David Wolkowsky/Key West Art & Historical Society
David Wolkowsky/Key West Art & Historical Society

Exposição reúne telas pintadas pelo dramaturgo Tennessee Williams

Autor de peças de teatro também se expressava por meio das artes visuais

Michael Adno, The New York Times

29 Setembro 2018 | 16h00

KEY WEST, EUA - Em 1941, Tennessee Williams chegou a Keywest, cidade no estado da Flórida, nos EUA, para se desintoxicar e se hospedou numa pequena casa na Doval Street. Nas quatro décadas seguintes viveu nos arredores e em Keywest e se tornou um dos mais importantes dramaturgos americanos, com uma obra que incluiu também poemas e contos.

O que poucos sabem é que Williams pintou centenas de quadros que nos dão uma ideia próxima e imparcial de como lutou com seu problema de sexualidade e solidão e encontrou seu lugar no mundo. 

Até domingo, 7 de outubro, nove das pinturas de Williams estão expostas no Museu Judaico da Universidade Internacional da Flórida, em Miami. Como suas peças de teatro, essas obras expõem os tabus sociais que ainda perseguem os Estados Unidos.

Quando chegou a Key West, ele se acomodou numa pensão de antes da guerra e ali reescreveu sua peça Batalha dos Anjos, que compôs em 1940, e que ficou apenas duas semanas em cartaz em Boston. Apesar deste fracasso, Williams continuou a trabalhar tenazmente e acabou refazendo a peça que se tornou A Descida de Orfeu. “Talvez eu tenha realmente sufocado meu demônio”, escreveu ele em seu diário, acrescentando que “não acho, Penso que ainda é uma fênix e você continua encurralado e pode ter grandes problemas”.

Depois ele mudou para o Loa Concha Hotel, onde concluiu o esboço do texto que viria a ser Um Bonde Chamado Desejo, que lhe propiciou seu primeiro Prêmio Pulitzer, em 1948. 

Após a sua ascensão, ele se instalou numa casa a algumas quadras do condado de Duval e comprou-a em 1950. Ali permaneceu até sua morte em 1983. “Trabalho em qualquer lugar. Mas aqui eu trabalho melhor”, disse ele.

Em Key West os amigos o encontravam sempre na frente da sua máquina de escrever, cercado de manuscritos, pincéis de tinta e cartas não abertas. Durante toda a década de 1970, turistas passavam na frente da sua casa, e ele vendia suas pinturas através da cerca, às vezes antes da tinta secar. Mais de uma vez chegou a algum jantar levando de presente um quadro recém-pintado de presente.

Por causa dessa distribuição ao acaso de seus quadros, ninguém sabe quantos existem. Nas nove obras expostas no Museu Judaico, Tennessee Williams – Playwright and Painter (Tennessee Williams – Dramaturgo e Pintor), referências a Jean Genet, Arthur Rimbaud e Wallace Stevens se mesclam com iconografia religiosa e com seus próprios personagens. Há mesmo um retrato do ator Michael York, que estreou a peça de Williams Out Cry em 1973.

A preocupação de Williams com temas perenes de amor e morte paira no seu trabalho. Para o novelista Edmund White, cujo nome se tornou sinônimo de literatura gay, as peças Gata em Teto de Zinco Quente e Um Bonde Chamado Desejo – de maneira velada – eram expressões do desejo homossexual. 

Embora as peças, para serem apresentadas na Broadway, não pudessem se referir a esses temas diretamente, contos como Desire and the Black Masseur (Desejo e o Massagista Negro) certamente trataram do assunto.

“Acho que ele foi o primeiro a escrever sobre isso explicitamente”, disse White em uma entrevista por telefone, acrescentando que sua obra tornou a vida gay mais visível para ele e para os EUA – quando ele crescia na década de 1950. “Certamente como um garoto gay eu me interessei muito por seu trabalho”.

Além das peças, as pinturas de Williams foram um meio de se aprofundar em temas como o significado de ser um homem gay nos Estados Unidos. Em Le Solitaire, por exemplo, podemos ver o quão solitário foi seu caminho. E em Citizen of World III um jovem está sentado em uma cadeira de vime que parece ser uma que Williams tinha em casa, o espaldar formando uma auréola em torno dele, enquanto números flutuam diante dele como pontos num tabuleiro de dardos. Embaixo o título do quadro é seguido da frase “composto para a prática de tiro ao alvo”, aludindo possivelmente à sua frustração com a recepção ao seu trabalho e à violência dirigida contra ele nos anos 1970.

Nessa época, depois de um pastor batista aconselhar os leitores a “erradicarem os sodomitas, em um anúncio publicado no jornal local de Key West, vários crimes contra gays ocorreram. Por duas vezes, “punks”, como Williams os chamou, saltaram contra ele, que avisou a polícia, provocando um vendaval de publicidade e reações violentas.

Em 1981, Dotson Rader, escritor amigo de Williams, escreveu sobre um incidente em que ele e o amigo estavam cantando para um grupo na rua quando um homem desembainhou uma faca. Rader tentou convencer Williams a irem embora. Mas ele gritou: “Meu nome é Tennessee Williams! E eu não recuo”. Os dois foram espancados e um dos homens do grupo que os atacou foi identificado como o filho de um delegado de polícia local. Ninguém foi acusado.

Mais assustador foi o assassinato em 1979 do seu jardineiro Frank Fontis, que era gay e seu amigo, e que foi morto a tiros no dormitório do Railroad Museum. Naquela mesma noite, a casa de Williams foi destruída. Seu cachorro morreu. Quando urinavam no gramado da sua casa, ele dizia a Rader que “provavelmente isto é bom para as plantas”. Adolescentes jogavam latas na varanda de sua casa, gritando palavrões. Mas ele continuou ali, escrevendo e pintando. Era assim que enfrentava a intranqüilidade.

Suas pinturas testemunham seu caráter indomável. Como afirmou a curadora do Museu Judaico, Jacqueline Goldstein, “elas são uma janela da sua consciência”.

Susan Gladstone, diretora executiva do museu, diz que a exposição mostra como ele forjou o espaço para a cultura gay. “A vida mudou nos EUA e isto em parte foi resultado das coisas que ele escreveu”, disse.

As nove obras em exposição vêm do Key West Art & Historical Society, que tem a maior coleção de trabalhos de William. Eles foram emprestados por David Wolkowsky, conhecido como o “Senhor Key West após desenvolver a cidade na década de 1960. 

Através da sua obra, Tennessee Williams revelou as entranhas da sua própria vida e de um grupo diverso nos Estados Unidos. Por isto ele é celebrado – recebeu a Medalha Presidencial da Liberdade em 1980, mas seu medo de nunca mais escrever alguma coisa de sucesso ou ficar louco como sua irmã o perseguia.

Depois de o jornal The Chicago Tribune rejeitar sua peça A House Not Meant to Stand, em 1982, ele escreveu a um amigo que estava escrevendo uma nova chamada The Lingering Hour. Um mês depois escreveu a outro amigo dizendo “não compreendo minha vida, passada e presente, nem a própria vida. A morte parece mais compreensível para mim.”

Menos de um ano depois, Williams foi encontrado morto em seu quarto no Hotel Elysée em Nova York, tendo se engasgado com uma tampa de plástico de um colírio.

Pouco antes ele havia escrito em seu diário : “Estou observando a vida e chegando à conclusão da minha, e vejo uma grande desolação sobre mim, agora no final. O melhor que posso dizer a meu respeito é que trabalhei intensamente”. / Tradução de Terezinha Martino 

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