Gianni Cipriano/The New York Times
Gianni Cipriano/The New York Times

Filme de Milo Rau imagina o que Jesus pregaria no século 21

Diretor suíço retrata a vida do Cristo com refugiados africanos no interior da Itália

Elisabetta Povoledo, The New York Times

23 de novembro de 2019 | 16h00

MATERA, ITÁLIA - Para seu relato cinematográfico da história de Jesus, The New Gospel (O Novo Evangelho), o diretor suíço sediado na Bélgica Milo Rau procurou responder a algumas perguntas como: “O que Jesus pregaria no século 21? Quem ele defenderia? Qual seria o seu combate?” Rau encontrou a resposta na Itália contemporânea, onde o seu projeto, em parte cinema, em parte documentário e em parte campanha política – foi realizado este ano. 

Para interpretar o Cristo ele escolheu um antigo trabalhador temporário imigrante, um dos milhares que trabalham nas várias colheitas – na maior parte e tomates, olivas e laranjas – nos campos ao sul da Itália. Eles labutam durante longas e exaustivas horas ganhando um salário miserável e são obrigados a viver em favelas superlotadas, com frequência sem luz elétrica ou água.

Assim numa noite de setembro, um desfile nada convencional de imigrantes, a maioria de nações africanas, jovens italianos, membros de várias ONGs, jornalistas e moradores com seus cães e até um jumento – se juntaram ao longo das ruas de pedra branca da cidade de Matera, entoando o slogan, “direitos de trabalho e dignidade”. Vestindo com uma camiseta preta e jeans, Rau marchava no meio da multidão, incentivando o público a entoar os slogans enquanto as câmeras rodavam a cena.

Jesus e seus apóstolos lideravam o desfile, que, na verdade, era uma cena no filme da entrada de Jesus em Jerusalém, e pararam nos degraus da catedral de Matera sob o sol escaldante para cantar Bella Ciao, uma antiga canção italiana adotada como hino contra o fascismo.

Depois vieram os discursos: sobre os apuros dos imigrantes para colocar alimento nas mesas dos italianos, as dificuldades que eles enfrentam como estrangeiros na Itália, a hostilidade, o racismo e as lacunas burocráticas que impedem muitos de conseguirem o status de imigrante legal. Seus monólogos eram sempre interrompidos por gritos de “dignidade, dignidade” e “liberdade, liberdade”.

“Haverá ódio contra nós; peço a vocês para resistirem”, disse Yvan Sagnet, de Camarões, para a multidão, que o aplaudia, respondendo “Temos de lutar. Temos de permanecer unidos”.

Sagnet, que foi condecorado em 2016 pelo presidente italiano Sergio Mattarela por seu trabalho com imigrantes, interpreta Jesus. Outros defensores dos direitos dos migrantes – também negros africanos que vivem na Itália – foram escolhidos para interpretar os apóstolos, junto com um italiano que atua num grupo de defesa dos direitos dos pequenos agricultores. Finalmente um caminhão entrou na praça e despejou milhares de tomates maduros na calçada. Jesus e seus apóstolos começaram a pisar neles com prazer, gritando: “Vamos destruir o que nos destrói”.

O Novo Evangelho é um trabalho original e é parte dos eventos que vêm ocorrendo marcando a escolha de Matera como capital da cultura europeia, uma iniciativa em que cidades hospedam programas realçando a diversidade cultural europeia.

Matera é conhecida por seu singular Sassi, uma colmeia de grutas ocupadas desde a era paleolítica que a tornou um substituto fotogênico da Terra Santa. O local tombado pela Unesco foi atingido por fortes tempestades esta semana que causou inundações na parte antiga da cidade.

O poeta, intelectual e cineasta Pier Paolo Pasolini filmou ali seu filme O Evangelho segundo São Mateus, em 1964, e Mel Gibson o acompanhou com o seu filme A Paixão de Cristo 40 anos depois. (Em setembro no local também foram filmadas cenas do mais recente filme de James Bond).

Rau disse que sua ideia inicial era reunir atores que trabalharam com Pasolini e Gibson e “fazer um novo filme de Jesus”. Mas quando chegou a Matera e viu a vida difícil dos milhares de imigrantes trabalhando nas plantações de tomates nos campos da Basilicata e da Puglia (ou Apúlia) vivendo em terríveis condições, o projeto mudou.

Rau e sua equipe filmaram durante horas em uma favela perto de Matera e outras mais além. Rodaram cenas roteirizadas para o filme de Jesus e realizaram eventos públicos como parte de uma campanha política emancipatória chamada A Revolta da Dignidade que foi concebida por Rau para apoiar os direitos dos imigrantes explorados por um sistema que os trata como escravos.

Sagnet disse que a campanha teve por fim criar uma rede de base de luta pelos direitos dos imigrantes na Itália e mais além. “O filme é o começo, não o fim. O começo de um processo de participação das pessoas em dificuldade”. No celebrado Teatro Argentina, em Roma e um mês depois, numa igreja a céu aberto no centro de Palermo, na Sicília, cenas roteirizadas do filme foram acompanhadas de debates públicos espontâneos. Em Roma o vice-prefeito foi vaiado ao afirmar que não apoiaria os direitos dos ocupantes de casas, ao passo que o prefeito de Palermo foi ovacionado por conceder permissões de residência a imigrantes.

Nas duas cidades, Sagnet submeteu à votação um manifesto de campanha elaborado pelos apóstolos, como também por Rau e sua dramaturga, Eva-Marie Bertschy, exigindo direitos de liberdade de ir e vir, habitação adequada e condições humanas de trabalho. Em ambas as cidades o manifesto foi adotado pelo público de modo avassalador. “Para nós, Jesus foi um profeta e um ativista lutando por justiça”, disse Sagnet. “Ele foi um líder sindical, e combateu. Jesus foi tudo isto”. Jornais de direita que acompanharam a odisseia escreveram que escalar um negro para o papel de Cristo “era uma ofensa contra a Cristandade”.

Rau disse que um Jesus negro inevitavelmente traz à mente a escravidão e a violência racista. “É uma metáfora do racismo e da violência contra os negros”. O grande mérito do filme de Rau foi pôr foco numa ignomínia que deve pesar na consciência de todo italiano, que é a existência de guetos para imigrantes que são explorados pelo setor agrícola no sul da Itália”, disse Lorenzo Marsili, fundador do Transeuropa Festival, que acolheu Rau em Palermo. Dar poderes aos oprimidos – “é isto que entendemos que a boa arte, num momento de crise como o que as democracias ocidentais estão vivendo hoje, deve estar fazendo”, disse ele.

Em Palermo, no último fim de semana, um barco de pescador transportando Sagnet e meia dúzia de apóstolos se dirigiu para uma praia de areia ao anoitecer. Na praia outros apóstolos os aguardavam, junto com o líder do Mediterranea Saving Humans, grupo humanitário cujos barcos resgatam imigrantes em barcos naufragados.

Eles se abraçaram quando desembarcaram.

“Ter Jesus sendo recebido por um membro de uma equipe de resgate nos pareceu algo muito poderoso”, disse Luca Casarini, líder do Mediterranea. Há anos, dezenas de milhares de imigrantes cruzam o mar vindos da África em busca de uma vida melhor. Muitos não conseguem; outros tiveram a sorte de ser salvos pelos navios de resgate. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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