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Exposição separa obras pela chance de terem sido roubadas pelos nazistas

Museu Zeppelin, na Alemanha, mostra quais trabalhos de seu acervo podem ser fruto de espólios de Hitler

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09 Junho 2018 | 16h00

Entre 1933 e 1945, sistematicamente, o partido nazista da Alemanha roubou ou adquiriu compulsoriamente um enorme número de obras de arte de museus em toda a Europa, e de colecionadores judeus. Impossível saber os dados exatos, mas estimativas sugerem que só o número de pinturas saqueadas totalizaria 650 mil – um quinto de todas as pinturas existentes na Europa na época.

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Os esforços para restituir as obras para seus proprietários têm sido lentos e somente em 1998 um conjunto de princípios internacionais para lidar com o problema foi criado. Quarenta e quatro países se juntaram para redigir o documento Princípios de Washington, que incentiva as coleções públicas a realizarem pesquisas sobre a proveniência de suas obras e, se necessário, devolver aquelas roubadas que estão em sua posse para os proprietários de direito ou seus descendentes, especialmente no caso de colecionadores judeus que foram forçados a fugir da Alemanha. E o problema é que esse processo se torna cada vez mais difícil à medida que as pistas desaparecem e os proprietários originais (e suas lembranças) envelhecem.

O regime nazista rotulou muitas obras, especialmente as de vanguarda e modernistas, como Arte Degenerada (Entartete Kunst) – ou comunista, “não-germânica”, uma arte repugnante para os valores nazistas. Exibidas numa mostra tristemente famosa com o mesmo nome em 1937, esses trabalhos foram expurgados das coleções ou destruídos e, em outros casos, vendidos para financiar a guerra. À medida que mais e mais judeus fugiam ou eram assassinados, suas coleções de arte eram compradas por somas ridículas, ou simplesmente roubadas. Hermann Göring, encarregado deste trabalho por Hitler, acumulou uma fortuna.

Os esforços com vistas à restituição das obras começaram em 1957, mas muitos dos envolvidos em negócios com arte saqueada, antes e depois da guerra, não sabiam que as obras haviam sido roubadas. Em alguns casos essa ignorância era deliberadas – resultado de uma tentação de desviar o olhar de uma verdade dolorosa e custosa. Em outros, foi fruto de simples negligência.

Mas com o tempo, o comportamento alemão mudou: a vontade de enfrentar o passado e agir de modo correto é hoje um valor nacional com amplo apoio da sociedade. Isto ficou bem claro após a descoberta, em 2012, de inúmeras obras de arte ocultas que estavam em mãos de Cornelius Gurlitt e. No inicio deste ano, foram enviada para ser expostas em Berna e Bonn, após inúmeras complicações legais. As duas exposições irão para o museu Martin-Gropius Bau em Berlim no final deste ano. As indenizações de guerra pagas pela Alemanha incluem um fundo público de quase US$ 7 milhões por ano, destinados à pesquisa sobre a proveniência das obras do museu através da German Lost Art Foundation.

E foi com recursos desse fundo que o Museu Zeppelin, em Friedrichshafen, lançou um projeto de averiguação da sua própria coleção de 4 mil obras de arte, incluindo uma seleção impressionante de pinturas de Otto Dix (considerada arte degenerada pelos nazistas) como também obras barrocas e góticas.

Como Friedrichshafen era um centro de produção de armas, a própria coleção do museu foi destruída por bombardeios durante a guerra. Assim, toda a coleção que abrigava foi vendida após 1945. No entanto vários marchands, como Benno Griebert e Otto Staebler, que tiveram um longo contato com o museu após a guerra, teriam relação com obras de arte roubadas pelos nazistas.

“Queremos mostrar aos visitantes como trabalhamos”, afirmou Fanny Stoye, que atua no projeto de pesquisa. A exposição atual The Obligation of Ownership: An Art Collection Under Scrutiny, permite responder perguntas sobre períodos chave envolvendo a propriedade das obras, especialmente a de saber onde estava determinada obra entre 1933 e 1945. O sistema adotado é importante: pinturas e esculturas são expostas com o verso à mostra de modo que marcas e números de identificação da obra sejam mostrados. “É melhor fazer a sua pesquisa e depois mover uma ação”, disse a diretora do museu Claudia Emmert.

A pesquisa sistemática e transparente fica clara até mesmo para um observador casual com um sistema de classificação de “risco de ser roubada” com etiquetas verdes, amarelas, laranja e vermelho no cartão identificador da obra. A metade tem etiqueta verde e muitas marcadas em amarelo. Apenas duas contém o selo laranja e a etiqueta vermelha não aparece em nenhuma. Mas existem muitas lacunas na investigação. “Venho trabalhando nisso desde agosto de 2016, mas muita pesquisa ainda é necessária” afirmou Fanny Stoye.

Mesmo assim a mostra tem um significado importante para a pesquisa sobre a origem de obras no geral. Uma das peças na exposição com a etiqueta laranja adicionou um novo personagem à lista de colecionadores judeus cujas obras podem ser sido roubadas pelos nazistas: Max Strauss, que provou ser proprietário do quadro Bouquet, de Otto Dix, que o museu mantém em sua coleção. O paradeiro da pintura era totalmente desconhecido entre 1928 e 1990, e acabou aparecendo misteriosamente da maneira que muitas outras: em um armazém aduaneiro em algum lugar na Suíça.

Strauss, que emigrou para os Estados Unidos e nunca voltou à Alemanha após fugir para a França em 1933, já faleceu. Sua família não tinha a mínima ideia da sua coleção de arte em Berlim. Teria ele vendido em Berlim antes de fugir da Alemanha? Neste caso, teria vendido sob coação? A seção final da exposição leva o título An Ongoing Obligation for Museums. Com o conhecimento que existe hoje, a esperança é de que mais instituições, e na verdade mais colecionadores privados, sigam o exemplo do Museu Zeppelin – e o façam publicamente – para encontrar essas respostas. / Tradução de Terezinha Martino 

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