Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

Felipe Franco Munhoz faz releitura do mito do Fausto em 'Identidades'

Jovem promessa da literatura brasileira trabalha com elementos musicais e visuais em sua obra

Irineu Franco Perpetuo*, Especial para o Estado

22 de dezembro de 2018 | 16h00

Se todos os Faustos se parecem entre si, cada um é feliz ou infeliz à sua maneira. Em Identidades, seu segundo e personalíssimo romance, o jovem escritor paulistano Felipe Franco Munhoz, 28, revisita, relê e reescreve esse mito essencial da literatura do Ocidente em uma chave pós-moderna, jogando com e manipulando o Fausto da mesma forma com que joga com e manipula a linguagem e as formas literárias. Para Munhoz, falar de literatura e fazer literatura parecem ser atividades entrelaçadas. Em seu romance de estreia, Mentiras (2016), ele já elegera o escritor norte-americano Philip Roth (1933-2018) como alter ego, interlocutor e matriz poética. Mentiras é um livro a partir de, sobre e com Roth, assim como Identidades com o Fausto. Em uma época de oferta exaustiva de informações, em que todo o patrimônio cultural do Ocidente parece estar acessível a um clique, Munhoz opera uma coleta vertiginosa de artefatos simbólicos nas prateleiras da tradição para recombiná-los de modo pessoal, não linear e cerebral.

Sim, cerebral, porque tudo em Identidades vem de uma pesquisa bastante séria de forma e de linguagem, obedecendo a uma arquitetura e a um projeto estético firme e solidamente determinado. Provocar no leitor uma impressão de aleatoriedade não é, aqui, sinônimo de aleatoriedade na escrita. Se há algo de “experimental” em seu texto, trata-se de experiência realizada por um cientista que sabe muito bem onde quer chegar. Sua repulsa à linearidade pode ser desnorteante – se você gosta de “história com começo, meio e fim”, é melhor passar longe das elucubrações densas e elaboradas que brotam da pena de Felipe.

Não que não haja uma história sendo contada nesse Fausto paulistano do terceiro milênio. Temos lá, sim, Fausto, um Suposto Mefistófeles, Camila (que parece equivaler à Gretchen/Margarida do mito original) e outros personagens. Temos o pacto, temos jornadas por São Paulo, Berlim, Paris e Macau. O que não temos é um fio linear e didático a guiar o leitor, do qual Munhoz parece exigir um trabalho mental tão intenso e concentrado quanto o que ele empenhou na confecção do livro.

Assim como Goethe, Felipe estrutura seu “Identidades” como um “closet drama”, ou seja, como uma peça de teatro feita para ser lida, e não encenada – e toda ela em versos. O texto ganha muito, contudo, se recitado em voz alta, e as rubricas detalhadas sugerem uma plástica realizável e bela – aliás, o próprio autor fez uma versão para o palco, “Identidades 15 minutos”, fruto de seu diálogo com a obra e a pessoa do dramaturgo britânico de origem checa Tom Stoppard.

Seu Fausto – “que é mulher, mas em trajes – e corte de cabelo – semimasculinos” – aborda o Suposto Mefistófeles dizendo que deseja “o sexo/que me pertence, inverso”. Apenas um dos múltiplos embaralhamentos deliberados das identidades que, não por acaso, constituem o título da obra. Munhoz faz referência nominal aos Faustos de Marlowe, Goethe e Thomas Mann, mas é possível identificar outros no substrato – como, por exemplo, o inescapável Fausto brasileiro que é Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa.

Tratando o projeto gráfico como parte ativa de sua poética, Identidades lança mão de recursos desconcertantes, como duas páginas do livro tomadas por sinais de pontuação, sob o título de Chuva; a irrupção de uma foto, em outro momento; poemas escritos ao contrário, ou em escansão; sucessões de palavras repetidas, grudadas umas nas outras; transcrições de mensagens de Whatsapp (bem antes de seu uso nocivo e deletério nas eleições brasileiras); e uma babel de idiomas sem tradução, incluindo citações (redigidas corretamente) de Dostoievski no alfabeto cirílico.

O leitor que não é musicalmente alfabetizado também pode ficar perplexo com a aparição de uma patitura em meio à obra. Felipe fez uma versão para o português (perfeitamente praticável de ser cantada) da Canção da Pulga, que Beethoven compôs para o Fausto de Goethe. Sendo também músico, Munhoz esbalda-se em citações e referências musicais, da banda pós-punk Gang of Four a Miles Davis e Milton Nascimento, passando por uma plêiade de compositores eruditos – não raro, com indicações precisas de gravações de referência e suas minutagens. 

Aliás, na música contemporânea, costuma-se chamar de “técnicas expandidas” o momento em que um intérprete toca seu instrumento de maneira não convencional. Levando adiante a metáfora, parece justo afirmar que Identidades é um livro concebido, sobretudo, com base no que talvez pudéssemos chamar de “técnicas literárias expandidas”.

Na literatura como na música, essa expansão das técnicas não exclui trechos de forte carga emocional. Em um momento culminante, após dizer a Fausto que traz em um armário a roupinha do bebê que nunca poderá nascer, Camila diz: “Germino a –chaga?, amada?;/futuro filho morto:/ao cabo, escolho Aborto”. Essa irrupção de um evento dramático em meio a um universo imageticamente saturado e altamente estilizado lembra os procedimentos do cineasta britânico Peter Greenaway – com efeito igualmente impactante. O Fausto de Munhoz tem vocação multimídia: parece querer saltar das páginas em que foi criado para assaltar todos os sentidos do leitor que se permitir embarcar em seus jogos verbais e mentais.

*Irineu Franco Perpetuo é tradutor e crítico 

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