Museum of Modern Art
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Exposições interativas de Van Gogh mostram como projeções não são suficientes para conhecer uma obra

As exposições imersivas de Van Gogh fazem uma reflexão crítica do seu encontros com a sua obra e indagam o que significa ter uma íntima conexão com um artista

Maya Phillips, The New York Times

23 de julho de 2021 | 10h00

Em 2017, viajei para Paris, onde desfrutei avidamente do máximo de arte que consegui. Em uma das cavernosas câmaras do Museu D’Orsay havia uma exposição de Vincent van Gogh, suas obras emolduradas (Noite Estrelada sobre o Ródano, Quarto em Arles, A Igreja de Auvers, e vários dos seus autorretratos) tendo como pano de fundo paredes de um azul profundo em vez das habituais paredes brancas imaculadas do museu.

Tenho um pôster de Noite Estrelada, um presente que me foi dado por um amigo, desde meus dias no começo da faculdade. Ainda hoje ele está, emoldurado, na parede do meu quarto. No Museu D’Orsay, contemplei seus céus e campos revoltos, imobilizados pela profundidade do seu olhar. E chorei, repentina e violentamente. Saí rapidamente do museu. Jamais tive antes uma reação tão forte a uma pintura.

O que significa criar uma intimidade com um artista - mesmo aquele separado por mais de um século de história? E a obra de um artista pode ser reimaginada para dar ao público nos tempos modernos uma relação contemporânea ainda mais íntima com a arte?

Essas perguntas vieram à minha mente ao visitar duas exposições imersivas de van Gogh em Manhattan, Nova York: Immersive Van Gogh, no Pier 36 no East River, e Van Gogh: The Immersive Experience no Skylight on Vesey. Ao contrário da minha reação emotiva extrema no Museu D’orsay, essas duas exposições me deixaram bastante indiferente; na verdade, minha maior reação foi uma sensação alarmante de intrusão e uma falsa conexão com o artista e sua obra.

Instalações imersivas de arte - especialmente o teatro imersivo - provocam meu senso de brincar e ativam o crítico e o artista dentro de mim. Há uma grande diferença entre arte concebida para ser imersiva e a arte fortemente inserida num meio imersivo.

Mas de início havia uma bela tradução de van Gogh: O teto na entrada do Pier 36, uma imaginativa recriação em 3D de Céu estrelado pelo designer David Korins mostrando milhares de pincéis, pareceu uma bela homenagem de um artista para outro numa obra que convida a uma nova perspectiva, canalizando o estilo e motivos da peça original sem pretender ser uma exata reprodução.

Mas esse foi apenas um aperitivo para a mostra principal, uma série de salas conectadas onde as pessoas deitam, sentam ou ficam de pé assistindo a um vídeo das obras de van Gogh projetadas em todos os cantos da sala, o que me deixou atordoada. Mas o que realmente me chamou atenção não foram as jovens posando para selfies, ou turistas mais idosos relaxando como se estivessem numa praia ou as crianças irrequietas correndo em torno e subindo nos grandes monumentos abstratos de Korins, suas superfícies refletoras capturando todos os girassóis e estrelas - já me deparei com tudo isso em exposições tradicionais em museus de obras de van Gogh.

Foi a brevidade das pinturas na sequência de vídeo - o quão rápido elas aparecem e desaparecem. E foram as animações - seus pujantes ciprestes se manifestando como aparições em meio à bruma de modo que a mágica das obras é reproduzida literalmente. Não há nenhum espaço para sutilezas ou implicações. Fiquei de lado, à distância, para examinar as projeções e perdi as pinceladas resolutas e o gradiente de cores na confusão da digitalização.

E rapidamente entendi que para um grande número das pessoas esses detalhes não têm importância. O objetivo é usar a arte como pano de fundo para uma espécie de experiência teatral.

Foi exatamente essa experiência que me incomodou. Como fazer teatro de uma arte que é tão explicitamente contida e individual da perspectiva de van Gogh? Apesar de toda a cor e caráter na sua obra, seria inexato dar um novo estilo às suas pinturas como um cenário de um quase palco que essas exposições criam para o público explorar, não como admiradores, mas participantes ativos.

A mostra de van Gogh no espaço Vesey também usa projeções junto com desconstruções em 3D das suas pinturas e eu me senti mais tranquila com essas impressionantes recriações de obras como Quarto em Arles, numa exposição que se intitula “museu virtual”. Mas meus olhos ficaram vitrificados com as reproduções em tela da obra, tão inferiores à obra original: as cores opacas, as texturas inexistentes e as fibras da tela brilham artificialmente na luz da exposição.

Não eram as obras de van Gogh, mas pelo menos a arte estava lá, imóvel e por si só, sem interrupção. E também o artista - com uma cronologia da sua vida, informações sobre sua carreira.

Mas achei desconcertante a parte final da exposição - uma viagem, por meio de um dispositivo de realidade virtual, através de algumas das paisagens nas quais suas pinturas se basearam. Nesse mundo digital, vaguei pela casa de van Gogh, depois pelas ruas entre pessoas se movimentando, trabalhando ou conversando. De vez em quando, um quadro apareceu diante do meu campo de visão e a cena se transformava para ser associada a uma pintura ao lado. A ideia é ver a diferença entre o mundo real e o mundo de van Gogh visto por um ilustrador capaz de ler a mente. Mas pode um designer cênico realmente entrar na mente do artista? E não seria melhor deixar intocadas algumas áreas impenetráveis da mente de um artista?

Naturalmente, não existe nenhuma maneira de ressuscitar o artista, não por meio da recriação do mundo de van Gogh na Vesey e nem na exposição na Pier 36, que também oferece um van Gogh por meio da inteligência artificial que escreverá a você uma carta (especificamente um algoritmo recicla palavras e frases das cartas reais escritas à mão pelo pintor e as oferece a você).

O que as duas mostras imersivas me fizeram entender é como eu tinha suposições infundadas do artista e sua obra em 2017. Nunca fingi compreender como ele pensava e via o mundo. Conheço apenas o que eu li e isso não é o bastante para compreender a totalidade de uma vida. O que sei é como suas obras despertam algo belo e intangível dentro de mim - como crítica, amante de arte, poeta. Porque no final não podemos fingir que conhecemos van Gogh da mesma maneira que não podemos achar que sua obra pode ser projetada nas paredes como se fosse a mesma experiência. Tudo o que temos são pinturas em molduras, mas aquelas noites, aqueles ciprestes, os girassóis - são mais do que suficientes por si sós. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Este artigo foi publicado originalmente no The New York Times

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