Nicholas Knight/The New York Times
Nicholas Knight/The New York Times

Exposição destaca a simplicidade e a sutileza da obra do pintor Alex Hay

No primeiro estudo de um artista que fez uma pausa de 30 anos do mundo da arte, sua marca particular de realismo continua forte e se tornou mais abstrata

Roberta Smith, The New York Times

05 de junho de 2021 | 15h00

NOVA YORK – Meio século depois e os tributos gigantes em pintura e tela de Alex Hay a artigos normalmente encontrados em papelarias continuam a encantar e surpreender.

Sua pintura de 1965, Legal Pad, faz jus ao título, com o amarelo pálido do papel e o azul claro das delicadas linhas horizontais de ponta a ponta. Pode ser algo quase real, salvo que, com quase 2,5 metros de altura, ela se agiganta. Sua combinação de realismo preciso e uma escala fora do comum sintetizam o dilema da arte de Hay: é imponente e, ao mesmo tempo, modesta, majestosa e ligeiramente cômica.

Legal Pad está entre as 40 pinturas e gravuras na exposição Alex Hay: Past Work and Cats, 1963-2020, na Peter Freeman Inc., que também inclui versões muito ampliadas de uma etiqueta do correio, uma etiqueta de transporte pendurada na extensão do cordel, alguns sacos de papel marrom do tamanho de uma porta e uma página rasgada de um bloco de notas de um estenógrafo.

É o primeiro estudo da carreira de seis décadas de Hay e uma exposição digna de um museu numa temporada repleta de exposições, mesmo com as galerias ainda se recuperando. A simplicidade e a sutileza da obra de Hay o colocam à parte, correspondendo a um artista que sempre foi uma personalidade atípica. Nascido e educado na Flórida, Hay veio para Nova York em 1959 e passou ali pouco mais de uma década no mundo da arte. Ele encontrou sua visão, atuou junto de artistas e dançarinos reunidos em torno de Judson Church, especialmente Robert Rauschenberg, Steve Paxton e Deborah Hay, então sua mulher, e fez três exposições individuais na Kornblee Gallery.

No início dos anos 1970, Hay deixou Nova York e se instalou em Bisbee, Arizona, tendo comprado um velho hotel com o pintor Peter Young. Ele reformou sua parte e viveu e trabalhou ali desde então, passando três décadas sem nenhuma exposição em nenhum lugar. Hay começou a retornar à visibilidade do mundo da arte em 2002 com uma exposição de suas obras da década de 1960 reunidas independentemente do artista por Peter Freeman e que foi seguida pela inclusão delas na Whitney Biennal em 2004. Nessa Bienal, Hay adicionou duas novas pinturas retratando pedaços ampliados de madeira bruta ou pintada que salvou quando da reforma do imóvel em Bisbee, achando que poderiam ser úteis.

Essas obras ilustram perfeitamente a insistência de Hay de que sua arte surge das circunstâncias de um tipo inusitadamente mundano. As pinturas mais recentes na mostra são abstrações de padrões ondulados baseados em close-ups do pelo dos seus gatos, Bella, Marigold, Lilly e Tito. As obras de Hay são emblemáticas dos movimentos da arte orientada para os fatos da década de 1960: pop arte, minimalismo, fotorrealismo e conceitualismo, mas sem estar ligadas totalmente a nenhum deles.

Em primeiro lugar, sua obra é quase completamente manual, o que talvez não surpreenda no caso de um artista adepto da carpintaria e encanamentos. Isso faz parte da sua mística. E está também comprometida com a solução criativa – especialmente como tornar pequenas coisas convincentemente grandes por meio de um processo meticuloso de ampliação que tem aspectos ritualísticos, até mesmo devocionais.

Os objetos de Hay beiram o anonimato, mas as técnicas adotadas, que normalmente envolvem laca em spray e estêncil, são tão acuradas que suas obras adquirem uma personalidade própria. E também insinuam ligeiramente os problemas e métodos da pintura abstrata. Como seus objetos são planos, as peças iniciais facilmente alcançam o objetivo do nivelamento que impulsionou tanto a pintura dos anos 1960.

Suas pinturas de blocos de notas evocam as linhas e listras de Agnes Martin e Frank Stella. Label (1966) tem os cantos recortados, o que o qualifica como uma pintura sem o formato retangular. E o perímetro vermelho clássico da obra lembra os campos delimitados das pinturas minimalistas de Ralph Humphrey e Joe Baer, apenas mais alegres.

A exposição na Freeman retraça o projeto de Hay desde as pinturas reconhecíveis e relativamente representativas dos anos 1960 às relativamente abstratas que ele criou no século presente, acompanhadas às vezes de estudos e desenhos que oferecem um vislumbre do seu processo. Um dos mais belos e misteriosos exemplos dos primeiros anos é Cash Register Slip, de 1966, que retrata, num tamanho 20 vezes maior do que o usual, um recibo impresso datado de 23 de fevereiro de 1966, de compras no valor de US$ 5,05 feitas na Behlen & Bro. Inc., uma loja de material artístico que havia em Greenwich Village.

A brevidade desse pedaço de papel – papel barato, rasgado na parte de cima e de baixo, e especialmente a fonte nítida e a impressão desbotada e irregular, é celebrada. E o trabalho intensivo da pintura é refletido num estudo surpreendentemente pequeno da obra: uma colagem que inclui o recibo original e algumas renderizações ligeiramente maiores, pontilhadas de minúsculos números que medem cada detalhe do recibo com menos de um centésimo de polegada.

Se em Cash Register Slip ele decompõe seu objeto a um nível granular, num trabalho posterior intitulado Old Green 05, de 2005, ele faz algo similar com o ato da pintura. De longe, parece uma pintura monocromática. Chegando um pouco mais perto, sua superfície revela três ou quatro tonalidades de verde, junto com sugestões de saliências, fissuras e respingos adquiridos no decorrer dos anos.

Uma pergunta que surge com frequência nessa mostra repleta de assombros é “Como isso foi feito?” A resposta pode ser ampla. É difícil acreditar que as esculturas ampliadas de sacos de papel, de 1968, não foram criadas com as enormes folhas do papel kraft convencional. Na verdade, foram feitas de papel que Hay pintou de marrom.

Tendo isto em mente você estará inclinado a ver as muitas rachaduras delicadas na superfície amarela de Sun Print (1968) como um belíssimo trompe l’oeil. Neste caso, Hay simplesmente trabalhou com serigrafia, usando uma tinta amarela fugaz numa grande folha de papel e depois deixando-a ao ar livre. O tempo se encarregou do resto. /Tradução de Terezinha Martino

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