Estate of Alice Neel
Estate of Alice Neel

Exposição mostra por que Alice Neel foi a maior retratista americana do século 20

Predileção da pintora por tudo o que era desajeitado ia na contramão daqueles que colocavam o estilo e a coerência acima da desordem do conteúdo humano

Sebastian Smee, The Washington Post

01 de abril de 2021 | 10h00

NOVA YORK -  Dias depois de ver People Come First, exposição que percorre a carreira de Alice Neel, no Metropolitan Museum of Art, diante dos meus olhos ainda se reflete a imagem de sua visão viva de uma humanidade vibrante. Mesmo sendo recordadas, as pinturas de Neel nunca são quietas. Elas se retorcem, tremem, se agitam. Particularmente memorável é a sequência de retratos não idealizados, meigos, mas contundentes, de mulheres grávidas, mulheres dando à luz, mulheres amamentando. Vistos cumulativamente, eles são uma das grandes realizações da arte moderna americana.

Alice Neel morreu em 1984, aos 84 anos de idade. Mas esta exposição, People Come First, organizada por Kelly Baum e Randall Griffey, é uma mostra perfeita para o momento atual. Ela responde a um apelo que vem repercutindo, de inclusão institucional. Neel, como retratista, foi ecumênica. Ela pintou pessoas de cor, pobres, idosos, crianças, imigrantes, gays e transgêneros. Pintou-as nuas e vestidas, enfermas e saudáveis, em Greenwich Village nos anos 1930 e depois no Harlem espanhol e, a partir de 1962, em West Harlem. Ela atentou para essas pessoas de uma maneira que exalava - e ainda exala - uma conexão com o amor. ("O amor é um fenômeno de atenção”, escreveu Ortega Y Gasset, que teve uma influência formativa sobre ela nos anos 1920).

Mas esta é apenas uma parte do que torna esta exposição tão oportuna. Embora o foco esteja na singularidade de todos os seus sujeitos, a obra de Neel bombeia oxigênio numa sala asfixiada pelos gases que exalam da política de identidade. Suas cores ácidas e irônicas, sua psicologia obstinada cortam o colesterol ideológico que vem aumentando no nosso corpo político para mostrar a vida como ela é realmente: frágil, intensa, hilária, vivida com grande esforço, efêmera, contraditória, profundamente bizarra e tão bela.

Os retratos contam histórias e o conjunto da obra, como Neel tinha plena consciência, se adiciona à história coletiva, uma camada de zeitgeists sucessivos. Mas a pintura é visual. De maneira que, em primeiro lugar, falemos do seu estilo: tem tudo a ver com o momentâneo. A maior parte é excelente, mas Alice pintava rapidamente. As cores são arriscadas, ousadas, novas. Laranjas e limões queimados, fundos em azul-claro, sombras verdes na pele, linhas de contorno azuis. Ela adorava padrões chamativos. Nada mais a agradava do que uma camisa xadrez ou uma cadeira despojada.

À medida que ia amadurecendo, nas décadas de 1960 e 70, Alice se tornou mais e mais confiante em termos de acabamento. Seus melhores retratos combinam áreas com  detalhes minuciosamente elaborados - especialmente mãos e rostos - com outras deixadas intencionalmente em branco ou com tratamento superficial. Como uma aquarelista, às vezes ela criava uma composição em torno dessas áreas vazias. Por exemplo, no caso da luminosidade brilhante do cabelo da pessoa sentada, ou as dobras iluminadas de um casaco, ela deixa exposta a superfície preparada da base.

Flertar com graus de acabamento para transmitir uma maior urgência já era um elemento básico da pintura moderna de retratos (caso de Degas, Morisot e Sargent). Mas Alice avançou para um território novo. E sua ousadia parece ligada à vulnerabilidade do seu projeto: nada é fixo, tudo é instável.  

A adoção de tudo o que desajeitado era uma reprovação daqueles que colocavam o estilo e a coerência acima da desordem do conteúdo humano. Sua visão dos caprichos da existência humana estava em discordância não só com a abstração que dominava a arte americana na sua época, mas também com a superficialidade e o virtuosismo de Sargent e pintores como Alex Katz e Philip Pealstein. Dedos retorcidos ou alongados, corpos desajeitados, excentricidades em termos de perspectiva e escala, contornos pesados, essas características aproximam a obra de Neel da de Van Gogh.

Há uma espécie de corda-bamba no enfoque de Alice Neel. Que pode falhar espetacularmente porque depende de muitas contingências.  A pessoa sentada e a artista se darão bem? Alice está se sentindo valente, terna, excitada? A pessoa sentada está indiferente e tensa, ou obediente e dócil? Quão interessada permanecerá a pintora no processo à medida que ele avança? Algo diferente chama sua atenção? Com frequência isso ocorria.

Essas vicissitudes se aplicam também ao retrato fotográfico, mas não no mesmo grau. “Numa cultura de fotografia, perdemos a tensão que o poder de censura da pessoa retratada provoca no caso do retrato pintado”, afirmou o pintor Lucian Freud. Uma diferença crucial entre o retrato na fotografia e na pintura, acrescentou, “é o grau até onde os sentimentos entram nessa transação de ambos os lados. A fotografia consegue alcançar o mínimo, mas a pintura chega a um grau ilimitado”.

Neel e suas modelos manifestavam todos os tipos de sentimentos nas pinturas e é isto que as torna arrebatadoras.

É o caso de Georgie Arce Nº2, uma de uma série de pinturas de um menino que Neel encontrou numa rua do Harlem nos anos 1950. Georgie gostava de posar e adorava mudar as coisas. Aqui ele está sentado numa cadeira de cozinha como se estivesse cansado de posar e pronto para dar um salto para a frente. Sua mão direita segura uma faca de borracha. Seu rosto tem um ferimento, suspeito, possivelmente uma expressão frustrada. De acordo com a legenda, Neel “lembrou dele segurando (a faca de brinquedo) na sua garganta na ocasião”.  

“Isto foi somente uma brincadeira”, disse ela, acrescentando: “ele era um pequeno personagem desesperado”.

Embora ela fosse a única com o pincel, em outras palavras, ela quis dar a Georgie um grau inusitado de intervenção. Essa vontade dá a todos os seus retratos uma volatilidade absorvente.

Neel estava também determinada a capturar tudo que conseguisse de uma ocupação de um corpo. Especialmente um corpo feminino. Suas próprias experiências de maternidade a tinham levado ao inferno e retornado.

A história é muito complexa para relatar em detalhes, mas ela perdeu sua primeira filha antes de a criança completar um ano. Sua segunda filha, Isabetta, nasceu logo depois, mas Alice foi enganada pelo pai da garota, que roubou Isabetta e fugiu para Cuba, antes da garota completar dois anos. Neel sofreu um colapso nervoso grave e passou quase um ano internada no Philadelphia General Hospital. Embora tenha visto Isabetta novamente, elas permaneceram muito afastadas. Posteriormente, Alice teve dois filhos, Richard e Hartley, que ela criou sozinha.

Mais de três décadas após esses eventos, ela pintou o quadro Nancy and Olivia, uma obra prima. Do mesmo modo que em Georgie Arcie Nº2, a precariedade da posição do modelo encostado numa cadeira de madeira, as pernas cruzadas, é crucial para o efeito geral da instabilidade. (Das nove pernas, humanas, da mesa ou da cadeira - apenas duas têm contato visível com algum apoio, e uma é a do bebê, muito pequeno para sustentar seu próprio peso).

No olho direito da mãe vemos sua íris inteira, evocando alarme e fadiga (nova maternidade, uma emergência constante). Mas não há nenhuma nota de exagero expressionista. A pintura como um todo continua bela. Com a panóplia de verdes e azuis tinindo e harmonizados, no estilo de Cézanne, você imediatamente percebe que colorista maravilhosa era Alice Neel.

Outra pintura notável é a da mesma mãe quatro anos depois, com duas meninas gêmeas nuas no sofá ao seu lado, uma delas mamando no peito dela. Por outro lado, a série de grandes pinturas de mulheres grávidas dos anos 1970 e 70 simplesmente são sem precedentes.

Os retratos de meninos e homens também são profundos. Alguns dos seus primeiros trabalhos parecem rígidos, mas James Farmer (1964), Richard Gibbs (1968) e o esplêndido John Perreault (1972) devem ser colocados na primeira fila no campo da pintura retratista americana, como também os maravilhosos retratos: Jackie Curtis and Ritta Redd (1970), Linda Nochlin and Daisy (1973) e Geoffrey Hendricks and Brian (1968).

No contexto de uma instituição como o Met, o título da mostra, People Come First, parece uma provocação marota. A frase veio de uma entrevista que Alice Neel deu para o periódico comunista Daily Worker em 1950. Ela ingressou no partido em 1935 e foi afiliada durante toda a sua vida. Mas disse que "nunca fui uma boa comunista”.

“Odeio burocracia. Mesmo as reuniões me deixavam louca”, afirmou.

“Era uma evasiva?”. Ter continuado alinhada com o partido mesmo depois dos crimes cometidos por Stalin se tornarem conhecidos e depois do desvio do partido no sentido de uma desumanização ficar clara para todos, salvo os teimosamente cegos, indica algo pior do que ingenuidade política.

Dito isto, era preciso coragem para ser um comunista na América dos anos 1950. Neel foi investigada pelo FBI; nos arquivos do departamento ela é descrita como “comunista do tipo boêmio romântico”. E não há dúvida que os ideais por trás do comunismo - simpatia e solidariedade para com os oprimidos, acima de tudo, subscreveram sua arte desde o início.

“Eu tenho procurado afirmar a dignidade e eterna importância do ser humano”, disse ela ao Daily Worker.

Para mim, diante das imagens impressionantes, maravilhosas, mesmo a dignidade e a eterna importância soam muito abstratas, muito grandiosas. Sua arte nos faz perder a paciência com uma retórica de segunda mão. Dê-me George Arcie de novo. Mostre-me Nancy and Olivia.

Tradução de Terezinha Martino

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