J. Saraiva/Confraria do Vento
J. Saraiva/Confraria do Vento

Fernando Monteiro cria histórias no exterior em 'Contos Estrangeiros'

Narrativas se passam em outros países para falar também sobre o momento do Brasil

José Castello*, Especial para o Estado

24 Fevereiro 2018 | 16h00

Épocas sombrias pedem escritos sombrios, não transparentes, opacos como um vidro embaçado. Tempos estranhos pedem escritos desamparados, vozes extemporâneas – ou estrangeiras, como os Contos Estrangeiros, de Fernando Monteiro, que acabam de sair pela Confraria do Vento. Narrativas forasteiras, fora do lugar, que leio um tanto hesitante, desorientado, mas agarrado ferozmente ao livro. Relatos que causam dúvida e desequilíbrio – exatamente como a torrente de fatos ambíguos, incertos, que hoje nos cerca. Informações que, em vez de iluminar, cegam – como o bombardeio louco de denúncias e escândalos sob o qual somos obrigados, hoje, a viver.

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Começo pelo fim: começo pelo último dos 15 contos de Fernando, Oxford Hotel. Um relato que, na aparência, trata de um assassinato, o de Luiza Brentano, em um hotel de Denver, no Colorado; mas que, na verdade, trata da tenebrosa colcha sangrenta de versões, de boatos e insinuações, de crenças, que recobrem a morte da pobre mulher. “Filho assassina a mãe”, diz um jornal. “Brasileira é morta pelo próprio filho”, estampa outro. Estamos, também em Denver, tão longe daqui, sob a euforia da vergonha. Vivemos hoje em uma realidade “pulp”: uma realidade de papelão barato como as revistas precárias do início dos anos 1900. Mundo sensacionalista, isto é, que existe para produzir sensações baratas, desferir choques, hipnotizar. Mundo que barateia e enxovalha a realidade, emprestando-lhe a aparência de papel velho e sujo. Em nome da ética, a lama. 

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“No dia seguinte suposições – não mais do que isso”, relata Fernando – sim: podemos tomá-lo como seu próprio narrador. Aqui também a neblina nos cega; aqui também, na brecha estreita entre narrador e autor, mal conseguimos ver. Prossigo a leitura: “Todos com hipóteses sobre a única certeza: o cadáver da brasileira”. Logo após o crime, começa o falatório. A realidade se torna oscilante e insegura, já não sabemos onde pisar. À proliferação de notícias corresponde, no conto, uma narrativa, ela também, frágil e cambaleante; uma narrativa que nos engole, uma narrativa que só aumenta o mal estar. “Suposições. Além do corpo, da mancha, e do relativo escândalo, tudo é suposição”. Hipóteses, conjeturas, alegações; crenças, convicções, fé. Onde a realidade se esconde? “As câmeras de reportagem da TV mostraram o lugar em todos os detalhes”. Detalhes, minúcias, pormenores criam a ilusão de verdade, enquanto a verdade, ela mesma, pelas bordas, escapa. Vivemos embriagados de informações e, com isso, temos uma forte ilusão de saber. Mas toda essa colcha de escândalos, essa gritaria, só serve para uma coisa: esconder nossa imensa ignorância.

“Tudo são suposições. O mundo é uma suposição”, prossegue Fernando. Presumimos, imaginamos, fingimos: dança insensata de máscaras. Sem adornar nada, sem disfarçar coisa alguma, o conto de Fernando Monteiro expõe a realidade quebradiça em que hoje vivemos. Expõe a ferida que nos dói. Mesmo despedaçamento que aparece, por exemplo, em Recorda as Lobas dos Jardins de Ontem:, assim mesmo, um título que termina com dois pontos. Um relato sobre a atmosfera turva do passado – que a nova história, a história dos grandes revisores e dos historiadores “politicamente incorretos”, se empenha em disfarçar. Fazendo uma espécie de história turva da prostituição, entre vapores como nas antigas termas romanas.

“Na confusão borrada, a memória dilata lembranças de trinta e cinco anos da água rolando até uma fonte que parece mais quente à distância”. Noites de neblina, de fumaça, de imprecisões, “tudo meio úmido como a pele de puma”. O narrador pensa em Volterra, a cidade oculta, pensa nas novas prostitutas que agora circulam montadas em lambretas vermelhas. Tanto na Roma Antiga, sob o reinado de Caracalla, como agora, nas ruas barulhentas e cheias de turistas, a turvação se perpetua. A neblina se impõe, como regra, como destino; a ausência de luz (que pode ser também o excesso de luzes); a escuridão (que pode ser também a luz feérica que cega). Nesse embotamento, a memória vacila (a história se torna “qualquer coisa”). Quando chegamos a esse ponto nefasto, hoje, exatamente nos dias de hoje e não mais na Roma dos césares, só nos resta, mais uma vez, lutar pela claridade.

É o que acontece em um conto como Elisa Fraser, a história de uma mulher estranha a si mesma. “Luz demais, sombra demais, tudo era demais para ela”, Fernando descreve. “Murmurando coisas esquecidas e sentindo que ninguém lhe compreenderia se começasse a falar”. Eis nosso presente: imersos em uma Babel, com as alianças demonizadas e o culto ao Eu sozinho, sofremos – como nos contos de Monteiro – de uma grande dor: a de já não saber mais. Não saber, sequer, de si. “Ela se olhava no espelho como se olha para uma completa estranha”. Olhava, olhava, mas não se reconhecia – não estava mais na imagem que lhe era devolvida, mas que já não lhe correspondia. Estamos de fato presentes nas selfies que tiramos obsessivamente? Somos mesmos as vozes tagarelas e fofoqueiras que matraqueiam nas redes sociais? Podemos ainda acreditar nas manchetes e nas denúncias em que se envolvem nossos dias? Elisa Fraser: ela se pergunta o que é seu próprio corpo. O que quer desse corpo que carrega? Ele ainda lhe pertence? O que é, enfim, isso que hoje todos buscam, obsessivamente: o prazer.

“Vocábulo sem centro”, o prazer se torna uma ideia vazia, “uma nebulosa semântica de muitos significados principalmente sob o foco da moral que era uma invenção da mente”. Um mundo enlameado, recoberto, mal e mal, pela moral. Todos falam na “ética”. Todos a usam como arma. Para que? Contra quem? No fundo, trememos diante do “mistério imemorial da realidade”. Estranha nossa realidade do século 21: parece clara, quase escandalosa; mostra “toda a verdade”, através de suposições, armações, delações, denúncias; parece nua. No entanto: quanta turvação. É desse estado de cegueira disfarçada de “novo saber”, dessa velha “nova ordem”, que tratam os contos corajosos de Monteiro. Contos desorientados e cheios de dor e pavor, exatamente como em nossos dias. Contos para ler e se ver? Não – porque não dá para ver, ainda não dá. Contos para ler e para doer. Resta (pois a literatura sempre nos empurra, sempre nos fazer andar) fazermos alguma coisa dessa dor que não termina.

*José Castello é jornalista, mestre em comunicação pela UFRJ e escritor. Autor de 'Ribamar' (Bertrand Brasil) 

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