Gilles Berizzi/Grand Palais
Gilles Berizzi/Grand Palais

Exposição francesa mostra caráter secular do véu

Vestimenta esteve no centro de diversas polêmicas recentes no país

Jason Farago, The New York Times

06 de julho de 2019 | 16h00

BOURG-EN-BRESSE, FRANÇA - Há cerca de 500 anos, em 1518 ou 1519, o artista flamengo Bernard van Orley sentou-se para pintar o retrato de Margaret da Áustria, uma das mulheres mais poderosas da Europa renascentista. Aos 3 anos, ela era rainha da França. Aos 27 anos, tornou-se regente da Holanda, e Van Orley pintou Margaret como uma política forte e serena em um retrato que seria copiado em toda a Europa.

Seus lábios estão franzidos. Suas mãos pousadas, um rosário entre dois dedos. Ela aperta os olhos, como se estivesse analisando alguma coisa. Em sua cabeça, emoldurando um rosto tão polido quanto porcelana, há uma touca branca maleável. Ela forma um arco da coroa de sua cabeça e envolve suas orelhas e pescoço; expressa sua fidelidade ao falecido marido e, mais ainda, sua reivindicação à autoridade política dele. Toda a validade de seu domínio está nesse véu. É lealdade e é poder.

Margaret está enterrada no Monastère de Brou, um mausoléu palaciano que ela mandou construir aqui em Bourg-en-Bresse, cerca de 450 quilômetros a sudeste de Paris. E o exemplo dela serve como pretexto para uma exposição com uma visão ampla de uma das controvérsias mais persistentes e deprimentes da sociedade francesa atual.

A exposição Velada e Revelada, distancia-se da obsessão contemporânea da França com a vestimenta das mulheres muçulmanas para examinar os muitos usos de coberturas de cabeça na vida pública e privada. Com mais de 100 obras de arte, da antiguidade clássica até o presente, revela como o véu pode servir a propósitos contrastantes e às vezes contraditórios, seja para o luto ou a sedução, para proteger o corpo ou para dar significado às lealdades de alguém.

O véu pode ser religioso ou secular, um marco do domínio patriarcal ou da distinção individual. Acima de tudo, a mostra insiste que o véu não é de modo algum uma incursão “estrangeira” na Europa, um engano cometido tanto por escritores sérios como Michel Houellebecq quanto por uma coleção heterogênea de populistas, extremistas e os definitivamente racistas. É onipresente na arte e literatura da Europa e do Mediterrâneo – e a redescoberta de seu lugar na antiguidade e nas três principais religiões ocidentais pode tirar um pouco da fixação do país pelos lenços de cabeça.

Desde 1905, a França tem sido um país oficialmente secular e proíbe que todos os funcionários públicos usem sinais exteriores de religiosidade. Mas o véu em particular tem preocupado especialmente a França desde 1989, quando três crianças foram impedidas de frequentar o ensino médio após se recusarem a tirar seus hijabs, desencadeando meses de angustiado debate público.

Foi o primeiro de incontáveis casos envolvendo véus e, agravados por duas leis: uma de 2004 que proíbe o véu (assim como o solidéu e grandes cruzes) nas escolas, e outra em 2010 que proíbe cobrir o rosto inteiro com recursos como o niqab em todos os espaços públicos. 

Mas muito antes de assumir um caráter doutrinário, o véu era uma vestimenta neutra. Um dos objetos mais antigos e mais frágeis de Velada e Revelada é uma estatueta de terracota de Chipre feita no final do século 4 a.C., emprestada do Louvre, que retrata uma jovem assolada pelo vento envolta em um himation: um longo manto envolto no ombro e, neste caso, enrolado sobre a cabeça contra o frio. Os véus tornaram-se uma marca de distinção para as mulheres gregas e romanas casadas e, séculos depois, as mulheres e os homens os usaram como acessório secular. Mulheres venezianas, como a de uma gravura de 1775 de Giovanni David, poderiam usar o zendale, um véu preto com um rosto coberto de franjas. As mulheres vitorianas usavam véus para proteger seus rostos do sol, que essa mostra evoca através de um retrato sedutor de Cate Blanchett no filme O Marido Ideal.

A Torá menciona os véus com moderação, mas esta exposição inclui várias pinturas de judeus com cabelos cobertos, entre eles uma pintura de 1885 do orientalista André Brouillet, com três mulheres sefarditas envoltas em véus totalmente brancos sobre seus vestidos coloridos. No Alcorão, também, as referências ao véu são escassas.

Mas São Paulo, nas epístolas, pede explicitamente que as mulheres – e somente as mulheres – cubram suas cabeças quando oram, para não tentar o outro sexo. Esta exposição presta pouca atenção ao cristianismo medieval e do início da era moderna, mas sugere que as mulheres europeias poderiam usar o véu como uma expressão de luxo ou uma ferramenta de sedução. Em um retrato de 1802 de Marie-Denise Villers, uma talentosa aluna de Jacques-Louis David, uma jovem coquete cobre a cabeça com um véu preto que era o suprassumo da moda – mas ela se agacha, recolhendo o sapato e sob o véu há um decote substancial.

Toda essa base histórica serve à exposição na medida que avança para a era colonial e para o islamismo. Os pintores (homens) franceses, que teriam aprendido os fundamentos da representação da tapeçaria na academia, tiveram um interesse especial pelo véu quando foram levados para Argélia, Marrocos ou o Levante. Rapidamente tornou-se lascivo, e numerosos homens viram o véu como um convite para despir quem o usava. Um quadro grosseiro, mas cativante, do pintor orientalista Léopold de Moulignon, de 1860, apresenta um mendigo argelino (presumivelmente imaginado) ajoelhado na rua, desenhando um véu cinza-esverdeado na lateral do rosto – e oferecendo os seios fartos para amamentar uma criança. 

Velada e Revelada é uma mostra estudada. É intencionalmente cool. Ela pisa de maneira especialmente leve no século 20 e não pressiona demais as recentes revoltas nacionalistas e religiosas do mundo islâmico. Também se esquiva dos desentendimentos, por vezes mordazes, entre as feministas, sobre se o véu só pode ser patriarcal e se os padrões de beleza ocidentais oferecem alguma libertação verdadeira.

Uma fotografia de 1957 de Marc Riboud, na qual tunisianos glamourosos de cabeça descoberta se alinham para beijar o líder da independência Habib Bourguiba, lembra-nos das milhões de mulheres muçulmanas que rejeitam o véu. Shirin Neshat, que fotografou mulheres iranianas usando o chador preto sem qualquer caimento contra o pano de fundo de um jardim fantástico, é a única graça salvadora em meio à arte contemporânea mais ou menos terrível.

Mas esse distanciamento pode ajudar a oferecer algumas ferramentas melhores do que as mais diretas que moldam os debates franceses pelo véu, especialmente a oposição espúria do universalismo secular e da tolerância pluralista. A questão não é saber se a França, e a Europa, devem ou não tolerar uma peça que se distingue dos valores “europeus”. A questão é como construir uma sociedade que veja suas histórias locais e coloniais tendo um denominador comum, que vinculem sua história nacional a vidas e culturas enraizadas além de suas fronteiras – e que possam entender tanto o véu quanto a recusa de usar um, como já francês de seu próprio modo. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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