Julien Mignot/The New York Times
Julien Mignot/The New York Times

Exposição tem telas de Julian Schnabel lado a lado com seus mestres

Trabalhos do pintor são exibidos com obras de Van Gogh, Cézanne, Toulouse-Lautrec e Monet

Tobias Gray, The New York Times

13 Outubro 2018 | 16h00

Um jogo tenso começou para o pintor Julian Schnabel quando o Museu d’Orsay, de Paris, o convidou para escolher pinturas do século 19 da coleção da instituição para serem exibidas ao lado de suas próprias obras. “Mas, em dado momento, a direção do museu me disse que eu não poderia escolher tais e tais pinturas. Respondi que não seria possível”, contou Schnabel numa entrevista recente. “Se eu não pudesse escolher os quadros, não iria dizer que a escolha tinha sido minha.”

O pintor e cineasta americano de 66 anos tinha particular interesse em certas obras de quatro pintores – Vincent van Gogh, Claude Monet, Henri de Toulouse-Lautrec e Paul Cézanne – que o museu não queria tirar de seu lugar habitual para colocar nessa exposição. 

Schnabel agradece a Laurence des Cars, que foi designado como diretor do museu no ano passado, por “mover céus e terra” para que ele obtivesse o que queria do acervo. Ou quase tudo que queria: houve apenas uma obra de Paul Cézanne que não pôde ser deslocada (ou não quiseram mexer nela). 

A exposição Orsay Through the Eyes of Julian Schnabel (Orsay pelo Olhar de Julian Schnabel, em tradução livre) foi aberta nesta semana e vai até 13 de janeiro de 2019. 

Treze obras da coleção do museu são contrapostas a 11 trabalhos de Schnabel, produzidos nos últimos 40 anos. Entre as telas do artista contemporâneo reunidas nessa exposição estão vários de seus pratos pintados que, após serem quebrados, têm seus fragmentos colados como uma espécie de mosaico sobre superfícies como lona encerada e veludo negro.

“Superfícies são uma obsessão minha” disse Schnabel. “Os fragmentos de pratos nelas colados ganham uma terceira dimensão, física e espacial. Gosto de desafios físicos, como colar objetos em uma superfície.”

A mais antiga obra de Schnabel exibida na mostra é a grande tela Blue Nude with Sword (Nu em Azul com uma Espada), que foi pintada em 1979 e é o seu primeiro trabalho figurativo em contraposição ao caráter abstrato da pintura e colagem de pratos. 

Ela aparece ao lado de um quadro muito menor de Cézanne, La Femme Étranglée (A Mulher Estrangulada, trabalho produzido entre 1875 e 1876), mas que tem uma paleta de cores (vermelho, branco e azul) semelhante. 

A montagem da mostra, que investiga as relações entre estilo, conteúdo e escala de trabalhos diferentes entre si, foi supervisionada pelo próprio Schnabel e por sua parceira Louise Kukelberg, que é designer de interiores. 

Schnabel, conhecido pelo gigantismo de suas peças, selecionou duas das pinturas de maior dimensão de Toulouse-Lautrec – ambas mostrando cenas da vida noturna parisiense em que aparece a dançarina do Moulin Rouge conhecida por La Golue. 

As duas telas estão propositalmente “coladas” uma à outra. “Se você olhar de perto, verá que o que pode parecer um erro é parte das intenções do artista e de sua atitude para com os materiais”, acredita o pintor.

A obra mais recente da exposição é uma delicada pintura de rosas e folhagens feita com fragmentos de pratos quebrados, que Schnabel produziu no ano passado ao se inspirar em uma visita ao túmulo de Van Gogh, em Auvers-sur-Oise, perto de Paris. 

O mestre holandês, cujo sublime Retrato do Artista (1889) faz parte da mostra, tem estado ultimamente na cabeça de Schnabel. Em setembro, estreou no Festival de Cinema de Cannes o último filme do pintor/cineasta, At Eternity’s Gate (No Portal da Eternidade), que fala sobre os tumultuados meses finais da vida de Van Gogh. 

O filme é estrelado por Willem Dafoe, que ganhou o prêmio de melhor ator em Veneza com o papel de Van Gogh. At Eternity's Gate começou a ser planejado em 2014, quando Schnabel e o roteirista francês Jean-Claude Carrière visitaram uma exposição no Museu de Orsay que combinava quadros de Van Gogh e desenhos do poeta de avant-garde Antonin Artaud. 

Schnabel, que escreveu o roteiro de At Eternity Gate com Carrière e Kugelberg, disse que a exposição “foi um acúmulo de sensações”. Já seu filme é “uma galeria de emoções, uma galeria de cenas que poderiam ter acontecido e se tornam um meio de se falar de pintura e vida”.

Para Schnabel, Van Gogh é “o pintor mais moderno” graças à “liberdade e clareza que o caracterizaram”. Como Van Gogh, Schnabel pinta rapidamente, terminando uma obra em questão de horas, não de dias. Ele também trabalha ao ar livre, dizendo que prefere enfrentar os elementos ao interior sombrio de um ateliê.

Segundo ele, a tendência a pintar “en plein-air” vem de quando fez sua primeira plate painting, no tempo em que ainda era cozinheiro em Nova York, no fim dos anos 1970. 

“Quando levei a pintura para a rua, achei-a terrível”, relembrou o artista. “Desde então, prefiro pintar ao ar livre porque é onde você realmente enxerga tudo.”

Dafoe, que conhece Schnabel há 30 anos, disse numa entrevista por telefone que At Eternity’s Gate “foi filtrado de certos eventos ocorridos com Vincent e de algumas coisas que ele falou – mas claro, o filme também diz muito sobre o próprio Julian”. 

O ator, que recebeu lições de pintura de Schnabel durante a preparação para o papel, revelou que se sentiu frequentemente como ele se fosse o próprio Schnabel. 

“É como se ele, não podendo atuar por estar atrás da câmera, precisasse de alguém para ser sua criatura em frente dela”, disse Dafoe, acrescentando que “a oportunidade de estar em um filme tão pessoal foi uma dádiva.”

Schnabel disse que tem sensações semelhantes em relação à exposição do Museu d’Orsay. “É um grande privilégio”, avaliou o artista, comparando a mostra a “uma carta escrita de um pintor para outro por meio dos quadros.” / Tradução de Roberto Muniz

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