Fé na tolerância

Fé na tolerância

Embora já ‘suavizado’, texto que prega aceitação de gays abre debate histórico no Vaticano

Elisabetta Povoledo e Laurie Goodstein, THE NEW YORK TIMES

18 Outubro 2014 | 16h00

Numa mudança de tom que provavelmente será debatida nas paróquias de todo o mundo, uma assembleia de bispos convocada pelo papa Francisco no Vaticano divulgou um documento preliminar na segunda- feira pedindo à Igreja que receba e aceite homossexuais, pessoas unidas fora do casamento e casais que se divorciaram, e também filhos dessas famílias menos tradicionais. O relatório dos bispos não altera a doutrina nem os ensinamentos da Igreja, e foi alvo de acalorado debate e revisão.

Mas é o primeiro sinal de que a igreja institucional pode seguir a direção estabelecida por Francisco nos primeiros 18 meses do seu papado, afastando-se da condenação das situações familiares não convencionais e tratando-as com mais compreensão, abertura e misericórdia. Os sínodos anteriores produziram pouco, mas alguns dos participantes deste o compararam ao histórico Concílio Vaticano II convocado há pouco mais de 50 anos, que produziu mudanças monumentais na liturgia da igreja, sua relação com outras fés e a concepção do papel dos padres e dos leigos.

O relatório de 12 páginas, redigido por uma comissão selecionada por Francisco, diz que, sem abandonar os ensinamentos da igreja a respeito do sacramento do casamento, os pastores devem reconhecer que há “aspectos positivos nas uniões civis e nas uniões fora do casamento”. Trata-se de uma ruptura com a pregação católica tradicional segundo a qual esses casais estariam “vivendo em pecado”. O relatório diz também que os gays têm “dons e qualidades a oferecer à comunidade cristã”, e alguns casais gays proporcionam um ao outro “auxílio mútuo ao ponto do sacrifício” e “precioso apoio na vida do parceiro”.

O documento foi lido em voz alta para os quase 200 bispos, padres e leigos reunidos. A leitura foi seguida por respostas e objeções de 41 bispos, prenunciando as disputas futuras. O sínodo colocou os bispos que concordam com Francisco contra aqueles que insistem que a Igreja corre o risco de trair suas doutrinas definitivas a respeito do casamento e da homossexualidade.

O arcebispo Bruno Forte, secretário especial do sínodo, disse em seguida em entrevista coletiva que, embora a Igreja não aprove as uniões entre gays nem o casamento entre homossexuais, é preciso “respeitar a dignidade de todos” e que “a ideia fundamental é a centralidade da pessoa independentemente de sua orientação sexual”.

O relatório será debatido e modificado na semana seguinte por grupos de trabalho de bispos que vão submeter cada sessão a escrutínio, e então um relatório final será divulgado para ser debatido em todo o mundo no decorrer dos próximos 12 meses. Haverá um segundo sínodo em Roma em outubro de 2015, mas, ao final de todas as consultas e debates, é o papa Francisco quem vai definir o rumo a ser seguido.

O cardeal Luis Antonio G. Tagle, de Manila, disse que alguns bispos sentiam o “espírito” do Concílio Vaticano II neste sínodo. Para ele, o relatório seria um parâmetro para que eles pudessem “ver o que precisa ser aprofundado, esclarecido, e quais outros temas devem ser abordados, se ainda não foram. Assim sendo, o drama vai continuar.”

Um dos temas mais polêmicos do sínodo diz respeito a conceder o sacramento da comunhão aos católicos que tenham se divorciado e casado novamente sem que o primeiro casamento tenha sido anulado pela Igreja, um processo que costuma ser demorado e caro. A Igreja ensina que o casamento é indissolúvel. O documento reconhecia que os bispos estavam divididos quanto à questão da comunhão, que permanece aberta para debate. Mas o texto pede que a igreja trate com respeito os católicos divorciados e aqueles que se casaram novamente, “evitando termos e comportamentos que possam fazer com que se sintam alvo de discriminação”.

Alguns bispos conservadores que se opõem a qualquer tipo de mudança manifestaram suas opiniões. O cardeal americano Raymond Leo Burke disse que “tendências preocupantes” estavam emergindo do sínodo porque estão “dando margem à possibilidade de adoção de práticas que desviam da verdade da fé”. Já os “progressistas” no sínodo, que desejam mudanças na Igreja, “ocupam posições fortalecidas, nas quais foram instalados pelo papa Francisco”, disse Sandro Magister, especialista em Vaticano que escreve para a revista italiana L’Espresso, “O papa não é imparcial.”

Francis DeBernardo, diretor executivo do New Ways Ministry, grupo que defende os católicos gays, afirmou: “Esse reconhecimento é uma reversão total de afirmações anteriores da Igreja, segundo as quais essa orientação era vista como ‘distúrbio objetivo’, enxergando gays e lésbicas nas comunidades católicas como problemas, pessoas suspeitas”. Nos Estados Unidos, muitas paróquias recebem silenciosamente os casais gays, numa abordagem ao estilo “não pergunte, não conte”. Mas houve relatos de casais gays que não puderam participar da comunhão; paroquianos gays que foram expulsos de coros e conselhos paroquiais; professores gays afastados de escolas; e crianças gays proibidas de participar das escolas paroquiais.

Alguns analistas disseram que o documento do sínodo, ainda um texto preliminar aberto a futuras modificações, influenciará os pastores enquanto for debatido nos próximos meses. Segundo o reverendo James Martin, repórter especial da revista jesuíta America, “embora se trate de um documento interino, o texto representa uma revolução na maneira da Igreja se referir aos nossos irmãos e irmãs homossexuais”.

Entretanto, o documento inicial do sínodo reflete aquilo que parece ser um consenso definitivo entre a maioria dos bispos contra o casamento de pessoas do mesmo sexo. O documento também critica a pressão exercida pelas Nações Unidas e por alguns países ocidentais para convencer países africanos e de outros continentes a rescindir leis que restringem os direitos dos gays em troca de auxílio financeiro. O texto diz que é inaceitável “que entidades internacionais condicionem a oferta de auxílio à introdução de regras inspiradas pela ideologia de gêneros”.

Mas esse foi um raro arroubo político. No geral, o documento preliminar estabelece um tom pastoral que ecoa as palavras do Papa Francisco. De acordo com o texto, a Igreja deve abordar “problemas do mundo real”, cuidar das “famílias feridas” e compreender que situações irregulares como o divórcio são com frequência impostas, e não fruto de escolhas. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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