Ubu Editora
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Filósofo investiga a obediência como geradora de catástrofes

Com exemplos retirados da história e em diálogo com a psicologia, Frédéric Gros analisa o tema em 'Desobedecer'

Amanda Mont’Alvão Veloso*, Especial para o Estado

06 Outubro 2018 | 16h00

“Começo de julho de 1942, o batalhão é enviado à cidade de Józefów. Sua missão: de uma população judia de 1.800 indivíduos, reter 300 homens válidos e matar os demais (mulheres, idosos, crianças, doentes). Quando o comandante Trapp toma conhecimento das ordens, fica atônito. Mas, como ‘bom oficial’, aceita sua missão, reúne todos seus homens (algumas centenas) e lhes dá a oportunidade de escolher. Depois de expor, com voz trêmula, o conteúdo da missão, pede aos que a recusassem para dar um passo à frente, indicando que não sofreriam sanções. (...) Só uma pequena dezena se destaca do grupo para manifestar recusa.”

Por que tantos homens prosseguiram no cumprimento da cruel missão, uma vez que os membros do agrupamento encarregado de massacrar judeus na Polônia não eram nazistas identificados com o discurso de Adolf Hitler, mas, sim, reservistas convocados? Por que não houve desistência dos encarregados, avisados de que não haveria retaliação? Esta e outras perplexidades nos são endereçadas pelo filósofo francês Frédéric Gros em seu livro Desobedecer, lançado no Brasil pela Ubu. 

Especialista em Michel Foucault e estudioso da intimidade política dos sujeitos, o professor do Institut d’Etudes Politiques de Paris rejeita a condescendência e convoca a um desconfortável autoexame sobre a recusa à desobediência. Frente a injustiças sociais, desigualdades de fortuna, degradação progressiva do meio ambiente e à desqualificação do trabalho em nome da criação de riquezas pela dívida e pela especulação, Gros questiona, movido pelo assombro: por que as pessoas não se revoltam? “Por que nos comportamos como espectadores do desastre?” Após determinado percurso do livro, descobriremos que, mais que espectadores, somos agentes do desastre, protegidos pelo véu da desresponsabilização. O que nos une na produção e manutenção destas mazelas, lamentavelmente, é a obediência, argumenta Gros. 

A obediência já tinha sido alvo de análises anteriores, sendo a mais notória delas feita em 1962 pelo norte-americano Stanley Milgram, que buscava descobrir como seres humanos eram capazes de cometer atrocidades. Em um experimento com 40 homens realizado na Universidade de Yale, o cientista observou que 65% dos voluntários aceitaram aplicar choques de até 450 volts em um desconhecido porque estavam sob as ordens de uma autoridade. Os choques não ocorreram de fato, mas estava ali a constatação do alcance de um comando. Milgram, que buscava identificar a desistência dos choques como resposta recorrente, refez o experimento com outras pessoas e alterou algumas condições, mas ainda assim obteve a obediência sem limites como maioria dos resultados. 

Gros investiga os diferentes arranjos de obediência na coletividade e os afetos envolvidos na construção desse sempre assimétrico vínculo. Parece conversar com a afirmação feita por Freud em 1921, em Psicologia das Massas e Análise do Eu, de que “um grupo é um rebanho obediente que nunca poderia viver sem um senhor. Possui tal anseio de obediência que se submete instintivamente a qualquer um que indique a si próprio como chefe.” 

Basta pensarmos nas relações de trabalho, nas exclusões cotidianas, nas operações de guerra e em outros processos de desumanização: as amarras da obediência são capazes de patrocinar horrores em maior ou menor escala, desde demissões evitadas ao custo de empregos fragilizados e constantemente ameaçados; intolerância às diferenças sancionada por líderes ou assassinatos tornados invisíveis pelo silêncio – vide o Holocausto Brasileiro vivido em Barbacena (MG). Dentre os ingredientes assíduos nesta perversa equação da obediência estão a omissão e o descompromissado “estava apenas seguindo ordens”. 

Este último foi o argumento de Adolf Eichmann em 1961 para justificar sua participação no transporte de centenas de milhares de judeus para campos de extermínio. O ex-chefe da Seção de Assuntos Judeus no Departamento de Segurança de Hitler foi julgado naquele ano, depois de ter sido encontrado na Argentina. A partir das declarações no julgamento, Gros faz uma torção na dicotomia em que ele era colocado – ora visto como um monstro de antissemitismo, ora encarado como uma “peça inocente” do sistema monstruoso – e propõe que o oficial nazista se reconhece responsável, mas apenas pelo transporte de pessoas. Aceita ser punido por este contexto, mas não pelo motivo das viagens. Tal responsabilização vem porque um juramento foi prestado: “estando atado por meu juramento de lealdade, eu devia em meu setor ocupar-me da questão da organização dos transportes.” Quanta humanidade seria poupada se ele tivesse escolhido desobedecer?

Pistas dadas, a ética é o grande pilar do filósofo, que aspira a construir uma estilística da desobediência a partir de uma estilística da obediência com a diferenciação de submissão, obediência, consentimento e conformismo. Gros está interessado em despertar a tensão ética que deve existir no íntimo de cada um – o “si” indelegável que tem capacidade de pensar e modificar cenários. Mas é preciso que esse si político seja sustentado pelo coletivo, em uma ação vislumbradora de futuro. Propõe, portanto, desobedecer juntos, em uma experiência de contágio articulada a partir da constatação e vivência do intolerável.

*Amanda Mont'Alvão Veloso é psicanalista, jornalista e mestranda em linguística aplicada pela PUC-SP 

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