Ina Fassbender/Reuters
Ina Fassbender/Reuters

Exposição traz o 'contemporâneo sublime' de Andreas Gursky

Mostra em Londres faz retrospectiva do fotógrafo alemão

The Economist

03 Fevereiro 2018 | 16h00

Ele passou sua infância sentado no sofá colocado no estúdio de fotos comerciais de seu pai. Imerso na estética publicitária e cercado por “equipamentos fotográficos em todo o canto, com embalagens de papel vermelho brilhante da Agfa e laranja e amarelo da Kodak de e um cheiro de produtos químicos”, Andreas Gursky diz que costumava vasculhar o “depósito de tesouros” em busca de “qualquer coisa que parecesse ser divertido de brincar com ela”. Com um avô que era fotógrafo de retratos, também não é surpreendente que Gursky mais tarde tenha declarado que sua vocação não foi “uma decisão consciente”.

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Na década de 1980, ele estudou na renomada Academia de Düsseldorf sob Bernd e Hilla Becher. Uma dupla alemã de arte conceitual, eles filmaram edifícios industriais e os arrumaram em grades, como o tipo de imagens que você encontra se estiver fazendo a classificação científica de uma espécie de planta. Esses anos de formação estimularam uma nova perspectiva sobre a questão artística, e Gursky rapidamente se tornou um mestre do Hiper Realismo. Seus trabalhos passam a impressão de que ele documenta a realidade como ela é, mas em vez disso, ele recorre a truques e habilidades técnicas para encaixar detalhes mínimos - mais do que o olho humano poderia perceber em uma única piscada. Rhein II (1999), a fotografia mais cara vendida em leilão (por US$ 4,3 milhões em 2011) é um exemplo óbvio. A foto engenhosamente manipulada faz com que o rio alemão se pareça com uma pintura abstrata, suas múltiplas camadas preenchidas por cores vibrantes. Não há caminhantes com seus cães para serem vistos; uma desagradável usina elétrica foi editada, tirada da foto.

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Esta semana, uma retrospectiva das últimas quatro décadas do trabalho de Gursky foi inaugurada na Galeria Hayward em Londres, um edifício brutalista assumidamente pousado nas margens do Tâmisa. É a primeira exposição a ser apresentada na galeria desde a sua renovação, um extenso projeto que deixou o prédio fechado por quase dois anos. Algumas das reformas transformaram o espaço, particularmente o restauro de 66 luzes em forma de pirâmide no telhado. Projetadas por Henry Moore, um escultor, as luzes nunca funcionaram do jeito que deveriam, definhando por trás de um feio teto abandonado de plexiglas esfumaçado. Agora a luz inunda as galerias, o brilhante chão do terraço foi restaurado à sua antiga glória e as superfícies de concreto da galeria estão impecáveis, graças a um tratamento de látex especial que Ralph Rugoff, diretor da galeria, define como uma espécie de “depilação com cera”.

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Muitas das fotografias de Gursky preenchem paredes inteiras deste elegante novo espaço. Obras como Dia de Maio IV (2000), de pessoas em uma rave, e Paris, Montparnasse (1993), de um bloco de apartamentos, estendem-se por mais de quatro metros. Essas enormes imagens geralmente são unidas digitalmente a partir de múltiplas fotos, permitindo uma improvavelmente alta definição. 

E elas envolvem o espectador. Em 99 Cent (1999), sua foto icônica de uma reluzente loja de conveniência, o olho do telespectador se desloca entre KitKats perfeitamente embalados, Almond Joys e Patties de menta, todos bem alinhados como no sonho de um maníaco por limpeza. Um pacote de bagels dispersos ameaça tumultuar a perfeição, mas o olho rapidamente se move de volta ao fluxo de produtos perfeitamente apresentados, dando à fotografia uma qualidade meditativa. Nada é priorizado sobre qualquer outra coisa na imagem, de modo que o ato de olhar para um dos retratos pode se encaixar numa repetição perpétua. “Falando de uma forma figurativa o que eu crio é um mundo sem hierarquia”, diz Gursky. “Todos os elementos pictóricos são tão importantes, uns quanto os outros”.

Os críticos descreveram Gursky como árbitro de algo que eles chamam de “contemporâneo sublime”. No final dos séculos 18 e 19, a concepção romântica do sublime tomou a natureza como objeto, capaz de inspirar surpresa e admiração – “o estado da alma no qual todos os seus movimentos estão suspensos”, de acordo com Edmund Burke. O contemporâneo sublime, em vez disso, toma a tecnologia e o sistema capitalista-industrial como seu foco. Gursky trata coisas como bolsas de valores, arranha-céus, uma pista de corrida de Fórmula 1, o interior de uma loja da Prada e um armazém da Amazon com a mesma reverência que uma vista panorâmica do topo de uma montanha. “Ele faz multidões de pessoas parecerem minúsculas e incansáveis... num minuto, tranquilamente uma colônia de formigas”, diz Alix Ohlin, um escritor.

Untitled I (1993), que foca em um pedaço de tapete cinza, incita esse mesmo sentimento de assombro, essa maré de cores constantes estranhamente impressionantes em sua uniformidade. É aflitivamente semelhante à emoção evocada pelo trio de pinturas de JMW Turner. Gursky capturou em outra fotografia (astutamente pendurada na mesma sala da exposição, para permitir referências cruzadas). Grande parte de seu trabalho leva a esse tipo de expressionismo abstrato, em escala pictórica e épico em intenção.

O poder emocional das fotografias de Gursky fará da exposição um grande sucesso - como ela merece ter. Tanto na habilidade quanto tema, Gursky é um dos artistas mais importantes da era. Seu trabalho retrata os padrões subjacentes e sempre em expansão do nosso mundo, impulsionados pelas multidões que o povoam: uma declaração de intenções adequada da parte da Hayward.

“Andreas Gursky” está em exposição na Galeria Hayward em Londres até o dia 22 de abril. / Tradução de Claudia Bozzo

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