The Lane Collection/Boston Museum of Fine Arts
The Lane Collection/Boston Museum of Fine Arts

Exposição ressalta importância de Ansel Adams para preservação natural

Fotógrafos ajudaram a concretizar projetos de proteção ambiental como parques e reservas naturais nos EUA

Vicki Goldberg, The New York Times

26 de janeiro de 2019 | 16h00

 BOSTON – Ah, natureza! Ela é a resposta americana às catedrais da Europa, prova de uma identidade nacional única. Muitos cidadãos foram apresentados à natureza selvagem por imagens. No início do século 19, Thomas Cole colocou as paisagens do leste – e suas amadas montanhas Catskill – em murais. No final do século, em 1861,  as fotografias das Carleton Watkins do parque nacional de Yosemite contribuíram muito para a decisão de Abraham Lincoln, em 1864,  de proteger o vale “para uso público, resort e recreação”. Foi a primeira vez que um governo reservou um espaço de terra em benefício da população.

As fotografias de William Henry Jackson, de 1871, de Yellowstone contribuíram para convencer o Congresso a autorizar a criação do primeiro parque nacional em 1872. Depois, na década de 1930, Ansel Adams (1902-1984), um ferrenho conservacionista que cresceu perto das dunas batidas pelo vento do Golden Gate Park, fez pressão sobre o Congresso e enviou ao governo um livro das suas fotos da cordilheira de Serra Nevada. As fotos influíram vigorosamente na decisão do presidente Franklin Roosevelt de transformar a área de Kings Canyon num parque nacional.

No final do século 19 todas as casas tinham um leitor de imagens estereográficas em 3D de um Oeste que parecia uma fábula. Manifestamente – na mente e também como missão – o Oeste era o nosso destino. E agora é estimulante – e talvez exemplar – ver, num momento em que a paralização do governo tem afetado muitos parques nacionais, tantas imagens nobres e estimulantes da herança do nosso país na exposição Ansel Adams in Our Time, no Museu de Belas Artes de Boston. É uma mostra de grande alcance, inteligente e instrutivamente instalada, com mais de 100 fotografias de Adams.

 

Não é uma mera retrospectiva, uma vez que ela inclui também 80 imagens de 23 fotógrafos contemporâneos que a curadora Karen Haas chama de uma lente moderna em Adams. Embora as relações sejam ocasionalmente um pouco tênues, a inclusão deles realça como Adams se tornou uma força inexorável.

Os fotógrafos presentes na mostra que adaptaram as imagens de Adams simultaneamente fizeram mudanças e ilustrações radicais. Sua inclusão aponta para transformações importantes na maneira como a fotografia de paisagens, e a própria paisagem, são vistas hoje.

Apesar de Adams ter se dedicado ao século 19 seus olhos foram treinados no modernismo e na “straight photography” (fotografia direta) dos anos 1930,  com seu foco exato, o vívido contraste e composições equivalentes a estudos de forma e luz. Suas fotos emblemáticas e de tirar o fôlego das montanhas do parque nacional de Yosemite e de outros lugares estão expostas, como também paisagens meio abstratas  como Sand Dunes, Sunrise, Death Valley National Monument, Califórnia”, que podem muito bem ficar ao lado de um Edward Weston.

Muitas fotos pertencem à Lane Collection, um presente generoso que ela ofereceu de mais de 450 fotografias de Adams ao Museu de Belas Artes de Boston. E há surpresas também, como a gama de interesses de Adams (e da sua necessidade de ganhar a vida com encomendas e trabalhos para revistas), que iam desde americanos nativos às cidades fantasmas, dos campos de internamento de japoneses na Segunda Guerra Mundial a cemitérios, igrejas, uma loja de charutos indiana, um trevo rodoviário.

Como Ralph Waldo Emerson, Adams sentia uma grande espiritualidade na natureza que sinalizava um anseio pela beleza, paz e o espetáculo da natureza livre de travas – um desejo que sobrevive vigorosamente no nosso tempo, sugerindo que ele é inato.

Adams tinha 14 anos quando visitou pela primeira vez o Yosemite. Rapidamente foi com sua Kodak para o estupendo vale e ficou tão emocionado com a experiência que mudou sua vida. Ele desejava que suas imagens transmitissem as emoções que experimentou quando tirou as fotos e reforçassem o impacto no quarto escuro. Que felicidade para as artes o fato de a visão humana, embora não registre o mundo em preto e branco, responder à representação incolor num nível dentro do alcance da sua resposta à cor.

O turismo de natureza cresceu exponencialmente desde os anos posteriores à Guerra Civil americana aos dias de hoje, mas as matas intocadas diminuíram à medida que a população aumentou e migrou para cidades e subúrbios e a mineração, a extração de gás e petróleo e a industrialização invadiram espaços abertos. Adams, embora bem ciente do quão comercializados os parques nacionais se tornaram, de certo modo previu que nos fins de semana de verão as áreas que margeiam o Grand Canyon se assemelhariam a Woodstock. 

Ele preferia os parques selvagens e a foto do Vale de Yosemita de Edward Muybridge, do século 19 com uma estrada de terra estreita atravessando está ao lado de uma imagem de Adams do mesmo lugar, a estrada cuidadosamente retocada. Os fotógrafos observaram como o “progresso” mudou a terra. Nos anos 1960 e 1970 o movimento denominado New Topographics sinalizou uma mudança radical das imagens da terra para as muitas maneiras que nós adaptamos.

Robert Adams, Lewis Baltlz e outros fotografaram o que eram antes as majestosas montanhas cor de púrpura das montanhas – que agora se assemelham mais a uma torre acima das estradas esburacadas e casas medíocres.  Adams também focou isto. Sua foto de um conjunto habitacional está na mostra, junto com a imagem de uma estátua de um cemitério que deixa claro que o cemitério margeia uma floresta – de torres de petróleo.

Os New Topographers estavam determinados a aceitar o lento declínio das matas, em parte pelo seu persistente desejo de estar perto da natureza, cujas consequências sentiram na própria carne. Muitas casas destruídas pelos recentes incêndios ao norte da Califórnia estavam na chamada interface urbano-florestal e perigosamente próximas da floresta. 

No final dos anos 1970 um grupo chamado Rephotographic Project  concluiu exatamente onde e em que estação estavam alguns fotógrafos de paisagens do século 19 e então tiraram fotos nas mesmas ocasiões e lugares. A paisagem, com frequência, era reconhecível, mas também com frequência estavam superexpostas, ou parcialmente obstruídas por prédios.

Mas fotógrafos comerciais e de arte ainda hoje produzem belíssimas fotos das paisagens. Essas fotos aparecem em todos os lugares graças ao Instagram, dando uma prova de que a natureza silvestre ainda existe, embora superada em número pelos seus retratos.

 

Alguns fotógrafos contemporâneos fazem uma pergunta vital de história da arte: o que pode ser feito com um cenário que se tornou um ícone e está gravado em nossas mentes? A resposta está no que os artistas fizeram com ícones durante séculos. Eles os reinterpretaram.

Ark Klett e Byron Wolfe incorporaram peças de fotógrafos antigos em sua própria colaboração para esta exposição, colocando uma sequencia de tempo numa única imagem. Fotografaram a vista do Glacier Point que dava exatamente para o local onde Carleton Watkins se encontrava e depois substituíram partes da sua foto a cores com um fragmento de uma foto de Adams da mesma vista.

Catherine Opie tirou fotos fora de foco, muito coloridas, do território de Adams nos parques nacionais. Em um vídeo exibido na mostra ela afirma que seu desejo é de que as pessoas saibam o que estão vendo, mas não questionem, e façam uma constatação que não é possível com um clique em um iPhone, ou um olhar na mídia social.

Abelardo Morell converteu uma  barraca escura e fechada numa câmara escura. Uma imagem do que um periscópio anexado viu foi projetada através do seu espelho angular no terreno da barraca. Ele então fotografou aquela imagem e a imprimiu exatamente como era, mostrando a beleza através de farrapos e sujeita, como se as solas dos nossos sapatos se levantassem para insistir que eram tão essenciais para ver quanto a própria vista.

Binh Danh fez fotos com daguerreotipo do parque de Yosemite. Uma reversão do tempo e da história. Essas fotos, feitas sem um negativo, são excepcionais. Era um processo introduzido em 1839 e nunca usado para paisagens, e mais tarde substituído pela adoção dos negativos quando Watkins fotografou o Yosemite em 1861. Sua superfície é reflexiva de modo que as pessoas se veem olhando imagens de locais emblemáticos em que elas estão dentro.

 Mark Ruwedel fotografou os túneis e atalhos que foram construídos a um custo terrível e depois abandonados nas estradas do Oeste – caminhos inúteis que dão a lugar nenhum. A Altamont Pass Wind Farm, de Mitch Epstein, sugere que a interferência humana chegou a um nível difícil de acreditar. Os parques eólicos se encontram num deserto árido, mas onde os moinhos de vento terminam um reluzente campo verde de golfe começa, com pistas de concreto para os carrinhos de golfe. De onde vem a água? E a sujeira? Parece irônico fazer arremessos num campo inteiro ao lado de um banco de areia, mas a ideia no século 19 de que Deus queria que as pessoas controlassem e reconfigurassem a terra para o seu uso não tinha isso em mente.

David Emitt Adams também fotografa uma paisagem transtornada, usando a ferrotipia (outro processo do século 19) de detalhes da paisagem em esculturas que ele produziu com latas de metal velhas e descartadas que recolhia no deserto.

Embora Adams continue popular e fotógrafos da natureza em todo o país e no mundo continuam a nos oferecer imagens voluptuosas dela, provavelmente o maior número de fotos de paisagens que as pessoas veem, na televisão, na Internet, no celular e em jornais,  são imagens da destruição do meio-ambiente que se deve em parte à mudança climática: praias, rios, cidades e ilhas inundadas, glaciares diminuindo, incêndios florestais por causa da seca, furacões destruindo cidades e campos. Todas as previsões científicas dizem que tudo isto só vai piorar se não agirmos logo.

Belas paisagens são boas para os olhos, a mente, o espírito. Um dia as imagens poderão ser somente o que restou delas.

Tradução de Terezinha Martino 

 

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