Informação para você ler, ouvir, assistir, dialogar e compartilhar!
Tenha acesso ilimitado
por R$0,30/dia!
(no plano anual de R$ 99,90)
R$ 0,30/DIA ASSINAR
No plano anual de R$ 99,90
Taaq Kirksey/The New York Times
Taaq Kirksey/The New York Times

Fãs resgatam legado de Charles Saunders, que levou os negros para a literatura pulp

Saunders reimaginou os mundos brancos de Tarzan e Conan com heróis negros e mitologias africanas, mas morreu em 2020 solitário e ignorado; seus leitores tentam evitar que ele seja esquecido

Neil Genzlinger, The New York Times

29 de janeiro de 2021 | 09h00

No último sábado, pouco mais de dez pessoas dos Estados Unidos e do Canadá realizaram um evento por Zoom para homenagear um homem cujos restos mortais estão numa cova não identificada na província canadense da Nova Escócia desde meados do ano passado.

Era Charles Saunders, e sua morte solitária no último maio contrastou com seu status de figura fundamental de um gênero literário conhecido como sword and soul, espada e alma. Cerca de 40 anos atrás, Saunders reimaginou os mundos brancos de Tarzan e Conan com heróis negros e mitologias africanas em livros que falavam especialmente para fãs negros, ansiosos por mais protagonistas fictícios com os quais pudessem se identificar.

Alguns dos participantes da chamada por Zoom conheciam Saunders como redator e escritor do The Daily News de Halifax, jornal que faliu em 2008. Uma delas o conhecera na década de 1970, quando ele lecionava no Algonquin College, em Ontário. A maioria foi profundamente influenciada por sua ficção, especialmente a série de livros sobre o guerreiro chamado Imaro, que luta contra inimigos humanos e sobrenaturais e faz isso defendendo uma civilização negra rica e vibrante que contrastava fortemente com a visão do “Continente Negro” há muito oferecida por escritores brancos.

Todos queriam, pelo pequeno gesto do memorial por Zoom e gestos maiores que estão por vir, assegurar que a morte de Saunders não passaria despercebida e que suas contribuições não ficariam sem o devido reconhecimento.

“Charles nos deu aquele herói fictício que se parecia conosco e existia num mundo baseado nas nossas origens”, Milton Davis, escritor negro de ficção especulativa que se colocou como orador da homenagem por Zoom, escreveu num e-mail no dia seguinte. “E fez isso sem usar a narrativa de ‘luta’ que as editoras tradicionais parecem exigir dos autores negros. As lutas e triunfos de Imaro eram pessoais, não ‘raciais’, o que para mim foi uma lufada de ar fresco”.

Taaq Kirksey, outro organizador da homenagem, se apaixonou pela ficção de Saunders em 2004, quando estava cursando o último semestre na Universidade da Carolina do Norte, em Chapel Hill, e desde então vem trabalhando para transformar as histórias de Imaro em filme ou série de televisão, um esforço que ele disse estar perto de dar frutos.

Kirksey vinha se correspondendo com o recluso Saunders por anos, mas o encontrou cara a cara apenas uma vez, em junho de 2019, quando viajou para a Nova Escócia e lhe entregou o primeiro cheque de sua colaboração de longa data.

“Sempre temi que sua situação de vida estivesse abaixo do ideal”, disse Kirksey, “e quando viajei até lá para vê-lo, esses medos se concretizaram”.

A saúde de Saunders não estava boa; ele tinha diabetes, entre outros problemas.

“Meu instinto me falou que não lhe restava muito tempo”, disse Kirksey.

Saunders não tinha telefone nem serviço de internet, mas costumava ir à biblioteca local uma vez por semana para manter contato com os amigos por e-mail. No início do ano passado, quando a covid-19 levou a província ao lockdown, seu acesso à biblioteca foi bloqueado. Outro amigo a longa distância, Dale Armelin, que mora no Colorado, ficou preocupado quando os e-mails de Saunders pararam de chegar. No início de maio, ele pediu que a polícia local fosse verificar o apartamento de seu amigo na região de Dartmouth, em Halifax. Ele estava bem.

Mas então, como Kirksey disse, “em algum momento entre 2 e 15 de maio, ele já não estava bem”. Uma equipe que vinha fazendo reparos no prédio de Saunders o encontrou morto. A causa não parecia clara. Ele tinha 73 anos de idade.

Armelin acabou recebendo um telefonema de policiais da Nova Escócia, que lhe disseram que sabiam seu nome apenas por causa de seu pedido anterior. Os policiais não conseguiram encontrar parentes nem amigos locais. Na província, quando ninguém reivindica o corpo, o escritório do Administrador Público da Nova Escócia assume a responsabilidade. Ele providenciou para que Saunders fosse enterrado numa colina no cemitério Memorial Gardens de Dartmouth.

Jon Tattrie, jornalista que trabalhou com Saunders por dois anos no Daily News, juntou as peças do que acontecera num artigo publicado pela CBC News em setembro.

“Por lei”, escreveu ele, “o erário público cobre o custo da sepultura e do enterro. Mas não cobre a lápide”.

E, assim, Tattrie e outras pessoas, entre elas Kirksey e Davis, criaram uma página no site GoFundMe para arrecadar dinheiro para uma lápide, além de um monumento de pedra representando Imaro, a criação ficcional mais conhecida de Saunders. A lápide e o monumento serão instalados nos próximos meses, disse Tattrie durante o memorial pelo Zoom, e ele espera organizar uma cerimônia fúnebre no próximo mês de maio, perto do aniversário da morte.

Coube a Kirksey reunir uma esparsa biografia de Saunders para a homenagem por Zoom.

Charles Robert Saunders nasceu em 3 de julho de 1946, em Elizabeth, Pensilvânia, perto de Pittsburgh, e cresceu na cidade e em Norristown, Pensilvânia. Em 1968, formou-se em psicologia na Lincoln University, no oeste da Filadélfia.

No ano seguinte, ele se mudou para o Canadá para evitar o recrutamento e se tornou professor. No memorial pelo Zoom, Janet LeRoy se lembrou da primeira vez que o viu, quando era estudante na Carleton University em Ontário, na década de 1970, e o avistou por uma porta, conversando com os alunos. Sua estatura física – ele tinha cerca de 1,90 m – deixou uma forte impressão, assim como sua blusa dashiki.

“Ele parecia ter saído daquele programa de TV, The Mod Squad”, disse ela.

Três anos depois, ela finalmente o conheceu quando os dois estavam lecionando no Algonquin College. Logo depois eles fizeram amizade.

“Ele era gigante, mas tinha uma voz calma e suave”, disse ela. “A gente conversava sobre os momentos mais profundos e sombrios das nossas vidas, mas Charles sempre achava uma maneira de dizer alguma coisa que nos fazia dar risada”.

Em algum momento, Saunders se mudou para a Nova Escócia e, em 1989, começou a trabalhar no Daily News, editando e às vezes escrevendo, até mesmo sobre problemas enfrentados pela comunidade negra da cidade.

Ele tinha começado a escrever ficção especulativa na década de 1970 e publicou seu primeiro romance, Imaro, em 1981. Quando criança, se encantara com as fantasias de escritores brancos como Robert E. Howard, que criou Conan, o Bárbaro, e Edgar Rice Burroughs, que criou Tarzan, o personagem africano e branco que ficou famoso nas telas sob a interpretação do ator Johnny Weissmuller. Mas depois compreendeu o racismo inerente a essas obras. O resultado foi Imaro.

“Acho que ele nasceu quando assisti a um filme de Tarzan e fantasiei um homem negro pulando e espancando o Johnny Weissmuller”, disse Saunders ao jornal Black American Literature Forum em 1984.

Imaro II: The Quest for Cush foi lançado em 1984 e Imaro III: The Trail of Bohu, no ano seguinte. Os livros, disse Kirksey, reivindicavam um continente e uma herança para os leitores negros.

“Tarzan ser o rei da África mítica”, disse ele, “é uma bofetada na cara de uma criança negra que está procurando um lugar na sua imaginação onde possa ser indomável, onde possa ser o rei ou a rainha”.

Embora a Marvel Comics tenha introduzido o personagem Pantera Negra e outros heróis negros em seus quadrinhos antes da série Imaro, só mais recentemente os heróis e mundos negros ficaram mais comuns nas estantes de livros e nas telas grandes e pequenas. Pantera Negra, filme de sucesso de 2018, ganhou três Oscars. Kirksey disse que esse progresso tardio se ergue, pelo menos em parte, sobre os ombros de Saunders.

“É fácil olhar para o sucesso do filme Pantera Negra e pensar que é uma coisa que sempre esteve aí”, disse ele. “É uma memória muito curta. Charles colocou tudo isso em movimento, de um jeito muito próprio e silencioso”.

Kirksey disse acreditar que Saunders se casou duas vezes e que os casamentos terminaram em divórcio. Não se sabe ao certo se ele deixou descendentes.

Mas suas histórias com certeza permanecerão. Saunders criou outros mundos de fantasia em livros como Abengoni, publicado pela MVmedia, a editora de Davis, em 2014. Na entrevista de 1984, ele disse que as possibilidades para Imaro e os outros personagens que povoavam sua imaginação eram infinitas.

“Existem tantas fontes de material disponíveis sobre a cultura e o folclore africanos”, disse ele, “que eu teria de viver eternamente para fazer justiça a tudo”. / Tradução de Renato Prelorentzou.

Tudo o que sabemos sobre:
literaturaCharles Saunders

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.