Rena Bransten Gallery/New Museum
Rena Bransten Gallery/New Museum

Exposição reúne 40 artistas negros para tratar do luto provocado pelo racismo

Alguns dos principais artistas americanos tratam de feridas como a morte precoce em 'Arte e Luto na América'

Sebastian Smee, The Washington Post

10 de outubro de 2020 | 16h00

Uma exposição envolvendo um grupo de 40 artistas negros mais aclamados do país será realizada em janeiro no New Museum em Nova York. Grief and Grievance: Art and Mourning in America torna realidade a ideia do falecido Okwui Enwezor, um dos mais influentes curadores dos últimos 30 anos, que morreu de câncer em março de 2019 aos 55 anos.

A mostra, anunciada pelo museu na terça-feira, é descrita pelos organizadores como “incrivelmente premonitória e oportuna”, uma resposta direta à emergência nacional do sofrimento negro” e uma “forma de terapia coletiva”.

Alguns dos artistas envolvidos afirmam que Enwezor foi o responsável pela reviravolta bem-sucedida em suas carreiras. “Literalmente, sem Okwui eu jamais teria uma carreira no campo da arte”, disse Arthur Jafa, cuja montagem de vídeo, Love is the Message, the Message is Death, para a música de Kanye West Ultralight Beam será uma obra chave na exposição.

Outros artistas que estarão na mostra (que inclui um catálogo ensaio de Ta-Nehisi Coates e música de Tyshawn Sorey) são Mark Bradford, LaToya Ruby Frazier, Nari Ward, Deana Lawson, Rashid Johnson, Julie Mehretu, Kerry James Marshall e Carrie Mae Weems.

Neste período de ajustes de contas raciais e de polarização política, “a visão de Okwui e as vozes dos artistas selecionados para esta exposição não podiam ser mais relevantes”, afirmou Lisa Phillips, diretora do New Museum, onde a mostra ocupará os três andares de espaços.

Quando Enwezor faleceu, a exposição estava 85% pronta, disse Massimiliano Gioni, diretor artístico do museu. “Procuramos não nos desviar do seu projeto. Quando em alguns aspectos não foi possível, tentamos atuar como um restaurador ou curador para preencher as lacunas”.

Enwezor, que nasceu na Nigéria, organizou exposições transnacionais e multigeracionais ambiciosas que contaram grandes histórias, dando protagonismo à arte contemporânea da África e outros lugares pouco reconhecidos. Grief and Grievance era sua primeira exposição focada nos EUA como local geográfico.

À época da sua morte, o assassinato de George Floyd pela polícia e os subsequentes protestos ainda não haviam ocorrido. Mas Enwezor (que vivia na Alemanha esse período) já havia percebido que a cultura americana presenciava um momento de crise, que chamou de “cristalização do sofrimento negro”.

“Ele procurou captar as frequências de muitos artistas que estavam enfrentando essa crise e tentando encontrar maneiras de sanar a dor e transformar isto numa ação ou participação política”, disse Gioni.

Até a sua morte, Enwezor vinha conversando com alguns dos artistas que desejava na mostra e selecionou um deles, Glenn Ligon, para atuar como seu substituto. Ligon trabalhou com Gioni, Naomi Beckwith, curadora do Museu de Arte Contemporânea de Chicago, e Mark Nash, curador baseado na Califórnia, para concluir o projeto.

Enwezor já estava enfermo e vivendo em Munique quando ele e Ligon começaram a falar sobre a exposição por telefone, no final de 2018. “Ele queria um interlocutor para divulgar e debater as ideias”, disse Ligon.

“Fui visitá-lo pouco antes da sua morte. Foi uma visita extraordinária, ele estava literalmente saindo do seu leito no hospital, sendo colocado numa cadeira de rodas, quando entrei no quarto. Ele me disse” ‘vou fazer esta sessão de radioterapia e já volto’, E depois passamos as sete horas seguidas conversando sobre a exposição, com ele em sua cama no hospital. Não estou exagerando’”, disse Ligon.

A morte de Enwezor, que foi lamentada por muitos artistas que ele promoveu, faz eco ao tema da exposição sobre o sofrimento negro. A mostra, disse Naomi Beckwith, indaga o que significa “estar num estado perpétuo de luto”.

Como reconhecemos isto quando é tão fácil dissimular? É muito fácil passar o seu dia e ser produtivo, seja como um trabalhador, um cidadão, um membro de família, mas não entender que está frequentemente lidando com um profundo e ignorado sentimento de perda”, disse ela.

“A tentação é imaginar esta mostra como uma resposta a George Floyd, Breonna Taylor ou Trayvon Martin”, disse Ligon, “e isto tem algum sentido. É parte da dor. Mas também é importante entender que os artistas estão respondendo ao que Okwui vinha chamando de “emergência do sofrimento negro”, há um longo tempo.

Para Massimiliano Gioni, a exposição indaga: “como ver e tolerar e presenciar certos atos de violência e como a arte nos ajuda a processar essas imagens? E ao processarmos essas imagens também processamos esses sentimentos de perda”.

Para muitos dos artistas que integram a mostra, a resposta não está na representação do trauma, mas na transformação do trauma em abstrações as mais variadas (ou arte não figurativa).

Ligon comparou o ímpeto de alguns artistas negros para produzir arte abstrata à “fúria do sopro” na música de John Coltrane. “A indignação e a dor no seu modo de tocar tem paralelo com o que alguns artistas abstratos negros vêm tentando fazer. Passar do que é atual para o espiritual”.

“Num país baseado na supremacia branca, sempre haverá uma Breonna Taylor, um Trayvon Martin, um Michael Brown. É importante dizer os nomes deles, é importante representá-los. Mas a abstração para mim é um algo um pouco mais profundo, diz respeito à alma do país e exprime o inexprimível”.

Os artistas que conheceram Enwezor parecem ávidos para falar sobre ele nos temas da exposição. Todos relembram com admiração o vigor que ele mostrava durante horas de conversas pelo telefone ou pessoalmente, poucas semanas antes da sua morte.

“Ele sabia o que estava fazendo e prosseguiu de uma maneira muito direta, suave e profissional”, disse Jafa. Como a escritora Toni Morrison, Enwezor era extremamente sensível à complexidade de ser uma pessoa negra num universo da supremacia branca, mas quase paradoxalmente agindo como se isto não tivesse efeito nenhum sobre ele”, acrescentou.

Ligon fez menção ao rigor intelectual e à generosidade de Enwezor. “Ele fazia suposições sobre as ambições de uma pessoa que com frequência iam além das ambições dessa pessoa com relação a si própria. Ele era assim”.

Enwezor atuou como “um insider e um outsider da experiência negra americana”, disse Rashid Johnson. “Ele tinha a cor da pele e quando estava neste país era impactado por isto. E como não era um afro-americano, conseguia refletir como um estrangeiro sobre como as narrativas afro-americanas têm essa dicotomia tão fascinante entre alegria e dor”.

A última conversa que Johnson teve com Enwezor foi também a melhor. Depois de ver a obra de Johnson, Antoine’s Organ (que faz parte da exposição), ele ficou empolgado. “Ele deixou claro que vira um tremendo crescimento do meu trabalho. Eu me senti honrado e lembro-me de ter pensado ‘Oh, esta será minha primeira real oportunidade de trabalhar com Okwui'."

Um ano depois, Enwezor faleceu.

Tradução de Terezinha Martino

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