Estação Liberdade
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Filósofo Charles Pépin mostra como o fracasso pode ser benéfico

'As Virtudes do Fracasso' chega ao Brasil pela editora Estação Liberdade

Rodrigo Petronio*, O Estado de S.Paulo

28 Abril 2018 | 16h00

A difusão da filosofia para o grande público se encontra em um de seus melhores momentos. O sucesso de séries como a catalã Merlí (Netflix), protagonizada pelo heterodoxo professor dessa disciplina, revela esse interesse renovado. Multiplicam-se os programas de televisão e de rádio, bem como grupos de estudos dedicados à filosofia. Alguns livros de divulgação das principais ideias, obras e autores têm se destacado nas listas dos mais vendidos. A despeito disso espelhar ou não uma maior consistência da filosofia contemporânea, o amplo interesse precisa ser compreendido e destacado como fenômeno cultural de relevância. 

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Nessa chave podemos compreender o trabalho do filósofo, escritor e professor francês Charles Pépin. Além de professor do Liceu d’Etat de la Légion d’Honneur de Saint Denis (Paris), Pépin enche todas as semanas o auditório do cinema MK2 Odéon com seu programa Filosofia às Segundas. Já foi colaborador dos programas de televisão Culture et Dépendances (France 3) e En Aparté (Canal +). Atualmente assina colunas mensais nas revistas Philosophie e Psychologies

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Uma boa porta de entrada para seu trabalho é uma de suas obras mais famosas: As Virtudes do Fracasso. Desde a publicação em 2016, vendeu 65 mil exemplares na França e foi publicada em 14 países. A obra acaba de sair do prelo no Brasil pela Estação Liberdade em excelente tradução de Luciano Vieira Machado. E pode dar um novo fôlego ao papel da filosofia no debate público e na formação de novos leitores, justo em um momento em que disciplinas como filosofia e sociologia correm o risco de sair dos currículos escolares. 

Pépin defende o valor positivo que o fracasso pode exercer em todos os âmbitos da existência. Para tanto descreve como esse tema foi tratado por diversas tradições, métodos e linhas de pensamento: a epistemologia, a dialética, o cristianismo, o estoicismo, as filosofias da existência e a psicanálise. Paralelamente, apresenta o papel central que o fracasso ocupou na vida de alguns dos nomes mais importantes da política e da arte, das ciências e dos esportes, da espiritualidade d a filosofia propriamente dita. Analisa também a especificidade do fracasso na cultura francesa, em contraposição à norte-americana. E apresenta estudos de caso nas escolas, nas empresas, no meio intelectual e nas atividades profissionais em geral. 

Uma das virtudes da obra de Pépin é sua capacidade de sintetizar como a filosofia conceitualizou o fracasso ao longo do tempo. E como ainda é preciso refletir sobre esse conceito para compreender melhor a vida presente. Para tanto, é oportuna a dupla articulação do livro, dividido em uma lógica do devir e uma lógica do ser. A primeira, representada pelo existencialismo. A segunda, pela psicanálise. A primeira prioriza a existência em detrimento das essências e das substâncias. Isso permite falar em fracasso, mas nunca em sujeitos fracassados. Ao evitar o estigma, abre-se a potência mesma da ação do fracasso. Ou seja: a sua virtude transformadora. 

Por outro lado, a análise psicanalítica possibilita outra manobra. Muito daquilo que julgamos como fracassos em nossas vidas pode ser compreendido como atos falhos. Seriam sintomas que sinalizam uma necessidade inconsciente de renunciar a certos caminhos e realizar determinadas escolhas. Ou seja, esses pseudofracassos sinalizariam para um desejo verdadeiro. Trariam à tona uma verdadeira vocação, que não estaria sendo realizada. Esses sinais e sintomas precisam ser ressignificados. Desse modo, o sujeito converte os fracassos em uma reorientação do desejo e, por conseguinte, em novas potências de ser. Não por acaso, essa abordagem filosófica e psicanalítica é um dos pontos altos da obra. 

Pépin peca por mesclar métodos (dialética), áreas do conhecimento (epistemologia) e vertentes da filosofia (estoicismo). Isso produz alguns ziguezagues de leitura que poderiam ser contornados com uma simples distribuição dos capítulos em subseções mais claras do ponto de vista da abordagem, dos temas e das divisões dos saberes. Os exemplos entre cientistas, esportistas, empresários e artistas produz também uma oscilação semelhante. Passagens abruptas do fracasso de cientistas ao fracasso de atletas ignoram as condições de possibilidade peculiares de cada um desses domínios. Algo que também poderia ser corrigido por uma distinção preliminar dos campos das atividades humanas e suas especificidades. Entretanto, essas misturas são compensadas por uma linha argumentativa coesa. Concentrada na demonstração dos valores do fracasso, ou seja, a tese que costura a obra nunca se rompe ou se dissipa, do começo ao fim da obra. 

Muitos danos são causados por uma mentalidade competitiva que nos impossibilita de nos dedicarmos à nossas efetivas aptidões. E infinitas são as denegações e adiamentos que a vida impõe todos os dias a tantas pessoas. Os erros precisam ser tratados como alavancas para um sucesso futuro, mais amplo e mais potente. Quando isso não ocorre, produz-se uma cultura onde o fracasso é entendido como substância inalienável dos sujeitos. Uma cultura de fatalidade, personalismo e depressão. Pépin nada na contracorrente. Define o fracasso como condição necessária para que os possamos vir a nos realizar, como indivíduos e como sociedade. Essa mensagem é valiosa. E precisa ressoar e ser propagada. Para que o maior número de leitores consiga se tornar aquilo que é. 

*É escritor, filósofo, professor titular da FAAP e pós-doutorando no TIDD/PUC-SP

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