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Filósofo busca as origens intelectuais do nazismo em livro

'O Espelho do Ocidente', de Jean-Louis Vullierme, defende que o regime foi uma grande dissonância cognitiva

Elias Thomé Saliba*, Especial para o Estado

13 de abril de 2019 | 16h00

As publicações sobre o nazismo formariam uma biblioteca tão vasta que uma vida inteira não daria conta. História, Biografia, Política, Sociologia, Psicologia – cada uma partindo de seus próprios terrenos - dissecaram aquele que foi o maior desastre do século passado, mas acabaram transformando seus recortes particulares na explicação principal, deixando o quebra-cabeças incompleto. Munindo-se das ferramentas mais variadas, e juntando as peças do Direito, da História, da Política, da Psicologia e até, da Ciencia Cognitiva, Jean-Louis Vullierme (em O Espelho do Ocidente) se arrisca a resolver o enigma. E faz com versatilidade, perspicácia e rara coragem.

Mobilizando por trás do evento mais traumático do século 20 todas as características mais salientes da cultura ocidental, Vullierme começa por passar em revista o próprio pensamento nazista, a partir de amplas amostras não apenas do Mein Kampf, mas do chamado “Segundo Livro” de Hitler (encontrado em 1961) e de todos os seus discursos. Deixando de lado o costumeiro asco que sentimos, tem a paciencia de analisar em minúcias os discursos de Hitler & cia., pois ouvi-los permite identificar as forças profundas que estão no coração da civilização ocidental. O projeto nazista não partiu do nada e nem chegou a seu termo ampliando-se na medida dos seus êxitos, mas nasceu reunindo elementos que estavam presentes antes dele e aos quais conferiu apenas um implacável vigor de execução. 

Supremacismo racial, eugenismo, nacionalismo, antissemitismo, militarismo, positivismo jurídico, colonialismo, terrorismo de Estado – entre tantos outros, compõem as partes do quebra-cabeças nazista, aos quais Vullierme ainda acrescenta dois outros neologismos: “acivilismo” - a ausência de qualquer proteção especial às populações civis nas operações militares ou policiais; e o “anempatismo”, a atitude de completa apatia em relação ao sofrimento do outro. Com documentação impressionante, examina cada um destes átomos ideológicos ocidentais, todos já disponíveis quando do surgimento da molécula tóxica que foi o nazismo. 

A comparação que Vullierme articula entre a “conquista do oeste” pelos norte-americanos e o projeto expansionista dos nazistas em direção ao Leste Europeu já foi amplamente documentada e é dificilmente refutável. Foi dos Estados Unidos que veio a formulação “científica” do supremacismo racial, calcado na eugenia e destinado a desempenhar papel central na doutrina nazista. Nada a estranhar ainda que, na parede ao lado da mesa de trabalho do escritório particular de Hitler houvesse um grande retrato de Henry Ford e que, na sala de espera, houvesse sempre um exemplar dos livros histericamente antissemitas do mesmo empresário. O nazismo ainda obteve apoios proativos de empresas como Ford, General Motors, Standard Oil, Kodak e até da Coca-Cola – esta última, mais pela indiferença, já que quando faltou o xarope secreto da bebida na filial alemã, criou a Fanta, feita com sobras de bagaços de frutas e água gaseificada. Sem falar da IBM, que forneceu e fez a manutenção de suas máquinas de processamento de cartões perfurados que serviam para a gestão dos campos de concentração. 

Para não recair nas armadilhas comuns, o autor evita até mesmo o vocabulário mais usual. Em vez de “Holocausto”, “Tragédia” ou até, “Genocídio”, o autor se fixa somente em “extermínio”, já que o vocábulo designa genericamente não apenas o extermínio dos judeus, ciganos e outros grupos, mas abrange todas as experiências históricas da brutalidade ocidental. Para tanto, o autor é forçado a criar outro neologismo estranhamente indispensável para designar a instilação de um sentimento de distância absoluta em relação ao outro: o “anempatismo” – que se intensificou no Ocidente a partir da experiência colonial, disseminando uma percepção desumanizada das populações estrangeiras. As guerras religiosas estenderam isto às oposições ideológicas. A 1ª Guerra Mundial o generalizou a todos os combatentes. O bolchevismo lhe conferiu uma perversa dimensão industrial de matança coletiva. Nos primeiros anos do nazismo, o extermínio de grupos sociais ou de povos inteiros acabou por se transformar em lugar comum nas conversas políticas. O discurso de Himmler é um curso ex cathedra de “anempatia”: o dever de amontoar cadáveres para eliminar um povo que tenta nos ameaçar. Mas esse dever é repugnante. A maioria das pessoas mantém com ele uma relação verbal e sua aprovação ideológica é da boca para fora, porque não resistiria ao contato das realidades corporais: é fácil querer exterminar todos os judeus, porém é difícil não querer salvar aquele que se conhece pessoalmente. Os alemães antissemitas não possuíam a menor ideia da realidade física de um extermínio. Himmler selecionou para os grupos de exterminio apenas gente com formação universitária, dispensando qualquer indivíduo que sofresse de desequilíbrio psíquico aparente, de sadismo ou alcoolismo. 

Na análise de Vullierme, o nazismo aparece mais como um trágica dissonância cognitiva e não uma loucura pura e simples. Hitler pretendia rivalizar com as duas formas preexistentes de historicismo ocidental ao se apropriar de suas armas. Preservou do bolchevismo a vontade socialista revolucionária, assim como forma autoritária do Partido Único. E tomou de empréstimo ao liberalismo o investimento privado e o princípio de hierarquia. Adotou o militarismo, comum a todos os dois e apenas acrescentou, no pedestal das prioridades, a luta racial. Paradoxo, os nazistas jactavam-se da pureza de origens mas acabaram produzindo um coquetel de iniquidades. É certo que a tese do nazismo como uma metástase cognitiva de efeitos mortíferos - e já diagnosticada na cultura ocidental - pode atrair acusações como da “diluição das responsabilidades”, sobretudo alemãs ou de “banalização do mal”. Mas Vullierme escreve um belo capítulo mostrando que estender as responsabilidades de um crime e ampliar seu objeto não equivalem a reduzir sua responsabilidade mas, pelo contrário, é a única forma de buscar um caminho para combater suas sequelas.

Inspirando-se em Espinoza, Vullierme aponta o antagonismo como elemento que solda todas as peças do quebra-cabeças nazista, porque seus elementos ideológicos se constituem não em vista de uma finalidade própria ou em contraste natural com idéias correntes, mas sempre em oposição a grupos humanos que representam qualaquer alteridade. Revelando que esta forte estrutura antagônica sobrevive ainda hoje, pois ela nasce de uma desordem cognitiva que se instaura em situações históricas específicas, Vullierme aposta, ao final, numa via humanista como terapia. Mas parece adivinhar que suas chances de sucesso são ignoradas, levando-se em conta as trevas ideológicas nas quais continuamos a viver. Ela requer que sejam solapados, um a um, os componentes do antagonismo, eximindo-nos de combater grupos com designações abstratas. Quase sempre fracassa, pois não se trata apenas de abrir mão de misturar nossos adversários em amontoados confusos que não permitam distingui-los individualmente, em função de seus atos pessoais; trata-se também de não nos identificarmos a partir de agrupamentos cuja existência, às vezes bem real em seus efeitos, é, todavia, imaginária do início ao fim, como, por exemplo, os povos, as nações ou as etnias. Só pode ser aquele humanismo dos pequenos homens, que querem apenas viver sem impedir ninguém de viver e gostariam apenas de serem apenas dignos, sem destruir nem matar. 

“As ideias gerais e a grande presunção estão sempre provocando terríveis desgraças.” Inspirando-se neste adágio de Goethe, Vullierme apresenta um esboço de decálogo humanista que, neste mundo de valores éticos corroídos e antagonismos histéricos das redes sociais, valeria a pena considerar. O livro não milita pela eliminação do nazismo, que de fato morreu em 1945, mas pela identificação presente e a erradicação futura de um mal do qual somos, na melhor das hipóteses, “portadores sãos”. E o faz com equilíbrio, modéstia e rara retidão moral. E nos surpreende mais ainda porque destituído de qualquer olhar de superioridade ou de ironia. Porque, afinal, como todos sabemos, enquanto a ironia é quase sempre um ato antagônico sobre o outro, a moral, como o humor, é um ato sobre si mesmo.

*ELIAS THOMÉ SALIBA É HISTORIADOR, PROFESSOR TITULAR DA USP E AUTOR, ENTRE OUTROS LIVROS, DE ‘AS UTOPIAS ROMÂNTICAS’

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