Fala francesa não bate com ações

País lança condenações inflamadas e ao mesmo tempo mantém cabeças-de-ponte na Mianmá dos generais

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

29 de setembro de 2007 | 22h17

A França, como o mundo todo aliás, está indignada com a brutalidade dos policiais birmaneses que dispararam sobre uma multidão pacífica de monges budistas em Rangum, e não esconde sua cólera. Maior é o seu mérito ao fazê-lo até porque uma empresa francesa de que o país muito se orgulha, a petrolífera Total, está fortemente implantada em Mianmá. Desde 1992, a Total investiu US$ 1 bilhão no campo de gás de Yadana.O presidente francês, Nicolas Sarkozy, não mediu palavras. Ele pediu publicamente à Total para deixar de investir em Mianmá. Bravo! Infelizmente, a reprimenda de Sarkozy deixou os dirigentes da Total impassíveis. Por quê? Porque, e todo o mundo sabe, incluindo Sarkozy, a Total não investe um dólar em Mianmá desde 1998, e muitas vezes proclamou que não investiria mais no país. Em suma, Sarkozy exige que a Total congele o que já está congelado. É melhor que nada.Mas a ação de Sarkozy não foi isolada. O governo todo está mobilizado por esse caso doloroso. A secretária de Estado de Direitos Humanos de Sarkozy, Rama Yade, confessou que está angustiada: caso a Total deixe aquele país, será que ela não seria substituída por companhias indianas e chinesas ainda piores?E Henri Guaiano, o poderoso secretário-geral do Eliseu, declarou seu medo: "Se a Total sair, as primeiras vítimas serão os próprios birmaneses."Outros ataques visam à própria Total. A empresa estaria cometendo um duplo pecado. Primeiro, a Total sempre foi um sustentáculo da junta de generais sanguinários. A própria Aung San Suu Kyi (a birmanesa líder da oposição que ganhou o Prêmio Nobel da Paz de 1991) declarou em 1996 que a empresa francesa é o esteio mais forte do sistema político da junta. "Não esqueçamos que a Total lucrou US$ 12,5 bilhões em 2006 em Mianmá."O outro pecado da Total seria usar trabalho forçado em suas atividades a ponto de advogados dos trabalhadores birmaneses terem arrancado US$ 5 milhões da empresa francesa por perdas e danos.Seria então a Total uma exploradora, uma escravagista moderna? É difícil de acreditar. Felizmente, um homem acima de qualquer suspeita nos tranqüiliza: Bernard Kouchner, o atual ministro francês das Relações Exteriores, cartaz ambulante de humanitarista mundial, fora encarregado, em 2003 (muito antes de se tornar ministro), de estudar as condições de trabalho impostas pela Total a seus empregados.Kouchner fez uma corajosa e minuciosa investigação em Mianmá e não constatou a menor vilania da parte da petrolífera francesa. Ufa! Ainda bem!Acrescentemos que a França não é a única a brandir uma linguagem inflamada ao mesmo tempo que procura manter suas proveitosas cabeças-de-ponte econômicas na Mianmá dos generais. A Rússia e a China, que não quiseram agravar as sanções contra Mianmá, são ainda mais dúbias que a França.Nessa questão das sanções as opiniões divergem. Alguns acham que é preciso prudência num eventual boicote porque sanções muito pesadas poderiam penalizar uma população já miserável. A esse argumento pode-se responder igualmente: um boicote não lesaria em nada a população, que já não vê a cor do dinheiro... A quase totalidade dos birmaneses não sofre nenhum castigo com as raras sanções aplicadas pela comunidade internacional. Três quartos do povo birmanês vivem da agricultura doméstica. Os camponeses de Mianmá estão fora do circuito do dinheiro.

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