Smithsonian National Museum of the American Indian
Smithsonian National Museum of the American Indian

Exposição nos EUA mostra a inovação tecnológica que vem dos índios

Espaço interativo no museu Smithsonian explora a ressonância da inventividade dos nativos da América na modernidade

Laurel Graeber, The New York Times

26 Maio 2018 | 16h00

O conceito de inovação, tão vital para a matemática moderna, já era compreendido pela civilização maia, uma das primeiras a usá-la. Mas esta não foi a única inovação dos povos indígenas. Imagine os óculos de neve. O chocolate. Ou as pontes suspensas. Ou até o tênis. “Os povos nativos não inventaram o Chuck Taylor”, disse Duane Blue Spruce, gerente de projetos do Museu Nacional do Índio americano, da Smithsonian, referindo-se ao clássico tênis. “Mas somos responsáveis pelo processo químico de criação da borracha”, ele acrescentou.

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Essas descobertas e muitas outras estão na base do imagiNATIONS Activity Center, instalação permanente bilíngue (inglês e espanhol) dedicada a jovens e famílias inaugurado na filial do museu em Nova York. Parte de uma renovação avaliada em aproximadamente US$ 9 milhões.

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Embora já exista um imagiNATIONS Center no prédio do museu em Washington, este agora é destinado a alunos da quarta à 12ª. série. E com uma direção inteiramente nova.

“As pessoas, quando pensam nos nativos americanos, no geral não fazem nenhuma ligação com matemática, engenharia e ciência”, disse o diretor do museu, Kevin Gover. Além de rebater a ideia de que os índios americanos eram povos primitivos, o centro vem preencher uma lacuna nos currículos escolares, disse Gover. “A ideia que se transmite para os escolares sobre os indígenas americanos é que são pessoas que aqui estiveram e hoje desapareceram. O que afirmamos é que não desapareceram, mas suas realizações ancestrais ainda influenciam nossa vida moderna”.

Esta mensagem é passada aos visitantes na forma de um grande mapa das Américas, pontilhado com símbolos das cerca de 30 inovações nativas. O tema é explorado nas seções do museu voltadas para matemática, nutrição, medicina, engenharia, física e arquitetura e que foram todas montadas com cientistas nativos americanos. Neste fim de semana, mais especialistas indígenas estarão no Children’s Festival, evento anual do museu, que comemorará a abertura do centro. Projetado por Ewing Cole, o espaço abrange uma sala de aula e um salão de descobertas onde as crianças poderão manusear objetos que vão desde um palito de dente feito com o bigode de um leão marinho até uma bola de 4,5 quilos usada num jogo asteca denominado ‘ulama’.

“Este é provavelmente o jogo mais antigo usando uma bola de borracha que até hoje é jogado”, disse Gaetano DeGennaro, administrador do centro e que pertence à Ohoo O’odham Nation, com quem fiz um tour pelo espaço com Blue Spruce, da tribo Laguna Pueblo.

Uma visita ao imagiNations é uma lição de humildade, mesmo para os adultos. A seção de matemática traz problemas nos símbolos e no sistema numérico maias, baseados no número 20 – e culmina com um “super desafio”. Um jogo computadorizado de perguntas e respostas de múltipla escolha sobre assuntos de conhecimento geral , com questões difíceis como “Que tribo criou primeiro o cavalo Appaloosa?

“A população indígena já modificava alimentos geneticamente há sete ou dez mil anos”, disse DeGennaro, apontando para as mostras de milho na seção sobre nutrição. Aqui as crianças podem jogar o Cropetition, jogo digital envolvendo os primeiros desafios dos nativos americanos no campo agrícola. Plantando virtualmente feijão, abóbora e variedades de milho, os competidores combatem desastres naturais e aprendem a cultivar.

Os jovens visitantes também podem assumir o papel de curandeiros, usando o que é conhecido como Codex de la Cruz-Badiano. Compilado em 1552 como um presente para o rei espanhol, ele contém um sumário dos remédios à base de ervas desenvolvidos pelos astecas. Numa exposição interativa, as crianças escolhem uma doença e selecionam o remédio para ela nesse Codex.

“Escolhemos temas que fossem interessantes para as crianças, como no caso dos vermes intestinais”, disse Blue Spruce. Um consultório médico com produtos como aspirina – cujo precursor é a salicina, extraída da casca do salgueiro – mostra como o conhecimento antigo ainda está em uso.

O centro também mostra que não era algo tão extraordinário a tecnologia indígena superar a europeia. Para ilustrar a força das pontes suspensas com fibras de plantas – um exemplo peruano está exposto –, uma das mostras da seção de engenharia, “Faça e Balance”, é um convite para os visitantes construírem um modelo de ponte sustentada por arcos no estilo europeu próximo de uma ponte suspensa por cordas. E eles podem criar um “terremoto” empurrando e puxando uma alavanca e adivinhar qual ponte vai cair primeiro.

As crianças encontrarão outras estruturas ilusoriamente complexas na seção de arquitetura, onde podem montar um iglu. “Não é uma cúpula semicircular como muitas pessoas acreditam”, disse Blue Spruce. Empregando o que chamamos de arco catenário, os esquimós Inuits criam o iglu em formato de espiral, o que lhe dá resiliência.

A seção de física oferece mais engenhosidade ártica e também diversão. As crianças podem se equilibrar num modelo de caiaque mecanizado – que fica na posição vertical depois de virar – imitando uma embarcação cruzando águas agitadas.

Outra mostra ilustra como os esquimós usam a condutividade sonora da água: se colocar sua orelha na parte do remo submersa ouvirá – neste caso, por meio da tecnologia – um chamado de acasalamento de uma foca-barbuda.

Gover disse esperar que o centro contribua para o museu receber mais visitas das famílias locais. E pode haver outro benefício. “E as pessoas talvez fiquem mais interessadas em matemática e ciência”, acrescentou. / Tradução de Terezinha Martino 

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