C.M. Battey/Biblioteca do Congresso Americano
C.M. Battey/Biblioteca do Congresso Americano

Ficção afrofuturista de W.E.B. Du Bois mostra que o racismo permanece o mesmo há mais de cem anos

Obra especulativa escrita no início do século 20 chega ao Brasil pela primeira vez

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2021 | 15h00

Editora nova na praça: Fósforo. Catálogo de primeira ordem: aulas de Vladimir Nabokov sobre literatura (em dois volumes), dois romances da francesa Annie Ernaux (O Lugar e Os Anos) e dois títulos que correm o risco de ser expurgados da biblioteca da Fundação Cultural Palmares por seu presidente, o negro de alma ariana Sérgio Camargo; até porque um dos autores era socialista.

O primeiro, cronologicamente, é 13 de Maio, curtas narrativas do jornalista, escritor e tradutor maranhense Astolfo Marques (1876-1918), oportunamente recuperadas pelo sociólogo e pesquisador Matheus Gato e inéditas em livro. 

O segundo, O Cometa, é uma experiência de ficção especulativa, afrofuturista, com 40 páginas, escrita entre o fim da Gripe Espanhola de 1918 e o Verão Vermelho de 1919 (assim denominado por causa dos atentados terroristas e linchamentos contra a população negra dos EUA executados por supremacistas brancos), acompanhada de um ensaio sobre “o fim da supremacia branca”, especialmente produzido para o livro pela escritora Saldiya Hartman. 

O autor do conto, W.E.B. Du Bois (1868-1963), não é um nome propriamente consagrado na literatura, mas um dos mais ilustres sociólogos, historiadores e ativistas afro-americanos do século passado, se não o mais ilustre.

De uma família de negros livres, William Edward Burghardt Du Bois (leia-se “Bois”, mesmo, não à francesa, “Buá”) não nasceu na Luisiana, mas em Massachusetts, formou-se em Harvard, estudou em Berlim e rodou o mundo, dando conferências e sedimentando o movimento pan-africano e a difusão de pensadores negros radicais como Frantz Fanon. 

Tinha um ar aristocrático que o distinguia acentuadamente de seu irmão de lutas e intelecto, mas rival político, Booker T. Washington. Não merecia ter morrido justo na véspera daquela marcha pelos direitos civis em que Martin Luther King consagrou a frase “Eu tenho um sonho”. De todo modo, não teria comparecido ao histórico evento, pois se autoexilara em Acra (Gana), para não se amofinar mais com a caça às bruxas macarthista.

A editora Veneta traduziu-lhe este ano As Almas do Povo Negro, coletânea de 14 ensaios, prefaciada pelo prof. Silvio de Almeida. Du Bois assinou outras obras ficcionais, mas nenhuma teve a mesma recepção popular de O Cometa

Relato do gênero pós-apocalíptico, de estrutura e feitura simples, começa com um cataclismo sideral: a cauda de um cometa libera gases tóxicos sobre Nova York, aparentemente dizimando toda a população da cidade, à exceção de um homem e uma mulher. Ele, Jim Davis, é negro e contínuo do presidente de um banco; ela, Julia, é uma branca bem nascida que ele encontra chorando num prédio da rua 72. 

Jim livrou-se da contaminação porque o acaso o trancara num cofre hermeticamente fechado no subsolo do banco, aonde fora buscar um documento a pedido do patrão. Enquanto ele se preocupa com procurar seus familiares no Harlem, Julia busca o pai, a quem afinal reencontra, pois a verdade é que nem todos morreram asfixiados em Manhattan. 

Se Julia é, ao menos para mim, um nome de ressonância orwelliana, embora 1984 tenha sido escrito duas décadas depois de O Cometa, Jim remonta ao fastígio do segregacionismo racial (às leis da Era Jim Crow) e às raízes da literatura americana, ao Negro Jim de Huckleberry Finn, de Mark Twain. A naturalmente esperada relação inter-racial não acontece, mas Jim e Julia nem precisam flertar para ser comparados a Adão e Eva. 

Para evitar spoiler, fico por aqui, apenas adiantando que as questões fundamentais impostas pelo racismo no início do século passado permanecem as mesmas na América e o supremacismo branco parece cada vez mais longe de ter um fim.

A leitura de O Cometa me trouxe à memória um velho science-fiction da Metro de 1959, O Diabo, a Carne e o Mundo (The World, the Flesh and the Devil),igualmente pós-apocalíptico, com outro casal improvável, Ralph e Sarah, com muitos pontos em comum com Jim e Julia. Ralph (Harry Belafonte) é negro e Sarah (a sueca Inger Stevens), branca e também de outro estrato social. 

O cenário é o mesmo: Nova York, golpeada, no caso, por um letal “sódio radiativo”. Outra coincidência: Ralph também escapa da contaminação por ter ficado preso por acaso debaixo da terra, não no interior de um cofre com porta de pedra, mas nzuma mina na Pensilvânia. 

Filmado em preto & branco, parece um episódio esticado da telessérie Além da Imaginação, com impressivas imagens de desolação urbana, sem danos materiais visíveis nem corpos inertes espalhados pelas ruas, como os observados na história de Du Bois. A estranheza pela ausência de cadáveres se dissipa quando nos certificamos de que Nova York fora evacuada antes da disseminação dos  isótopos. 

O cauteloso moralismo da Hollywood de 60 anos atrás impede que Ralph e Sarah se envolvam afetivamente e concretizem uma união birracial, de adâmicas consequências, mediante um “diabolus ex-machina” representado por um terceiro sobrevivente, o branco e galante Benson (Mel Ferrer), que surge do nada, remando um bote pelo rio Hudson, para compor um triângulo amoroso platônico e deixar em aberto a eternização da supremacia branca na América. 

O filme não termina com o tradicional The End, mas com um inopinado The Beginning, acenando com a possibilidade de um futuro de harmonia entre as raças, ilusão que por certo foi vendida a George Floyd e a Rosa Parks na escola primária.

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