Maira Mesquita/Divulgação
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Fernando Paixão dá receita de como escrever bem

O professor de Literatura do Instituto de Estudos Brasileiros e também poeta analisa textos clássicos em "Manual do Estilo Desconfiado'

Ieda Lebenstayn*, Especial para O Estado de S. Paulo

18 Agosto 2018 | 16h00

Nome deste caderno cultural, aliás é um advérbio que sinaliza o acréscimo de ideias ou de formas outras, a retificação ou o aperfeiçoamento de sentenças. Assim, este espaço se abre a reflexões sobre grandes escritores como Machado de Assis e Graciliano Ramos. Donos de estilos singulares, justamente esses dois autores se dedicaram à criação ficcional representativa em termos sociais e psicológicos, logo universais, com exímio cuidado quanto à forma e à escrita, tendo exercido também o cargo de revisores na imprensa.

Narra o escritor Medeiros e Albuquerque, com certa graça, que, quando se fundou a primeira Revista Brasileira, Machado de Assis era “o terror dos revisores”. Dezessete era, segundo se dizia, a média das revisões das suas provas. E mais: ou a última prova diferia totalmente da primeira, ou era inteiramente igual. Ou seja: o aliás, a busca da melhor forma, era a sua prática cotidiana, mesmo que às vezes retornasse à escrita primeira. Conclui Medeiros e Albuquerque: “Foi esse labor paciente do estilo que fez de Machado um grande escritor. Seu estilo é inconfundível. Puro, correto, claro, todo ele revela impecável bom gosto”. 

    Emendar, etimologicamente tirar o mendum, o “defeito”, era verbo conjugado com frequência por Graciliano Ramos, cujo trabalho como escritor tinha por horizonte justeza formal e social, uma sociedade que não silenciasse desigualdades gritantes, que não tivesse mendigos, palavra da mesma origem de emenda. A atenção ao “fator econômico” e o empenho pela clareza de escrita perfazem a consciência de quem, qual um “sapateiro da literatura”, sabe que ideias, observações, sentimentos, a habilidade de cosê-los e o conhecimento da gramática e das palavras, o convívio com o dicionário são – como o couro, a cola, os ilhós, a sovela – a matéria e os instrumentos necessários para seu ofício. Como o avô do menino se entregava à composição de urupemas, a tarefa de um escritor como Graciliano é “obstinação concentrada”, o olho que “brilha e se apaga” ao se embrenhar no “arranjo de ninharias”. Largos riscos sinalizam ao longo das páginas esse caminho pedregosamente fértil de escolhas de palavras e construções, conforme o leitor pode ver nos manuscritos presentes no Arquivo Graciliano Ramos do Instituto de Estudos Brasileiros da USP.

    Professor de literatura do IEB, editor por muitos anos, poeta e ensaísta, Fernando Paixão lançou este ano, pela Ateliê Editorial, o Manual do Estilo Desconfiado, que oferece aos leitores 25 recomendações sobre a arte de bem escrever, desconfiando, por exemplo: da frase longa, do adjetivo, do elogio, da repetição de palavras, das reticências, da abstração, da primeira versão. Se a palavra manual alude a um guia objetivo para se ter em mãos, e estilo era originalmente o ponteiro usado pelos antigos gregos e romanos para escreverem em tabuinhas, logo vem sua dimensão subjetiva, e no título do livro sobressai o traço de dúvida, de constante escolha que permeia o exercício de redigir. Como destaca Luis Fernando Verissimo na quarta capa, “não existe nada parecido, que eu saiba, por aí”: trata-se de uma obra original, útil tanto a aspirantes como a praticantes da escrita, na medida em que apresenta, em máximas, de forma poética e bem-humorada, hábitos a evitar e bons exemplos.

    Esta máxima da seção “Desconfie da vírgula” constitui boa mostra de como Fernando Paixão conhece o potencial da poesia para expor singelamente conceitos: “Toda vírgula implica dobrar uma esquina, mas continuando no mesmo caminho”. Como se sabe, a vírgula é uma varinha: tem o condão de indicar uma pequena pausa, espaço para se incluir uma circunstância, descrição, enumeração, explicação, vocativo numa sentença, porém não implica um corte. Enquanto manuais de redação advertem que não se usa vírgula entre sujeito e predicado, entre o verbo e seus complementos, Paixão oferece o mesmo ensinamento por meio da imagem da esquina, circunstância em que o caminhante dobra sem, no entanto, deixar de completar seu trajeto. 

“O clichê é um chiclete usado”: nada como uma frase concisa espelhando no som e no sentido a identidade do chavão com um resíduo mastigado, grudento e que perdeu o sabor. O manual de Fernando propõe e exerce a poesia, a busca por formas novas frente aos lugares-comuns, junto com as práticas do olhar autocrítico e da reescrita. 

Ao completar a frase de Buffon – “O estilo é o homem… desde que ele tenha caráter” – e ao sublinhar “o equilíbrio entre o curso da frase e o pouso das palavras”, Paixão realça a combinação de estética e ética que garante a força de artistas como Graciliano. Aliás, muitos advérbios em mente valem reproche, se a razão é falsa: “Quem ‘mente’ demais cai em descrédito”. Assim, brincando, a poesia e o conhecimento sintático e vocabular podem indicar um caminho ético. Vamos confiar?

* Ieda Lebenstayn é autora de 'Graciliano Ramos e a Novidade: O Astrônomo do Inferno e os Meninos Impossíveis'

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