Mostra Internacional de Cinema de São Paulo
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Filme 'Parasita' critica a desigualdade social na Coreia do Sul

Vencedor da Palma de Ouro em Cannes, longa do diretor Jong Boon Ho está na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

Brian X. Chen, The New York Times

26 de outubro de 2019 | 16h00

O título do novo e contundente filme da Coreia do Sul, Parasita, refere-se à família Kim, moradora de um porão que tenta ascender socialmente sugando a rica família Park. Enquanto os Kims se preocupam com dinheiro suado, os extravagantes Parks se preocupam com o cheiro desagradável dos pobres.

Os estilos de vida das duas famílias não poderiam ser mais diferentes. A minúscula janela da sala de jantar dos Kims dá para uma rua que os bêbados fazem de mictório. As amplas janelas dos Parks se abrem para um gramado impecável cercado por arbustos manicurados. Os Kims comem pizza barata. Os Parks comem bifes de gado selecionado.

Parasita é o mais recente filme da Coreia do Sul a explorar o contraste entre ricos e pobres. Vai na trilha do sucesso de Extreme Job, deste ano, do recente Em Chamas e de Expresso do Amanhã, de 2013.

Não por coincidência, a desigualdade de renda é um tema recorrente no cinema do país. Segundo especialistas, os filmes, geralmente grandes hits domésticos, capturam a essência da frustração dos sul-coreanos numa época em que o abismo de renda do país continua a se alargar.

Embora tal desigualdade aflija também países como Estados Unidos e muitos outros, a distribuição da renda na Coreia do Sul é particularmente assimétrica. Em 2015, os 10% mais ricos da população detinham 66% da riqueza nacional, enquanto a metade mais pobre ficava com apenas 2% (segundo dados citados por Kyung Hyun Kim, professor de estudos sobre Ásia na Universidade da Califórnia em Irvine e autor de vários livros sobre o cinema coreano). Para agravar o quadro, grande parte da riqueza da elite é herdada.

A desigualdade, somada a escândalos de corrupção dos privilegiados, criou tanto amargor e frustração entre os sul-coreanos que novas expressões de gíria surgiram nos últimos anos, como “colher-de-ouro” e “colher-suja”.

“Há pessoas que nascem como colher-de-ouro e outras como colher-suja”, disse o professor. “As últimas vivem numa eterna luta pela sobrevivência.”

A falta de perspectiva social dos colher-suja está no cerne de Parasita, dirigido por Bong Joon Ho. Os Kims são inteligentes e talentosos a sua maneira, mas são tão pobres que se agacham no chão do banheiro para piratear o acesso ao Wi-Fi de um vizinho. Obviamente, não estão no caminho do sucesso.

Embora os americanos mais pobres passem por dificuldades semelhantes, na Coreia do Sul as possibilidades de emprego estão ligadas a influências familiares. Segundo o professor Kim, os empregadores costumam perguntar quem são os pais dos candidatos, dando preferência aos mais privilegiados. Nas escolas particulares, o nepotismo reserva as melhores vagas de professor para parentes dos donos. 

 

Então, por que não falsificar as coisas em benefício próprio? Em Parasita, o filho de Kim, Ki-woo, fluente em inglês, usa referências a um amigo privilegiado e diploma falso de faculdade para enganar os Parks e dar aulas de inglês a uma sua filha adolescente. A irmã de Ki-woo, Ki-jung, passa-se por arte-terapeuta para trabalhar com um filho problemático dos Parks. Mamãe e papai Kim logo se juntam à trama como motorista e empregada doméstica dos Parks, que são tão crédulos quanto neuróticos por limpeza.

Em Chamas, filme do ano passado do diretor Lee Chang-dong, também mostra a divisão social por meio de uma história sombria, no caso, um estranho triângulo amoroso. Jongsu, filho de um fazendeiro que sonha em se tornar escritor, e Ben, um homem inexplicavelmente rico que tem um Porsche, gostam de Haemi. Embora Jongsu tenha um caso com a jovem, fica claro que esse colher-suja não é páreo para Ben, que acena para Haemi com o ingresso no clube dos colher-de-ouro.  

Em Expresso do Amanhã, outro filme de Bong, o fosso entre os que têm e os que não têm não poderia ser mais aparente. Esse thriller pós-apocalíptico põe os únicos sobreviventes da Terra em um trem em perpétuo movimento, com os ricos ocupando os luxuosos vagões da frente , onde podem comer sushi, e os pobres nos vagões traseiros, alimentados com blocos gelatinosos de proteína de barata. O único meio de os colher-suja melhorarem de situação é abrir caminho para os vagões da frente, lutando e matando (spoiler: ninguém vence).

Alguns filmes sul-coreanos dão à desigualdade um tratamento leve de paródia. Extreme Job, do diretor Lee Byeong-heon, é centrado numa equipe de policiais que abrem um restaurante de frango frito como cobertura para uma operação contra traficantes de drogas. Mas o restaurante faz tanto sucesso que rapidamente os policiais passam a se dedicar em, tempo integral a essa atividade mais lucrativa.  

A frustração dos sul-coreanos com a injustiça social se alastrou no ano de 2016 em grande parte por causa da corrupção. Naquele ano a presidente do país, Park Geun-hye, sofreu impeachment sob acusações de suborno, extorsão e abuso do poder. O ponto central da queda de Park foi a revelação de sua proximidade com Choi Yoo-ra, condenada por se unir a funcionários e professores universitários para conseguir que a filha, Chung Yoo-ra, tivesse notas altas apesar de raramente comparecer a palestras ou concluir cursos extracurriculares.  

Para muitos sul-coreanos, os escândalos sintetizavam o comportamento desonesto e as vantagens injustas dos ricos e poderosos.

Expresso do Amanhã, Em Chamas e Parasita terminam todos com toques de um cinismo quase desenfreado, lançando dúvidas de que um dia as coisas possam melhorar para os que estão em desvantagem. Podem também ser vistos como uma  reflexão sobre a diminuição da fé na economia da Coreia do Sul.  

Em seu discurso de posse, o sucessor de Park, Moon Jae-in, prometeu diminuir o crescente gap social criando oportunidades para a classe trabalhadora. Como parte desse esforço, ele aumentou impostos  para os ricos e elevou o salário mínimo. Mas estratégia não está funcionando: o fosso continua a se alargar, o crescimento econômico desacelerou e o desemprego está em alta. A popularidade de Moon despencou de 84% em 2017 para 40% em setembro passado, segundo pesquisa Gallup.

“A população está perdendo as esperanças”, disse Kim, o professor de estudos sobre Ásia. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

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