Christopher Anderson/The New York Times
Christopher Anderson/The New York Times

Filósofo defende que a humanidade nunca adentrou a modernidade

'Jamais Fomos Modernos', ensaio de 1991 escrito pelo francês Bruno Latour, chega ao Brasil em nova edição

Sérgio Medeiros*, O Estado de S.Paulo

12 de outubro de 2019 | 16h00

“Estamos cansados dos jogos de linguagem e do eterno ceticismo da desconstrução dos sentidos”, declara o filósofo e antropólogo francês Bruno Latour em seu livro Jamais Fomos Modernos, de 1991, que acaba de sair em português em nova edição. “O interesse pelos textos não nos afasta da realidade”, prossegue ele no mesmo parágrafo, “já que as coisas também têm direito à dignidade de ser narrativas”.

Latour proclama o acesso às próprias coisas, e o faz numerosas vezes ao longo do ensaio, nesse aspecto, bastante repetitivo. Para ele, o discurso não é um mundo em si, ou seja, a linguagem não é autônoma. Daí seu desabafo: “Não aguento mais ser acusado, eu e meus contemporâneos, de termos esquecido o Ser, de vivermos em um submundo esvaziado de toda substância, de todo sagrado, de toda arte”. 

Quem são esses acusadores? Os filósofos e os cientistas modernos e pós-modernos, contra os quais ele anuncia a contrarrevolução não moderna. Pois, retrospectivamente, segundo o autor, percebemos agora que jamais fomos realmente modernos (o nosso pensamento não corresponde à nossa prática). É claro que Latour está se dirigindo aos europeus e não a nós, latino-americanos, embora seu ensaio pretenda revisar, entre outros conceitos, o de eurocentrismo -- por isso, aliás, ele deu ao livro um subtítulo que anuncia o fim de hierarquias consagradas: Ensaio de Antropologia Simétrica

Quero crer que, independentemente de quem seja seu alvo preferencial, o leitor brasileiro, sobretudo hoje, concordará que o modernismo possa ser só uma ilusão e que, portanto, jamais saímos do mundo pré-moderno. Para um leitor norte-americano, assim como para o francês, talvez o moderno seja um modelo que se mostrou inviável, restando-lhes aceitar agora o convite de Latour para adentrar no mundo não moderno.

Os que se declaram não modernos descreem da distinção radical entre humanos e não humanos, assim como da absoluta separação entre os signos e as coisas, ou entre o presente e o passado. Diante da impossibilidade de continuarmos nos movendo entre essas dicotomias (é por conta disso que estamos impedidos de ser totalmente modernos), Latour propõe o importante conceito de natureza-cultura, que na verdade é plural, múltiplo e híbrido: “Ora, não existem nem culturas – diferentes ou universais – nem uma natureza universal. Existem apenas naturezas-culturas”, onde quer que nos encontremos. 

Separar as duas nunca foi possível, ao contrário do que professaram os saberes e os poderes modernos em seus discursos polarizados -- na verdade, eles nunca lograram separar realmente os humanos das coisas, por exemplo, ou as sociedades pré-lógicas das sociedades lógicas. “Hoje, a razão se assemelha muito mais a uma rede de televisão a cabo do que às ideias platônicas”, afirma Latour a respeito do pensamento universal não moderno. E propõe este “slogan”: “Aquilo que a razão complica, as redes explicam”.

Não é possível descrever em poucas palavras, sem cair em simplificações, a dimensão não moderna (ao mesmo tempo desconcertante e sedutora) na qual se situa Latour quando fala de linguagem, política e ciência, mas, felizmente, seu ensaio, ainda que breve, conclui com um apanhado completo de sua argumentação, sem contar que é, como já disse, bastante redundante. O leitor se sentirá recompensado ao chegar a esse esclarecedor resumo final. 

Já perto da conclusão, o autor faz a seguinte avalição do complexo estado de espírito daqueles que se consideram modernos: “Não é apenas por arrogância que os ocidentais acreditam ser diferentes dos outros, mas também por desespero e autopunição. Gostam de sentir medo de seu próprio destino. Sua voz treme quando opõem os bárbaros aos gregos, o Centro à Periferia, ao celebrar a Morte de Deus ou a do Homem, (...). Por que sentimos tanto prazer em nos percebermos tão diferentes dos outros e também de nosso passado? Que psicólogo terá sutiliza suficiente para explicar este deleite moroso por estarmos em crise perpétua e pelo fim da história?”

Latour lança, a seguir, indagações cruciais: “Como trazer os modernos de volta à humanidade ordinária e à inumanidade ordinária sem, com isso, absolvê-los depressa demais dos crimes dos quais eles, com razão, querem se expiar (sic)? Como acreditar, de forma justa, que nossos crimes são hediondos mas que ainda assim são comuns; que nossas virtudes são grandes mas que também elas são muito comuns?”. Em suma, os modernos precisam se convencer definitivamente de que são apenas ordinários, mas sem a ironia ou o cinismo dos pós-modernos.

*Sérgio Medeiros é poeta, artista visual e professor de literatura na UFSC. Publicou, entre outros livros de poesia, Os caminhos e o rio (Iluminuras, 2019) e Caligrafias ameríndias (Medusa, 2019)

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