Mathias Völzke/Steirischerherbst
Mathias Völzke/Steirischerherbst

Festival na Áustria se consolida como polo artístico internacional

A 51.ª edição do Steirischer Herbst Festival, em Graz, traz obras provocativas e coloca a cidade no mapa cultural europeu

Scott Reyburn, The New York Times

06 Outubro 2018 | 16h00

“Atormentado pelo chapéu do seu avô nazista no sótão? Não sabe o que fazer sobre isso? Envergonhado demais para vender, emocional demais para queimar?” Yoshinori Niwa, um artista japonês que vive em Berlim, tem a solução. Simplesmente coloque as lembranças ofensivas do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães no contêiner fornecido, e esse passado “questionável” será jogado fora. O sinistro contêiner de roupas pretas com essas instruções em uma praça pública onde, 80 anos antes, milhares aplaudiram Adolf Hitler, deve certamente ser a obra de arte mais provocativa da 51ª edição do festival Steirischer Herbst (Outono da Estíria) em Graz, a segunda cidade da Áustria.

Anteriormente mais conhecido como festival de teatro, o Steirischer Herbst, que vai até 18 de outubro, nomeou seu primeiro diretor não alemão e está agora redefinindo a si mesmo como um evento de arte internacional. A curadora russa Ekaterina Degot, trabalhando com um coletivo de outros promotores de exposições, usou um título carregado historicamente,Volksfronten (Frentes Populares) para uma exploração por mais de 40 artistas do que ela descreve em sua introdução no catálogo como “os alarmantes déjà vus dos anos 1930”.

A instalação de Niwa está na Praça Central, a mesma de onde Hitler se dirigiu a uma multidão em março de 1938, quando visitou Graz para celebrar a anexação de sua Áustria natal pela Alemanha. Mais recentemente, as preocupações com a imigração – Graz fica a menos de 50 quilômetros da fronteira com a Eslovênia, um ponto de entrada privilegiado para o país de refugiados em 2015 – fizeram essa afluente nação voltar-se para a direita. A Áustria é agora governada por uma coalizão do conservador Partido do Povo (ÖVP) e do populista Partido da Liberdade (FPÖ).

Até que ponto a Áustria colaborou ou foi vítima do regime nazista durante a 2.ª Guerra Mundial é um debate nacional que já dura décadas, sustentando o desconforto com a ascensão de partidos de extrema direita.

Mas a população de Graz, pelo menos publicamente, parecia bastante relaxada, a ponto de mostrar-se indiferente, sobre a presença de uma obra de arte intitulada Retirando Adolf Hitler de um Espaço Privado.

“Estou no contêiner nazista”, disse uma jovem no começo da semana, falando em seu celular, antes de sair para pegar o bonde.

O artista, no entanto, tem sido visado nas mídias sociais. “Você é uma vergonha para a humanidade. Apenas se jogue no contêiner”, foi um dos comentários mais extremos dirigidos a Niwa no Facebook. Ao mesmo tempo, pelo menos dois dos poucos indivíduos que deixaram itens no lixo concordaram em ser entrevistados em vídeo pelo artista, de acordo com Christoph Platz, diretor de assuntos curatoriais do Steirischer Herbst.

“Nosso público são os cidadãos de Graz”, disse Platz, curador que trabalhou na exposição quinquenal da Documenta em Kassel, na Alemanha. “O mundo da arte principalmente aparece, mas o que isso significa para os moradores?”

Profundo em ideias, e em artistas do antigo bloco oriental, o festival publicamente expõe a população de mais de 270 mil pessoas de Graz a projetos como Anschluss 90 (Conexão 90), de Henrike Naumann da Alemanha, uma loja de móveis cheia de itens kitsch do pós-modernismo que poderia ter sido criado se a reunificada Alemanha tivesse anexado a Áustria novamente. Outro, Snow from Yesteryear (Neve de Antanho), de Irina Korina, da Rússia, é um conjunto de esculturas gigantes infláveis que subvertem o orgulho nacional que a Áustria sente pela beleza de sua paisagem.

Na tarde de segunda-feira, essas instalações padrão da Bienal estavam desertas. Mas, ao contrário da Bienal de Veneza, este não foi um festival de arte em que os galeristas estavam presentes para ajudar com as questões de vendas.

A falta de visitantes é uma preocupação constante para as pequenas e médias galerias comerciais, como foi claramente o caso na terça-feira, a cerca de 190 quilômetros ao norte, em Viena. A capital austríaca, recentemente classificada como a cidade mais habitável do mundo pela Economist Intelligence Unit, hospeda o Curated by Viennaline, colaboração de 21 concessionárias contemporâneas que monta exposições criadas por curadores internacionais convidados.

Viena tem a reputação de ter museus soberbos, mas não muito em termos de um cenário de arte de performances. A iniciativa Curated by Viennaline, de quatro semanas, agora em sua 10ª edição, combinada com a feira anual Vienna Contemporary, que foi inaugurada na quarta-feira, foi projetada para dar ao público internacional uma razão para visitar a cidade, além de admirar obras de Schiele e Klimt.

Na galeria Crone Wien, Mark Rappolt, editor da ArtReview, estruturou uma mostra em torno de um vídeo documentando como, em 2000, o diretor de cinema e teatro alemão Christoph Schlingensief montou um centro de detenção no estilo “Big Brother” próximo à sede da Ópera de Viena. Com 12 contêineres, o centro abrigou 12 pessoas que pedem asilo, um dos quais o público votava pela sua saída todos os dias (para posterior deportação), deixando um “vencedor” para se tornar cidadão austríaco por casamento.

Na época, o projeto Please Love Austria (Por Favor, Ame a Áustria) de Schlingensief criou um furor em Viena e além. Agora, sua obra que remete a+    + Jonathan Swift pode ser apreciada na paz de uma galeria vazia.

Também tudo estava tranquilo na Galerie Martin Janda, onde o escritório de curadoria Latitudes, com sede em Barcelona, organizou um espetáculo em grupo que incluiu trabalhos fotográficos de Sean Lynch da Irlanda e escultura de David Bestué da Espanha.

Os preços variaram de 6 mil a 20 mil euros (US$ 7 mil a US$ 23 mil). Nenhuma venda foi feita na galeria desde que Curated by foi aberta em 14 de setembro, de acordo com Janda.

“Não é uma coisa de mercado”, disse ele sobre a colaboração na galeria. “É apenas mais um passo para fortalecer Viena como uma cidade de arte contemporânea”. Na quarta-feira, no entanto, na abertura da feira Vienna Contemporary, Janda vendeu rapidamente duas pequenas obras de técnica mista do cultuado artista croata Mladen Stilinovic, que morreu em 2016. Com um preço de 12 mil euros cada, elas foram compradas por um colecionador suíço. 

Agora em sua quarta edição no espetacular Marx Halle, um antigo mercado de carne feito de ferro fundido, a Vienna Contemporary este ano contou com cerca de 110 expositores, cerca de 40% dos quais moram na Áustria. Diferentemente da Frieze London, que começou dia 4 e termina neste domingo, 7, uma feira muito maior (160 galerias), nenhuma galeria norte-americana aparece na lista de expositores. Para alguns visitantes, a natureza regional do evento é um grande atrativo. / Tradução de Claudia Bozzo 

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