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Filósofo John Gray exibe pessimismo em 'O Silêncio dos Animais'

Intelectual inglês admite conquistas da humanidade, mas mostra que ainda temos um longo caminho a percorrer

Paulo Nogueira*, Especial para o Estado

08 de junho de 2019 | 16h00

Aos 71 anos bem vividos, o britânico John Gray é um dos mais proeminentes pensadores do século 21. Depois de lecionar em Oxford, Harvard, Yale e na London School of Economics, pendurou as chuteiras acadêmicas em 2008 e se aninhou nas encantadoras termas de Bath, junto com sua esposa japonesa, Mieko. E continuou a escrever obras topetudas e iconoclastas (de que precisamos avidamente, nessa época de idólatras). 

Gray não é um camaleão nem um catavento, porém tem convicções e não certezas marmóreas. Ao longo das décadas, remou da direita para a esquerda, desembocando no atual ceticismo pessimista. Em 2002, o livro Straw Dogs virou best-seller, para pasmo do próprio autor, acostumado com as tiragens parcimoniosas dos tratados filosóficos. Gray assumiu uma auréola profética, ao prever o colapso financeiro global de 2008 e a areia movediça do Iraque pós-guerra. 

A nêmesis de Gray é, se não o progresso, ao menos o mito do progresso. Para ele, os modernos não são mais sábios que os antigos e, nesse sentido, todo iluminista contemporâneo não passa de um palerma. Trocando em miúdos: enquanto não admitirmos que nossa capacidade de produzir conhecimento não implica a aptidão de aprender com isso, estamos fritos e mal pagos.

É instrutivo contrastar Gray com Steven Pinker, autor de O Novo Iluminismo e um otimista: “Vivemos na primeira sociedade da história em que os pobres são gordos.” E um cruzado contra a “progressofobia”: “Intelectuais odeiam o progresso. Intelectuais que se intitulam ‘progressistas’ odeiam muito o progresso. Não os frutos do progresso, veja bem: a maioria dos doutos usa um computador em vez de pena e tinteiro, e prefere submeter-se a uma cirurgia com anestesia em vez de sem. É a ideia do progresso que exaspera a classe loquaz – a crença iluminista de que, entendendo o mundo, podemos melhorar a condição humana.”

Gray dá de barato que em muitos aspectos vivemos melhor hoje do que há 200 anos. Porém, já em 1989, espinafrou a badalada tese de Francis Fukuyama, segundo o qual depois da queda do comunismo a História acabara, e com um final feliz (a democracia liberal, o Logos universal). Como se viu, os fantasmas fedidos do comunismo e do nazismo continuam assombrando a Europa e o mundo inteiro. E, nota Gray, a reabilitação da tortura como técnica de interrogatório atesta que avanços são reversíveis. 

O Silêncio dos Animais, que acaba de sair no Brasil, é uma continuação de Straw Dogs. A obra têm três seções. Na primeira, o autor espia os sistemas políticos, filosóficos e religiosos que tentam conferir significado ao caos da existência. Na segunda, fuça as mitologias da psicanálise e a redenção pela linguagem. Na terceira, xereta os ardis dos escritores para urdirem uma conexão com a alma humana. Pelo caminho, interpreta um rol de autores, alguns manjados e outros com a notoriedade do Soldado Desconhecido. A dicção de Gray sugere um Montaigne sem a simpatia e o humor – o filósofo britânico contempla as burradas dos semelhantes com uma mistura de amargura e compaixão. 

O título do livro deriva do teólogo suíço Max Picard, que distinguia o silêncio dos animais e o dos homens. Gray vai mais longe, numa extrapolação metafísica: “Destituídos de autoimagem como a que é tão valorizada pelos seres humanos, os outros animais limitam-se a ser o que são.” 

Se a felicidade é uma quimera perigosa, as utopias não ficam atrás: “Elas se apresentam em muitas variedades: o jacobino, o bolchevique e o maoista, aterrorizando a humanidade para refazê-la segundo um novo modelo; o neoconservador, sempre em guerra para alcançar a democracia universal; os cruzados dos direitos humanos, convencidos de que o mundo inteiro quer se tornar como eles próprios imaginam que são...”

Nos últimos anos, com as lacrações da neurociência, muita gente boa considerou que, de modo irreversível, a Psicanálise estava para a Psiquiatria como a Astrologia para a Astronomia e a Alquimia para a Química (e olhe lá). Mas Gray admira Freud: não o cientista, mas o pensador. “O que diferencia a terapia freudiana das anteriores e posteriores é que ele não se candidata a curar a alma. Ao longo do último século, os conflitos da mente passaram a ser vistos como males que podem ser remediados. Para Freud, é a expectativa de uma vida sem conflitos que nos faz mal. Ele aceitava que os seres humanos são animais doentios. Sua originalidade estava em também aceitar que a doença humana não tem cura.”

Para mim, enquanto ficcionista, é um relativo alento verificar que Gray destaca a utilidade até epistemológica da ficção literária. Primeiro, ele alerta: “Mesmo as teorias mais rigorosamente testadas contém erros. As teorias que usamos são as que consideramos mais próximas da verdade, mas não sabemos quais partes suas são verdadeiras e quais não são.” Depois, coando Wallace Stevens e Borges, postula que, ficção por ficção, o produto genuíno é o mais recomendável. A literatura, se não é real, pode ser visceralmente verdadeira, coisa que a realidade é cada vez menos. 

Entre Pinker e Gray, eu fico com ambos – é que na complexidade não há oximoros: as contradições são lógicas. E mil vezes dois pensadores que buscam a verdade em labirintos, do que a capitulação interesseira dos pós-modernistas (a verdade não existe, a não ser que sejam eles a falar). Pinker escreveu: “Experimentos mostraram que um crítico que desanca um livro é visto como mais competente do que um crítico que elogia a obra.” Perdão, caro leitor. Como Gray recorda, errar é humano, e continuar errando, mais humano ainda. 

*PAULO NOGUEIRA É AUTOR DE ‘O AMOR É UM LUGAR COMUM’ (INTERMEIOS)

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