KUNSTHAUS ZÜRICH
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Exposição mostra a meticulosidade das pinturas de Félix Vallotton

Gertrude Stein comparou o processo criativo do pintor suíço a algo como 'abrir uma cortina'

Samuel Reilly, The Economist

20 de julho de 2019 | 16h00

Depois de ver Félix Vallotton trabalhando, Gertrude Stein comparou seu processo de pintar a algo como “abrir uma cortina”. Vallotton, artista suíço, começava sua obra a partir do alto da tela e metodicamente pintava em faixas horizontais, até chegar à  parte inferior. A analogia feita por Gertrude Stein capta a meticulosidade do artista. Mas também sugere a teatralidade que o torna um pintor à parte: a sensação incômoda que se tem das suas gravuras e pinturas de que algo está ocorrendo atrás das cortinas, oculto do espectador. É esta sensação que torna imperdível a exposição Félix Vallotton.

Em 1882, aos 16 anos de idade, ele chegou a Paris vindo de Lausanne, cidade suíça, e se matriculou na Académie Julien, escola de arte liberal. No início não deu muita atenção aos movimentos vanguardistas que se desenrolavam à sua volta; seus primeiros retratos e cenas domésticas são caracterizados por um realismo polido e pelo cuidado com os detalhes, uma característica mais dos mestres da Renascença do norte do que do Impressionismo. Aos 20 anos ele refinou seu estilo, quando se juntou a um grupo de pintores conhecido como Nabis (Profetas), que admirava as gravuras japonesas. Vallotton com frequência pintava diretamente na cartolina e produziu cenas de rua parisienses vibrantes no estilo decorativo típico dos artistas gráficos japoneses.

Ao contrário do Nabis, ao qual pertenceram Pierre Bonnard e Édouard Vuillard, Vallotton se concentrava na psicologia dos personagens capturados em momentos de grande dramaticidade. Numa série de pinturas em tela desses anos, casais burgueses praticam atos clandestinos em interiores esparsos e com tonalidades pastel.

Estes são temas que o pintor levou também para suas gravuras. Ele foi um dos primeiros expoentes do ressurgimento da gravação em blocos de madeira, um recurso que estava adormecido desde a Renascença. Tendo aparecido nas páginas de várias revistas artísticas e anarquistas do início dos anos 1890, as gravuras de Vallotton o deixaram famoso, levando à sua contratação como ilustrador chefe da Revue blanche, uma prestigiada revista literária. Com uma economia suprema e um humor ácido, essas obras-primas em miniatura em branco e preto ilustram a sociedade parisiense em movimento. As multidões crescem, representadas em tinta preta em contraste com o cinzento dos paralelepípedos das ruas. Casais brigam e se abraçam nos seus quartos, quando ele ironiza os jogos de poder sexual da burguesia parisiense.

 Uma reviravolta abrupta ocorre em 1889. Vallotton casa-se com Gabrielle Rodrigues-Henriques, filha de Alexandre Bernheim-Jeune, um famoso galerista, trocando os círculos anarquistas pela vida doméstica abastada que ele satirizava. Com a nova segurança financeira ele deixa quase que totalmente as gravuras, e se concentra na pintura. São nus refinados, paisagens e representações pictóricas de cenas da vida quotidiana, que remontam ao ídolo de Valloton, o pintor neoclássico Jean-Auguste Dominique Ingres, e ao mesmo tempo antecipam os efeitos de superfície imaculados de pintores surrealistas como Salvador Dalí e René Magritte. Como nos seus primeiros trabalhos, contudo, as figuras nessas pinturas posteriores com frequência transmitem uma sensação de mistério e drama que dá à obra de Vallotton uma qualidade singular.

Olhando obliquamente para o espectador, o jovem Vallotton exala determinação autocontrole, contradizendo seus primeiros anos. O brilho na sua testa e a composição da pintura – a figura contra um fundo fosco, claro, sem nenhum detalhe ocasional para distrair a atenção do estudo psicológico - acena para a arte do retrato de pintores renascentistas como Hans Holbein.

Com esta pintura, Vallotton rompeu de modo abrupto e quase total com o realismo. As 21 banhistas, tirando a roupa em vários estágios, são retratadas num estilo radicalmente simplificado, quase cartunista. O quadro provocou escárnio do público quando foi exibido pela primeira vez  e o pintor Henri de Toulouse-Lautrec afirmou que “provavelmente seria confiscado pela polícia”.

Envolvidas na luz da tarde, que vem de uma direção que não está óbvia e que deixa as figuras sem nenhuma sombra, a cena assume uma platitude não natural, como uma frisa. Os corpos contorcidos das banhistas – aludindo a fontes tão diversas como Lucas Cranach o Velho e Henri Rousseau – dão à pintura a sensação de um erotismo ligeiramente volúvel, que atinge seu clímax na caótica espiral de grama refletida na água.

Representado em perfil pela luz da janela em contraponto com a melancolia da sala atrás dele, um homem olha para sua jovem companheira. O rosto da mulher não se volta para ele; ela se apoia no balaústre do balcão, olhando da janela. Próxima da sua cintura, a mão do homem está levantada num gesto aparentemente ambíguo. Mas o título da obra – Money – alerta o espectador para a real natureza do que está ocorrendo.

A obra é da série Intimacies, de Vallotton, publicada pela Revue blanche em 1898. Como em muitas destas gravuras satíricas, a vasta extensão de tinta preta intensifica o clima lúgubre. Retratando as figuras com poucas linhas simples, a narrativa da cena é comunicada de modo tão claro como num cartoon.

A atenção especial à pele enrugada dos pimentões vermelhos nesta natureza morta é característica do estilo de Vallotton depois de 1899, quando ele retorna ao realismo. Mas o artista também introduz aí uma nota de ameaça: a faca de manteiga vermelha de sangue sugere uma narrativa ocorrendo por trás da cena. O quadro foi pintado durante a Primeira Guerra Mundial; embora Vallotton fosse muito velho para se alistar, as histórias de depravação e violência que vinham da frente de guerra despertaram sua imaginação. Sua única série significativa de gravuras após 1899 foi uma cômica chamada “This is War (1915-1916).

Concluída dois anos antes da sua morte em 1925, esta paisagem é uma das últimas obras de Vallotton.  As cores pastel e as curvas suaves de terra e água por toda a tela emprestam à cena uma qualidade sobrenatural que lembra Dalí. Por outro lado, o barco vazio, em primeiro plano, e o pescador que está de costas para o espectador dão à pintura uma sensação de isolamento e mistério – uma quietude claustrofóbica que não é dissipada pela lufada de vento que atravessa as árvores./Tradução de Terezinha Martino

 

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