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Fernando Paixão medita sobre a poesia em novo livro

'Acontecimento da Poesia' confronta dois polos da comunicação, o utilitário e o simbólico.

Caio Sarack*, Especial para o Estado

04 de maio de 2019 | 16h00

Certa aura reveste a palavra quando ela é escrita poeticamente. Entendê-las nas muitas maneiras dos poetas nos ajuda a ficar um pouco mais próximo dessa doutrina da linguagem e simultaneamente nos dá acesso diferente ao mundo. O livro Acontecimento da Poesia, do professor Fernando Paixão, publicado pela editora Iluminuras, compila diversos fragmentos de experiências: muitos poetas e seus textos são vistos e revistos a fim de produzir um contato que evidencie o pensamento poético em ato. Ao tratar dele, o professor luso-brasileiro do Instituto de Estudos Brasileiros da USP confronta dois polos da comunicação – o utilitário e o simbólico. A face utilitária é a exposição do professor que quer encontrar evidências enquanto escava os versos do poema; a simbólica está em produzir experiência pela analogia, criando figuras e acasos para que o seu leitor possa estender seu contato com as poesias de Georges Bataille, José Paulo Paes, François Cheng ou Fernando Pessoa.

“É difícil dizer as coisas. É difícil dizer as pessoas”, a citação de um prefácio escrito pelo professor Alfredo Bosi pode funcionar como instrumento de depuração dos textos de Paixão, a sua meditação é poética porque tem o próprio autor como vínculo profundo e afetivo com a poesia – tudo está em jogo. As descrições dos espaços da casa do poeta José Paulo Paes, até mesmo as lembranças de suas leituras dos livros de Bataille ou de Rubens Rodrigues Torres Filho tornam-se elas mesmas as analogias por meio das quais podemos acompanhá-lo nos acontecimentos dos poemas. 

Ao eleger essa estratégia, o autor reforma suas notas de rodapé, seus parênteses digressivos ou suas contextualizações históricas. Se tenho razão em dar como decodificador deste livro o aforismo de Bosi citado no ensaio sobre a vida do poeta José Paulo Paes (p.19), ao abrirmos os textos sobre François Cheng e Radovan Ivsic, poetas que provavelmente desconhecemos, as descrições históricas e as sugestões bibliográficas vão glosando o professor de literatura e o leitor de poesia. Lemos na página 114 uma indicação de livro sobre a vida do poeta croata Ivsic: “Prenez-moi tout, mais les rêves, je ne vous les donne pas” – Recolha de mim tudo, mas os sonhos, não lhos darei, em tradução livre. Não estamos mais diante do nome da coisa-livro, mas de mais um sopro que nos acorda.

Não só do acaso vive a poesia, mas de toda atenção que provoca no leitor: o poema e tudo o que o envolve (ou o esconde) é “como uma intervenção simbólica vigorosa – de alto poder encantatório (ou corrosivo) sobre as coisas.” (p. 9); junto com essa intervenção, somos convidados a ocupar o mundo que um dia chamou Drummond de Máquina e viramos os grãos de areia que podem interrompê-la, criar um choque na modorra indiferente ou na catatonia da sociedade que consome – nos consome. Se a poesia desperta ou adormece, corrói ou encanta, assim o faz para além da dicotomia estática a que nos apresenta a realidade reduzida à fetiche. Antes, num impulso ao modo de Heráclito, descreve uma cosmologia que habita este mundo (a poesia não é evasão), mas a desvela ao implodi-lo – “teatraliza”, diz Fernando Paixão sobre Bataille, mas poderíamos, com ele, dizer sobre a própria produção poética do nosso tempo, “o impasse de quem deseja alcançar o absoluto, mas se vê reduzido a uma densa camada de silêncio.” (p. 103).

É difícil dizer as coisas, as pessoas. É ainda mais difícil dizer a poesia sem lhe matar a coisa e a pessoa nela contidas. A exposição que quer compreendê-la, determiná-la como legítima ou não, como erudita o suficiente ou não, a experiência substitui a explicação em Acontecimento da Poesia.

*CAIO SARACK É MESTRE EM FILOSOFIA PELA FFLCH-USP E PROFESSOR DO INSTITUTO SIDARTA E DO COLÉGIO NOSSA SENHORA DO MORUMBI 

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