Jon Nazca/Reuters
Jon Nazca/Reuters

Filósofo busca na vida marinha a chave para a consciência humana

'Outras Mentes', de Peter Godfrey-Smith, investiga o surgimento da consciência em animais como polvos

Rodrigo Petronio*, Especial para o Estado

06 de abril de 2019 | 16h00

A  consciência tem sido um dos conceitos mais debatidos e controversos do pensamento contemporâneo. Debatido por causa de sua centralidade. Da replicação de organismos artificiais, da elaboração de Inteligência Artificial (IA) e da criação de sistemas complexos autônomos à descrição mais abrangente de praticamente todas as atividades dos seres vivos, humanos e não-humanos, nada escapa aos imperativos da consciência. Compreender sua natureza e sua dinâmica seria decisivo para um desenvolvimento da compreensão dos seres vivos em todos os seus âmbitos. 

O conceito contudo não deixa de ser controverso: quanto mais os filósofos e cientistas estudam a consciência, menos conseguem definir o que ela venha a ser. E, para piorar a situação, quase tudo que designamos como consciência poderia muito bem ser traduzido em termos quantitativos e não qualitativos. Ou seja: a consciência seria apenas uma outra palavra para designar uma inteligência superdesenvolvida. 

O filósofo Peter Godfrey-Smith, professor de história e filosofia da ciência na Universidade de Sidney e professor emérito de filosofia na City University de Nova York, acaba de oferecer mais algumas alternativas a esse quebra-cabeças. A obra Outras Mentes: o Polvo e a Origem da Consciência, que a editora Todavia acaba de pulicar no Brasil, nasceu clássica. 

Trata-se de uma das contribuições mais engenhosas e brilhantes a esse debate. A obra é tão repleta de informações e intuições contraintuitivas e originais que chega a ser difícil resumi-la. Ademais, além de acadêmico, Godfrey-Smith é também mergulhador. Há décadas vive em um diálogo amoroso com lulas, polvos, chocos e outros seres das profundezas das costas da Austrália. Aprendeu a compreender os cefalópodes tanto na teoria quanto no face a face. 

O universo tem 13.7 bilhões de anos. A Terra tem cerca de 4.5 bilhões de anos. A vida na Terra começou há 3.8 bilhões de anos. Os primeiros animais datam de 1 bilhão de anos. Nessas eras geológicas, o Ediacarano recobre um período que vai de 635 a 542 milhões de anos. O Cambriano começa por volta de 600 milhões de anos. Essa teia elementar da vida aquática conduz aos vertebrados, aos mamíferos e, finalmente, aos humanos. Isso quer dizer que a vida começou no mar. E a origem da mente são os oceanos. 

A teoria da evolução de Darwin pode ser pensada de diversas maneiras, menos como teleologia (linha reta). Os seres vivos se dividem em espécies por meio de leis como a adaptação, a seleção, a especiação, a mutação, e mediante as ações do acaso e da necessidade. Alguns filósofos se valem da metáfora do rizoma para descrever este processo: a proliferação de raízes dos tubérculos. Contudo a imagem da árvore continua sendo eficiente. 

Como resposta à pressão adaptativa do meio, os grupos dos seres vivos que sobrevivem à seleção natural se diversificam e tornam mais complexos. Ao longo de milhões e mesmo bilhões de anos, essa complexidade gera novos ramos. Estas novas espécies-ramos que se originam de um mesmo galho-gênero coexistem, seguem paralelamente e se transformam em outros galhos-gêneros. Estes, por sua vez, originarão novas espécies-ramos. 

O ancestral comum a aves e a mamíferos seria parecido com um lagarto e viveu há cerca de 320 milhões de anos. Se recuarmos mais, o ancestral comum a aves, a mamíferos e ao polvo seria uma criatura achatada que viveu no começo do Cambriano. Isso quer dizer que a separação entre o que virtualmente viriam a ser os humanos e os polvos nessa árvore da vida ocorreu há cerca de 600 milhões de anos. Em um oceano turvo de algas, esponjas e cnidários. Este é o cenário evolucionário privilegiado por Godfrey-Smith: a passagem do Ediacarano ao Cambriano. 

A chamada Revolução do Cambriano é importante devido às diversas alterações na morfologia e no comportamento multicelulares. E à explosão das primeiras formas animais. Os organismos saem do isolamento e estabelecem relações entre si, criam sentidos externos e aberturas à percepção do exterior. Desenvolvem a visão. Surgem os primeiros órgãos e sistemas preênseis (captura). Desta era também são as primeiras evidências de bilateralidade, evento central para os futuros vertebrados, incluindo os humanos. 

Podemos nos perguntar: qual a vantagem do estudo dos polvos? Dentre todos os seres vivos atuais, os cefalópodes seriam aqueles com sistema nervoso central de origem mais remota. E que pertencem a linhas evolutivas mais distintas dos vertebrados e dos humanos. Por isso, seriam também os seres que mais se aproximam do que poderíamos definir como uma inteligência alienígena. Compreendê-los é compreendermos tudo que poderíamos ter sido não fomos, pelos caminhos da evolução. E tudo o que somos e desconhecemos.

Para acessar as mentes desses seres e ampliar o conceito de consciência, Godfrey-Smith parte de uma tese de William James (1842-1910): a consciência precisa ser concebida como um continuum do universo. A perspectiva é biológica e evolucionária e também cosmológica. Não há intervalos ou saltos na natureza. Tudo que existe no universo atual deveio de formas primitivas que traziam em si os germes dessa transformação. Por isso, não pode haver distinção radical entre a mente humana e a de outros seres. 

Essa postura gradualista noz conduz a uma visão não-essencialista e não-mecanicista da consciência, centralizada no cérebro. O objetivo da obra é duplo. Pretende analisar a condição especial que o polvo estabelece com a evolução da mente como um todo, abordando o problema em abrangência (diferentes tipos de animais) e profundidade (éons e sucessivas eras da vida). 

Haveria um horizonte mais vasto do que a consciência: a experiência subjetiva. Todos os agentes sencientes teriam algum grau de experiência subjetiva. Esta não decorre da intencionalidade e da reflexividade. Não demanda que os animais saibam aquilo que são, como imaginamos em nosso sono antropocêntrico. E como se o humano soubesse exatamente aquilo que é. A experiência subjetiva decorre de replicações de comandos entre o sentir e o agir. 

Todos os seres vivos agem. E, em diferentes graus, todos os seres vivos sentem. As ações de um organismo em relação ao meio e aos outros organismos precisa ser copiada para que as ações futuras desse organismo obtenham êxito. E para que ele sua espécie sobrevivam. Isso se chama sinalização. Mas e quando os organismos conseguem não apenas copiar, mas incorporar esses sinais trocados com o meio? Temos o mecanismo de internalização. 

Os seres vivos passaram por dois grandes momentos de internalização dessas relações sinais-meios. O primeiro foi a transição dos organismos unicelulares para multicelulares. As percepções e sinalizações entre organismos diferentes adquirirem aqui um novo estatuto. Passam a construir sinalizações e percepções dentro de um mesmo organismo. Esse percurso evolucionário se torna mais complexo com o desenvolvimento dos sistemas nervosos, onde essas sinalizações internas aumentam suas interconexões. O segundo é a internalização da linguagem: os limites dos organismos não se expandem, mas estabelecem-se novos trajetos dentro deles.

Como ocorre a internalização? Por meio de cópias eferentes, exaferentes e reaferentes. A primeira é o meio pelo qual os organismos memorizam o que as ações, suas e alheias, produzem em seus sentires. A alteração de padrões dos sentires pode reorientar as ações e vice-versa. A segunda consiste nas percepções das distinções entre ações alheias e próprias, e em como elas implicam na sobrevivência, do indivíduo e da espécie. A terceira se baseia em como esses registros podem reorientar os mecanismos das ações futuras. São sinais emitidos pelo sujeito para que possa se preservar a si mesmo no futuro. Signos do eu presente endereçados ao eu futuro e que visam à sobrevivência. 

Quais os graus de distinção entre a senciência (sensibilidade à dor) e a consciência? Quais os diversos modos e regimes de senciência? Quais as diversas modulações das consciências dentro de uma mesma espécie? E as variações entre as espécie? À medida que produzem internalização todos os agentes são conscientes? Se entendermos que a alma também é movimento (anima), todos os agentes são mentes, como querem os defensores do pampsiquismo? Todas as mentes seriam consciências? Complexidade pressupõe pensamento? Pensamento pressupõe linguagem? Linguagem pressupõe discurso? Mas que tipo de linguagem? E o que é um discurso? Essa são questões analisadas ou latentes neste magistral trabalho de Godfrey-Smith. 

O ensinamento final é simples: paciência e humildade. Afinal, as consciências emergiram desse Éden primordial aquoso e anônimo ao longo de um percurso evolucionário de 1 bilhão de anos de eferências, sinalizações, internalizações. A linguagem humana tem provavelmente apenas 500 mil anos. É um evento prematuro demais para ser avaliado de modo definitivo levando em conta todas as perspectivas, humanas e não-humanas, dessa odisseia da vida. 

*Rodrigo Petronio é escritor e filósofo. Professor titular da FAAP, desenvolve pós-doutorado no Centro de Tecnologias da Inteligência e Design Digital (TIDD|PUC-SP). 

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