Kevin Yatarola/The New York Times
Kevin Yatarola/The New York Times

Festival Mostly Mozart vê renovação e ideias originais

Programação com releituras mostra que ainda é possível inovar no cenário erudito

Anthony Tommasini, The New York Times

26 Agosto 2017 | 16h00

Fazendo uma retrospectiva, está claro que Jane Moss, diretora artística do Lincoln Center, foi inteligente ao nomear Louis Langrée como diretor musical do Festival Mostly Mozart em 2002. Quase imediatamente, trabalhando juntos, ambos revigoraram um festival que no decorrer das décadas se tornou um projeto dominado por muitos concertos apáticos e previsíveis de obras de Mozart e seus contemporâneos. 

O festival introduziu várias inovações, bem-vindas: criou uma residência para o International Contemporary Ensemble, grupo de música nova de primeira classe; iniciou uma série popular de recitais noturnos na acolhedora Kaplan Penthouse; e apresentou produções de ópera ambiciosas, como a première americana de Written on Skin, de George Benjamim, em 2015.

Mas, não obstante todas as ideias criativas, os concertos da orquestra do Mostly Mozart Festival, no David Geffen Hall, continuavam convencionais. Langrée revitalizou o que era um conjunto desanimado e os concertos que dirigiu foram vigorosos. Mas muitos programas ainda estão aferrados, de modo frustrante, à marca do festival: Mostly Mozart.

Neste verão, contudo, no que pode ser uma grande reviravolta, Louis Langrée e Jane Moss trouxeram novo frescor para o programa de concertos da orquestra. E dois deles se destacam.

A temporada que se encerra na noite de domingo, foi aberta em julho com um programa intitulado The Singing Heart, uma celebração das crianças como fonte de sabedoria e potencial. Entre os movimentos da Sinfonia Haffner de Mozart, conduzida por Langrée, o inspirado Young People’s Chorus, da cidade de Nova York, cantou músicas folclóricas e spirituals. O concerto terminou com uma emocionante apresentação da Fantasia Coral de Beethoven para piano, coro e orquestra. O tema da noite pode ter sido um pouco ambicioso e o programa não se harmonizou muito. Mas foi estimulante ver o festival Mostly Mozart tentando algo tão inusitado em sua abertura de gala. 

E no início de agosto, o So Percussion, quarteto de percussionistas brilhantes, aliou-se à orquestra para a estreia de um novo arranjo de David Lang, um concerto para percussão. Esta peça exige que os solistas toquem todos os tipos de instrumentos improvisados, incluindo garrafas de vinho, varas e latas de lixo. Langrée selecionou obras mais antigas de Mozart e Lully para complementar a peça composta por Lang, obras que, na sua época, incorporavam instrumentos de percussão exóticos, incluindo pratos, triângulos e pandeiros para evocar um clima turco.

Posteriormente, So Percussion apresentou-se na Kaplan Penthouse em um dos populares concertos do A Little Night Music, com um programa interessante e ameno de peças de John Cage, Caroline Shaw e Viet Cuong.

Quase todos os artistas que se apresentaram na série A Little Night Music aproveitaram o horário noturno, a atmosfera informal e acolhedora do local para apresentar programas mais reflexivos. Em 12 de agosto, o genial pianista islandês Vikingur Olafsson apresentou a Partita nº 6, obra complexa de Bach, seguida de uma seleção de estudos de Philip Glass, que foi o primeiro a interpretar e gravar, tendo sido muito elogiado. Estas peças, que podem facilmente parecer mecânicas e repetitivas em termos de ritmo, e musicalmente inconsistentes, transmitiram uma sensação de espaço e imprevisibilidade na interpretação de Olafsson, alternadas com comentários informativos sobre a obra. 

Na noite anterior o refinado pianista Pedja Muzijevic apresentou um programa que Langrée poderia escolher como modelo para os concertos da orquestra. Com o programa Haydn Dialogues, Muzijevic alternou interpretações vibrantes de quatro sonatas de Haydn com peças contemporâneas de Jonathan Berger, George Crumb e Morton Feldman. 

Ouvido no contexto do programa que apresentou, o uso radical por Feldman de momentos de silêncio em Two Intermissions (1950) tinha muita coisa em comum com a divertida Sonata em Dó maior de Haydn, que, com frequência tem pausas travessas entre as frases. 

Então, Langrée, que tal um ou dois programas comparáveis ao Mozart Dialogues no próximo verão?

O último concerto da orquestra na quarta-feira pode não ter sido tão ousado. O formidável pianista Kirill Gerstein foi solista do Concerto para Piano de Schumann e Langrée conduziu a Primeira Sinfonia de Brahms. 

Mas este programa foi conceitualmente idêntico ao recital solo de Gerstein na Kaplan Penthouse. O público presente em ambos foi conduzido a uma exploração do crucial envolvimento de Brahms com Robert e Clara Schumann. O concerto da orquestra começou na verdade com Gerstein tocando uma peça solo: as sutilmente complexas Variações sobre um Tema, de Brahms, compostas por ele quando tinha 21 anos, época em que Schumann estava confinado num asilo para doentes mentais. A interpretação de Gerstein foi brilhante e impetuosa. No caso da sinfonia de Brahms, embora vivaz, houve alguns trechos um pouco instáveis.

Na Penthouse, Gerstein abriu a audição com dois prelúdios para órgão e coro de Brahms, compostos em 1896, após a morte de Clara Schumann, que viveu 40 anos após a morte do marido e foi amiga de Brahms a vida inteira. 

Depois, apresentou um conjunto de variações sobre o mesmo tema do seu marido, compostas por Clara Schumann, que Brahms utilizou posteriormente. O pianista encerrou seu concerto com a festiva Sonata número 2 em Fá Menor, uma das obras compostas por Brahms aos 19 anos de idade. 

Como bis, Langreé juntou-se a Gerstein para a apresentação das Danças Húngaras de Brahms para piano a quatro mãos. Um bom augúrio para as futuras inovações artísticas do festival Mostly Mozart foi ver juntos Langrée e o inquisitivo Gerstein. / Tradução de Terezinha Martino  

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