Motéma Music
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Festival americano valoriza música feita por imigrantes

'Migrations: The Making of America' mostra a importância dos fluxos migratórios para a criação da cultura americana

Jon Pareles, The New York Times

16 de março de 2019 | 16h00

NOVA YORK — O que os imigrantes trouxeram com eles? Numa viagem sem volta para uma nova vida desconhecida talvez  tenham trazido dinheiro, documentos, roupas, algumas pequenas lembranças. E algo invisível e intangível também: suas memórias culturais: as canções de ninar que seus pais cantavam,  as danças habituais nos casamentos, a melhor maneira de cozinhar uma galinha. No novo território essas memórias eram um elo com o país natal e, com sorte, algo que compartilhavam com os vizinhos.

Esta é a história americana, repetida com variações incontáveis a cada nova chegada. É também um assunto polêmico na política em todo o mundo. E é o tema do festival Migrations: The Making of America, que se desenrola por toda a cidade durante todo o fim de semana, tendo o Carnegie Hall como centro junto com mais de 75 organizações parceiras, incluindo a New York Historical Society, o Irish Arts Center, Harlem Stage, o YIVO – Institute for Jewish Research, El Museo del Barrio e o Vietnam Heritage Center. O festival engloba workshops de dança, painéis de discussões e tours pelo Harlem, ao lado de pequenos e grandes concertos.

“São tantas culturas diferentes e tantas etnias distintas que querem contar sua história”, disse Clive Gillinson, diretor artístico e executivo do Carnegie Hall.

Os programas do Carnegie focam em três migrações históricas para e dentro dos Estados Unidos: a vinda de irlandeses e escoceses nos séculos 18 e 19; a dos judeus que chegaram da Rússia e Europa Oriental no final do século 19 até 1924, quando o National Origins Act estabeleceu quotas de imigração; e a Grande Migração de seis milhões de afro-americanos do Sul para as cidades industriais do Norte. Os imigrantes das ilhas britânicas trouxeram consigo um repertório que foi a semente da musica country e dos Apalaches. O contingente judeu trouxe compositores fundamentais para a Tin Pan Alley e a Broadway. E a Grande Migração disseminou o blues, o jazz, o gospel e outras glórias da música afro-americana.

Quando você pensa que “algumas das artes inspiradoras e sublimes que jamais poderia imaginar”, surgiram de situações terríveis, disse Gillinson, “acho que elas nos dizem muito sobre o que os seres humanos conseguem fazer ao transmutar as coisas mais duras e dolorosas da vida em algo que eleva todo o ser humano”.

O pianista de jazz Jason Moran e a mezzo-soprano Alicia Hall Moran, sua mulher, ao lado de outros convidados da música clássica, rock, gospel e do jazz,  realizarão um concerto em 30 de março sobre a Grande Migração no Carnegie Hall, intitulado Two Wings. Sua base, disseram Jason e Alicia, é o livro  The Warmth of Other Suns, de Isabel Wilkerson. Músicas do programa como o spiritual Two Wings, e o blues Route 66, por mais alegres que pareçam, falam, contudo, de fuga.

“A raiz é terror puro”, disse Jason. “Pessoas tendo de fugir, tendo de se esconder, reunir os poucos pertences que tinham e partir improvisadamente para alguma outra cidade – para chegar ali e descobrir que teriam de enfrentar outros problemas depois”.

A herança judaica e sua evolução americana serão tema de um concerto emblemático em 15 de abril. “From Shtetl to Stage: a celebration of Yiddish Music and Culture”, produzido pelo autor Seth Rogovoy, reunirá músicos clássicos (o violinista Gil Shaham e o pianista Evgeny Kissin, de klezmer (o clarinetista David Krakauer e o trumpetista Frank London, diretor musical do show), além de cantores e atores explorando o teatro ídiche  e sua grande influência.  No Zanker Hall, o clarinetista e mandolinista Andy Statman conduzirá seu trio em 14 de março e Michael Feinstein apresentará o The Great American Jewish Songbook: Kern, Berlin, Arlen, Rodgers and More”, em 27 de março.

A faceta escocesa-irlandesa do festival começa no sábado com um segumento do Live From Here, programa de rádio da American Public Media apresentado pelo compositor Chris Thile. “Foi uma decisão bizarra apresentar o espetáculo, visto que sou um sujeito do sul da Califórnia sem nenhuma herança escocesa ou irlandesa”, disse ele. “Mas de outro lado faz sentido porque tem a ver como essas migrações tiveram tanta influência na cultura e na vida americana”.

Em 6 de abril no Zankel irá se apresentar o Gloaming, quinteto de músicos irlandeses e americanos que fundem os tradicionais violinos e canções irlandesas com harmonias e arranjos introspectivos e ousados. Para Martin Hayes, violinista de County Clare, que fundou o grupo, eles continuam um diálogo que data de um século entre a música irlandesa e sua diáspora americana, restaurando algumas sutilezas que foram abandonadas devido às  limitações das primeiras gravações e o entusiasmo pela guitarra quando do ressurgimento da música folk nos anos 1960.

O festival The Migrations incluiu uma série nova no seu quinto ano no Flushing Town Hall, centro de artes: O Global Mashups, que apresenta programas duplos com músicos de tradições diversas para um público que chega para dançar. Os passos de dança são ensinadas antes do espetáculo e  depois de cada grupo tocar sua parte, eles se juntam no palco. “No final da noite já não somos estranhos”, disse Ellen Kodadek, diretora artística e executiva do Flushing Town Hall.

A programação deste ano começa com o Hazmat Modine – grupo de blues que toca desde o jazz tipo brass-band de Nova Orlenans, até ska, ou klezmer – e Falu,  cantora nascida em Mumbai que vai interpretar músicas de filmes de Bollywood e do Holi, festival hindu de renovação e perdão.

Falu representa a 11ª geração de uma família de músicos clássicos hindus: ela imigrou para os Estados Unidos há 20 anos e estudou no Berklee College of Music. Seu álbum Falu’s Bazaar foi um dos indicados ao Grammy este ano e “com ele meu objetivo foi manter a tradição viva”, disse ela,  “e no caso de todas as pessoas que imigraram, que têm uma cultura diferente à qual se prender, que têm uma história para contar, atestar que a sua música é importante, a sua história é importante”. 

Ela não tem nenhum preconceito quanto a participar de uma jam-session cruzando culturas com o Hazmat Modine. “A música tem o maior poder unificador.  Vamos juntar as pessoas”, afirmou. / Tradução de Terezinha Martino 

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