Chantal Anderson/The New York Times
Chantal Anderson/The New York Times

Filme 'Last Whispers' tenta preservar idiomas em risco de extinção

Lena Herzog classifica sua obra como “um oratório para vozes que estão sumindo, universos em colapso”

Zachary Woolfe, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2019 | 16h00

Montclair, Nova Jersey - A terra gira na tela, em meio a um som estranho e desconfortável, como uma crescente corrente de ar. É uma visão galáctica sinistra que rapidamente se condensa em uma íntima: um ponto de luz bruxuleante no meio da escuridão; a voz de uma mulher cantando, pode-se ouvir sua frágil respiração; uma guitarra elétrica tocando com doçura simplória e melancólica.

Suas palavras não são familiares, um pouco guturais, as consoantes duras. Uma legenda nos diz que a mulher está cantando em Ingriano, uma língua Fino-úgrica quase extinta falada agora por apenas um punhado de pessoas no oeste da Rússia.

É uma das mais de três dúzias de línguas ameaçadas de extinção ouvidas em Last Whispers, uma experiência de filme e som surround que será exibida de 16 a 20 de outubro no Peak Performances da Montclair State University. Sua criadora, a artista Lena Herzog, o chama de “um oratório para vozes que estão sumindo, universos em colapso e uma árvore caindo” - classificação tão boa quanto qualquer outra para um trabalho não classificável.

A peça de 45 minutos confronta uma realidade surpreendente: de acordo com a Unesco, quase metade dos aproximadamente 6.000 idiomas do mundo está em perigo. Mas Herzog aborda esse assunto sombrio de uma maneira decididamente poética, quase abstrata, transmitindo a aura de tudo o que está sendo perdido em vez de discutir o tema.

Então soa um canto reverberante em Bathari, uma língua falada por talvez algumas dezenas de pessoas em Omã, ao lado de imagens enigmáticas de formações rochosas. Uma figura embaçada caminha ao longe, eventualmente coberta por páginas e páginas de manuscrito que rolam da tela, enquanto ouvimos a evocativa língua Ahom da Índia. Uma criança fala Light Warlpiri, que tem algumas centenas de falantes nativos no norte da Austrália.

O fato de não vermos as pessoas que falam e não sabermos o que está sendo dito é o ponto principal dessa austera e comovente Babel. O cenário musical às vezes é gentil, às vezes agressivo, mas sempre mantém nossa atenção no coro rico de palavras, incompreensível e muitas vezes sobreposto. A câmera lentamente aproxima-se de florestas fantasmagóricas, massas de água e, através do espaço, nosso planeta - imagens que sugerem que a crise da linguagem interage e é em parte causada por ameaças ainda mais graves à sustentabilidade da Terra.

Herzog data as origens de Last Whispers em mais de 15 anos e seu interesse por idiomas ainda mais - quando ela, quando jovem na Rússia, lutava para aprender inglês a fim de entender uma história de Sherlock Holmes que se transformou no decifrar de um código apresentado como figuras de palitos dançantes.

“Quanto mais você aprende sobre idiomas”, ela disse, “mais você fica sabendo que todos eles estão desaparecendo. O que me confundiu foi o quão pouco sabemos sobre essa extinção. E estamos perdendo idiomas em um ritmo mais rápido.”

Fotógrafa, ela anos atrás viu-se imersa no hábito de ouvir gravações em arquivos de idiomas enquanto imprimia em sua câmara escura. A princípio, ela imaginou criar uma galeria cheia de retratos dos últimos falantes dessas línguas, com gravações emanando por trás das impressões.

“Mas nos separaríamos deles porque eles estariam em retrato, e eles são o outro”, disse ela. "Eu queria que nós nos sentíssemos enredados neles: eles são nós”.

O aspecto visual mais literal dos retratos começou a desaparecer, mas a noção de som imersivo permaneceu. (A artista e antropóloga Susan Hiller também fez um trabalho sobre o desaparecimento de línguas que se concentra no som.) Examinando intermináveis arquivos de áudio de idiomas ameaçados de extinção, Herzog iniciou um processo de seleção amplamente intuitivo.

“Eu marcaria aqueles aos quais respondi”, disse ela. “Eu não conseguiria articular isso em palavras. Eu só sabia como queria que fosse. Queria que fosse assustador, para poder entrar no seu cerebelo. Eu passava horas ouvindo essas vozes conversando, cantando, sussurrando, confessando”.

Como não possuía formação em música ou engenharia de som, Herzog procurou um compositor-designer que poderia ajudá-la a organizar esse vasto arquivo de vozes. Eventualmente, ela optou por um par: Marco Capalbo, compositor e diretor, e Mark Mangini, um designer de som vencedor do Oscar (Mad Max: Estrada da Fúria), que contribuíram cada um com seções da peça final.

Seus estilos acabaram sendo complementares: Mangini trata as vozes com um toque lírico e romântico - uma “versão de Rachmaninoff do século XXI”, como Herzog descreveu - enquanto a paisagem de Capalbo é mais dura e agressiva, ligada ao som, traduzida em frequências audíveis de estrelas em colapso.

Algumas ideias iniciais eram um pouco estranhas: a certa altura, Herzog pretendia bombear a mistura de sons através do sistema radicular das árvores, para um efeito que seria audível ao ouvir atentamente os troncos. (“Nenhum parque nos deixaria fazer isso”, Mangini disse secamente.) Depois havia a noção de montar alto-falantes no alto de um bosque.

No final, os colaboradores adotaram uma experiência teatral mais tradicional: um elemento de filme e acompanhamento de som surround. Ou, dependendo de como você olha, um oratório com som surround - uma espécie de escultura sônica - com um filme que a acompanha.

“Não é um documentário, no sentido clássico”, disse Jedediah Wheeler, diretor da Peak Performances. “Não está explicando o problema. Está vindo de um lugar profundo em Lena. “

As exibições em Montclair serão combinadas com painéis de discussão, com acadêmicos e ativistas, sobre os esforços de revitalização de idiomas na área de Nova York e no mundo. (Herzog também criou lastwhispers.org, que tem mais informações sobre o assunto.) Juntos, Last Whispers e os programas que acompanham apresentarão dois lados - o artístico e a ação direta, o sugestivo e o concreto - de uma organização tragédia global.

“A forma que essa extinção assume é o silêncio”, disse Herzog. “Por definição, essa extinção ocorre em silêncio. Então, como mostrar isso? Você mostra isso dando som ao que se foi em silêncio”.

Tradução de Claudia Bozzo

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