Falsa escolha

A tática israelense de 'guerra preventiva' contra o Irã não é nova. No passado, ela deixou um rastro de estragos desnecessários Bullying nuclear

FAREED ZAKARIA É COLUNISTA DE ASSUNTOS INTERNACIONAIS DO WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

19 de fevereiro de 2012 | 03h07

FAREED ZAKARIA

Temos ouvido nos últimos dias um novo conceito nos debates a respeito do Irã: a zona de imunidade. A ideia, frequentemente explicada por Ehud Barak, ministro da defesa de Israel, diz que logo o Irã terá uma capacidade nuclear de tal ordem que Israel não seria capaz de desferir um golpe debilitante contra o programa da república islâmica.

Este conceito estratégico não tem nada de novo. O exemplo mais famoso foi a decisão da Alemanha de dar início àquilo que se tornou a Primeira Guerra Mundial. O Estado-maior alemão acreditava que a Rússia, sua arqui-inimiga, estaria se rearmando numa escala que logo anularia o poderio militar superior dos alemães. Estes acreditavam que em de dois anos, até 1916, a Rússia contaria com uma vantagem estratégica significativa - talvez se tornando invencível.

Como resultado, quando o tumulto teve início nos Bálcãs em junho de 1914, a Alemanha decidiu agir enquanto ainda contava com a vantagem. Para impedir a Rússia de entrar numa "zona de imunidade", invadiu a França (principal aliada russa) e a Bélgica, obrigando a Grã-Bretanha a entrar na guerra, dando início a um conflito que resultou em mais de 37 milhões de baixas.

Não estou sugerindo que um ataque israelense ao Irã teria consequências comparáveis. Mas seria um exemplo de profunda miopia tomar uma decisão de grande importância - entrar em guerra - com base em considerações técnicas limitadas como as janelas de vulnerabilidade. Em março de 2003, muitos em Washington insistiram que não podíamos esperar pela conclusão do trabalho dos inspetores nucleares no Iraque porque estávamos diante de uma janela que se fechava. Em junho e julho, o clima ficaria quente demais para o envio de forças americanas. Então iniciamos precipitadamente uma invasão militar mal planejada e uma ocupação que obrigou os soldados a suportarem combates por nove anos muito longos e quentes.

Os representantes israelenses explicam que os nós, americanos, não compreendemos o temor que eles sentem, e que o Irã representa para eles uma ameaça à sua existência. Mas, na verdade, podemos compreender isso, porque passamos por uma experiência bastante similar. Depois da Segunda Guerra Mundial, conforme a União Soviética se aproximava de adquirir capacidades nucleares, os Estados Unidos foram dominados por um pânico que durou anos. Tudo que Israel diz a respeito do Irã hoje foi dito pelos americanos a respeito da URSS. Nós a enxergávamos como um regime radical, contrário a cada um dos valores que defendemos, determinado a derrubar os governos do Ocidente para alcançar o comunismo global. Víamos Moscou como irracional, um regime agressivo sem nenhuma preocupação com a vida humana. Afinal, Stalin tinha acabado de sacrificar 26 milhões soviéticos na luta de seu país contra a Alemanha nazista.

Assim como Israel considera abertamente ataques preventivos contra o Irã, muitos no Ocidente defenderam ataques desse tipo contra Moscou no fim dos anos 40. Isso não partia somente dos falcões, e sim de pessoas que defenderam o pacifismo durante toda a vida. Para se ter uma ideia do clima que reinava na época, eis um trecho daquilo que Harold Nicolson, um dos diplomatas britânicos mais sóbrios e frios de sua geração, anotou em seu diário em 29 de novembro de 1948: "É provavelmente verdade que a Rússia está se preparando para a batalha final pelo domínio do mundo e que, depois que tiver à sua disposição um número suficiente de bombas, destruirá a Europa Ocidental, ocupará a Ásia, e se dedicará a uma luta até a morte contra a América. Se isso ocorrer e nós formos eliminados aqui, os sobreviventes na Nova Zelândia dirão que fomos loucos de não termos evitado isso".

Mas, no fim, os revolucionários globais de Moscou, os autocratas insanos de Pyongyang e o exército paquistanês, conhecido por apoiar terroristas, foram todos dissuadidos pelo temor da destruição mútua. Por mais que o regime iraniano seja tantas vezes descrito como louco, ele fez muito menos para merecer este título do que um regime como o de Mao, na China. No decorrer da última década, houve milhares de atentados a bomba cometidos por suicidas sauditas, egípcios, libaneses, palestinos e paquistaneses, mas nenhum ataque suicida cometido por iranianos. Qual seria a probabilidade deste regime iraniano ser o primeiro a disparar os mísseis - mesmo que os obtivesse dentro de poucos anos?

"Israel está finalmente confrontando o tipo de escolha que os EUA e a Grã-Bretanha enfrentaram há mais de seis décadas", diz Gideon Rose, editor da Foreign Affairs. "Esperamos que Israel também reconheça que um estado de segurança absoluta é impossível de ser conquistado na era nuclear, e também que, se for impossível atrasar ou prejudicar os programas nucleares de seus inimigos, a dissuasão é menos desastrosa do que uma guerra preventiva." / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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