como se tentando se desconectar do mundo. Por outro lado, o tio, Dominique Aubert, não consegue ficar quieto. 

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Há algumas celebridades. Émile Zola, amigo de infância de Cézanne em Aix-en-Provence e camaradas do ponto de vista estético, encostado num sofá, como um Buda em gabardine bege, em uma tela emprestada pelo Masp. O crítico de arte Gustave Geffoy, que Cézanne amava (quando Geffoy escreveu algo belo sobre ele) e depois passou a odiar (por razões que não sabemos), aparece agachado sobre vários livros abertos espalhados.

E o marchand Abroise Vollar, que colocou a carreira de Cézanne no mapa (ele organizou sua primeira mostra de retratos) também é recompensado com um retrato seu na exposição. Vollard compareceu a 115 sessões para Cézanne pintá-lo, cada uma das 8h às 23h30, e durante esse tempo era verbalmente agredido. (“Oh, seu desgraçado!, você arruinou a pose! Tenho de dizer novamente que tem de se manter como uma maçã?”). O tormento sofrido por ele não é percebido na imagem, em que transmite a calma de um estadista veterano. Mas Cézanne, depois de toda a confusão, decidiu que o quadro era um fracasso e não quis terminá-lo.

Ele podia ter esse tipo de comportamento porque não se tratava de um trabalho sob encomenda, ele nunca o fez. Ele escolhia as pessoas que desejava pintar, quase todas familiares ou amigos. E elas aquiesciam, ou por se sentirem obrigados ou lisonjeados. E este acerto significava também que podia fazer retratos que estilisticamente dizem muito sobre o pintor como o seu modelo. Há uma teoria segundo a qual Cézanne via seus modelos humanos do mesmo modo que as maçãs e montanhas de seus outros trabalhos: meras formas abstratas, desculpas para testar a mecânica da representação num quadro. E certamente é verdade que ele se via como um experimentador, um dissidente antiacadêmico no campo da arte.

No início Cézanne era visto como um outsider dentro do meio artístico parisiense. Nascido na Aix rural em 1839, era filho de um banqueiro burguês que se tornou um fazendeiro nobre. Enfrentando a desaprovação paterna – o pai queria que se tornasse advogado – ele se transformou num rebelde. Em um dos primeiros autorretratos, de propriedade do Museu D’Orsay em Paris, ele se pinta como um Wookie hirsuto. Também fez questão de ser um técnico grosseiro e rude. Em seus retratos do tio Dominique, satura a pintura de tinta com a espátula, como se estivesse colocando patê no pão. E também jamais fez algum esforço, pelo menos até o final da sua carreira, para idealizar suas irmãs. E os retratos de sua mulher sugerem que isso também era verdade quanto a ela.

Os dois começaram a viver juntos em 1869, quando Cézanne tinha 30 anos e Hortense, 19. Em 1872 tiveram seu único filho. Depois de anos ocultando da família a sua relação, finalmente se casaram em 1886, mas depois raramente viveram juntos. Um dos primeiros retratos de Hortense, que está na exposição, pintado por volta de 1877, é na verdade uma pintura do vestido usado por ela, um amontoado de listras e no topo uma cabeça perfeitamente oval, o rosto com os olhos fundos e o cabelo preso atrás como uma peruca.

Este retrato serviu de modelo para muitos outros de Hortense. (São conhecidos 30 retratos e 15 estão na exposição). Entre eles, um cujo cabelo é como se fosse um gorro; ênfase nos detalhes da roupa; e um conteúdo expressivo indecifrável. Durante um século os historiadores de arte interpretaram essas pinturas como uma evidência do descontentamento de Hortense com seu destino no casamento (quantos dias ela posou como modelo!) e sendo sempre tratada como objeto, tudo em favor da arte, como uma pilha de elípticas e cones.

A exatidão psicodinâmica de tudo isso jamais conheceremos. E de qualquer maneira, talvez não seja fundamental e nem seja a história completa. Quando vejo o trabalho de Cézanne em outros gêneros, também observo isso – como as maçãs em suas naturezas mortas, as montanhas nas suas paisagens, eu vejo geometria, mas também afeição. Quando olho seus retratos também vejo irritabilidade, mas também “gozação”, carinho e amor.

No caso de Dominique, ele o apresenta como um palhaço familiar do tipo que as crianças gostam. O pai era um indivíduo conservador irritadiço, “frio e egoísta”, dizia Zola, mas o retrato feito por seu filho provocou comichões nele, levando o velho pai a se interessar por história da arte lendo um jornal para o qual Émile Zola escrevia.

Em todos os seus retratos, Hortense Fiquet parece uma figura rígida, quase robótica. Mas repentinamente, em um deles, pintado nos anos 1880, mais ou menos quando se casaram, ela está diferente. Seus cabelos estão soltos, seus lábios ligeiramente separados e seu rosto pleno de emoção. E essa visão nos leva de volta aos outros retratos para reavaliar e imaginar o que não conseguimos observar. O carinho flagrante ameniza os retratos dos fazendeiros e trabalhadores domésticos de Aix que ele pintou na década anterior à sua morte, aos 67 anos, em 1906. Na época a propriedade da família era sua; o artista rebelde se tornara um católico devoto e um nativista provençal veemente, desprezando Paris, embora contente por ter sua aprovação. Seus derradeiros retratos tinham um foco emocional primário, do mundo rural onde cresceu e o qual nunca realmente deixou.

Esse mundo também está representado nessa exposição – organizada por John Elderfield, curador emérito do MoMA, com Mary Morton, da National Gallery of Art e Xavier Rey, ex-diretor de coleções do Museu D’Orsay – no retrato de Vallier, jardineiro de Cézanne. Um pouco curvado e com sua barba achamos que se trata de um velho. Sentado e na sombra, ele poderia estar em qualquer lugar: na Provença, em Paris, ao ar livre ou não. E é visto de perfil, de maneira que não precisamos tentar analisar seu rosto, interpretar seu estado de ânimo. Meio abstrato, identificado à luz, ele parece um amontoado de folhas esparramadas no fim do verão, inclinado para baixo e se convertendo em terra. / Tradução de Terezinha Martino 

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