Extremismo em mutação: Estado Islâmico deve deixar a luta por territórios e se dedicar ao terror

Alimentado pela islamofobia no Ocidente, o Estado Islâmico deixará a luta por territórios para se dedicar ao que faz melhor: o terrorismo

Lourival Sant’Anna, Impresso

31 Dezembro 2016 | 16h00

Imagine a História como um conjunto de peças de teatro, que se desenrolam simultaneamente, nos palcos ao redor do mundo. Em cada palco, grupos de personagens contracenam, enquanto nos bastidores outros grupos esperam sua vez de entrar em cena. Num palco do Ocidente, na peça intitulada radicalismo islâmico, neste momento estão em ação – ou, melhor dizendo, em “reação” – os ultranacionalistas europeus e americanos. Nos prelúdios dos capítulos das eleições na França e na Alemanha, no ano que vem, os políticos assumem posições de maneira a oferecer uma resposta eleitoralmente palatável aos atentados ocorridos nesses dois países, assim como à onda de refugiados do Oriente Médio e da África.

Na última cena desse drama, a chanceler Angela Merkel, ao lançar sua candidatura, anunciou seu apoio à proposta de seu partido de proibir o niqab, o véu que cobre o rosto das mulheres muçulmanas conservadoras, deixando apenas os olhos de fora, ou a burca, que cobre os olhos com uma tela. Merkel acrescentou à proposta a expressão “onde for legalmente possível”. Foi a primeira vez que ela aderiu a essa medida, no intuito de conter a Alternativa para a Alemanha (AfD), com a qual concorrerá nas eleições por volta de setembro.

Antes disso, autoridades municipais haviam tentado proibir o “burkini”, traje de banho para muçulmanas que cobre todo o corpo, em algumas praias francesas, mas a intromissão foi considerada ilegal pelo Conselho de Estado, a mais alta corte cível do país. Entretanto, a Corte Europeia de Direitos Humanos manteve a proibição do niqab em lugares públicos, imposta na França em 2011, ao julgar em 2014 a ação de uma mulher de 24 anos que alegou que o banimento violava sua liberdade de religião e de expressão.

A França tem 4,7 milhões de muçulmanos (7,5% da população), mas se estima que apenas 2 mil mulheres usem o niqab e a burka. Na Alemanha, são 4,8 milhões (5,8% dos habitantes), e a parcela das mulheres que cobrem o rosto é equivalente à da França. Mesmo assim, a proibição é assimilada por grande parte da população muçulmana como prova de hostilidade contra o Islã por parte de países cristãos. A eleição de Donald Trump, que expôs cruamente seu desprezo pelo Islã e seu ódio aos muçulmanos, reforça a percepção. Esse é o fermento da radicalização, que faz crescer os adeptos do Estado Islâmico (EI).

Na França, três partidos de centro-direita e de direita escolheram o ex-primeiro-ministro François Fillon seu candidato presidencial, para barrar o crescimento da ultranacionalista Frente Nacional. Autor do recém-lançado Conquistando o Totalitarismo Islâmico (“Vaincre le totalitarisme islamique”, ainda não lançado no Brasil), Fillon defende a dissolução do movimento salafista, que prega o retorno a uma suposta “pureza” do Islã, o banimento das pregações em árabe – que os muçulmanos consideram a língua falada por Deus – e a proibição do burkini.

Enquanto, no centro do palco, a centro-direita europeia encampa as ideias dos ultranacionalistas, que os muçulmanos consideram anti-islâmicas, nos bastidores outro elenco prepara sua próxima entrada em cena. A prisão de três homens acusados de conspirar para cometer atos terroristas na madrugada de 20 de novembro em Estrasburgo, justo na fronteira entre a França e a Alemanha, causou espanto entre especialistas em radicalismo islâmico. Nenhum dos três se encaixa no estereótipo do jovem “radicalizado” na Europa – desempregado, desajustado, marginalizado, com problemas psicossociais e na faixa dos 20 anos. Todos têm mais de 30, trabalhos e salários dignos. Um era funcionário de uma escola de crianças, outro de uma transportadora, e o terceiro, de uma mercearia. Todos inspiravam confiança no bairro, eram muito bem-vistos e jamais tinham manifestado qualquer traço de radicalização. Entretanto, segundo os investigadores, eles preparavam atentados para o período do Natal, sob ordens vindas da Síria.

Desde os atentados de meados do ano na França e na Alemanha, o terrorismo estava em silêncio na Europa, até o ataque de 19 de dezembro ao mercado de Natal em Berlim. A pausa se deveu às intensas medidas de segurança. Na França, há a informação de que 200 mil suspeitos estejam sob vigilância – seja humana ou eletrônica. Mas, como lembrou o atentado com o caminhão em Berlim, muito parecido com o de Nice em julho, qualquer população é extremamente vulnerável ao terrorismo, e um ato inspira outros.

O EI não está inerte. As prisões de Estrasburgo demonstram precisamente o contrário: o grupo está em metamorfose, ampliando sua capacidade de recrutamento para membros da comunidade árabe-muçulmana muito mais difíceis de serem detectados pelos radares dos investigadores. E aqui as duas cenas se encontram: o crescimento da islamofobia no Ocidente empurra muçulmanos antes moderados em direção à radicalização.

Nos palcos do Iraque e da Síria, o EI vai sendo derrotado militarmente. Seus líderes têm sido mortos e suas forças perdem território paulatinamente. Há idas e vindas no terreno, mas os Exércitos do Iraque e da Síria estão na ofensiva, e a derrota final é questão de tempo. Também nesse sentido, o EI passa por importante transformação: a ênfase de sua luta armada se desloca da ocupação territorial para a guerrilha e o terrorismo. Para alívio das populações castigadas pelo seu domínio, submetidas a aberrações, como a proibição de que qualquer centímetro – literalmente – de uma mulher seja exposto, o que inclui furos nas meias ou levantar rapidamente o véu para levar a comida à boca (dois casos reais em Mossul), sujeitas a punições que vão de multas a chibatadas nas costas com chicotes cobertos de metais pontiagudos; ou o doutrinamento e recrutamento de crianças nas escolas para serem suicidas.

O ódio causado por essas práticas na população local contrasta com o apelo da propaganda do EI em lugares distantes de seus territórios, no Ocidente. Nesse sentido, a derrota militar do grupo e sua conversão exclusiva à guerrilha e ao terrorismo potencializará suas ações por toda parte. Não sem a ajuda da radicalização dos políticos ocidentais. Veja o caso do Taleban, que também era odiado pela população pelos mesmos motivos e, depois de apeado do poder no Afeganistão, reagrupou-se e ganhou força como grupo guerrilheiro e terrorista. O roteiro das próximas cenas está sendo escrito agora.

LOURIVAL SANT’ANNA, JORNALISTA, COLUNISTA DO ESTADO, COMENTARISTA DA RÁDIO CBN. COBRIU DE GUERRAS A ATENTADOS TERRORISTAS EM 60 PAÍSES

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.