Final de idílio em um primeiro ano ofuscado pela paixão

Os EUA estão melhores hoje que em janeiro de 2009. Mas fica a sensação de oportunidade perdida

Antonio Caño, O Estado de S.Paulo

24 de janeiro de 2010 | 01h22

El País

Toda explosão de paixão, individual ou coletiva, termina em saudade, frequentemente em decepção e, na melhor das hipóteses, em calma.

O caso de Barack Obama não é diferente. Sua vitória eleitoral provocou uma onda de entusiasmo poucas vezes vista. Nele se depositaram expectativas sobre-humanas impossíveis de satisfazer. Acreditou-se que seria capaz de uma mudança, seja lá qual fosse o entendimento de cada um sobre ela, que equivaleria ao renascimento de nossa sociedade hipócrita e desmoralizada. Atribuíram-lhe poderes especiais e esperavam que de sua cadeira na Casa Branca ele emitiria o sinal de que a humanidade precisava para a salvação. Este país religioso que vê em cada presidente o advento do Messias chegou ao paroxismo com Obama, e o mundo, ansioso por liderança e farto de George W. Bush, contagiou-se sem reservas.

Passado o tempo, ao completar um ano de sua posse como presidente dos Estados Unidos, essa excitação se desfez e o sentimento que hoje prevalece é o de uma oportunidade perdida.

O antigo fervor sobrevive somente em alguns grupos de fiéis na comunidade afro-americana. Os pôsteres com seu rosto, que um dia custavam caro nas melhores galerias de arte do país, hoje são vendidos com desconto em lojas para turistas. Sua biografia deixou de dominar as estantes das livrarias, onde agora arrasam as memórias aziagas de Sarah Palin.

A direita recuperou a iniciativa política, os conservadores retomaram a condição de grupo ideológico majoritário do país e o Partido Republicano é o favorito para obter maioria parlamentar nas próximas eleições. A tentativa de bipartidarismo naufragou na primeira onda, o clima político continua dolorosamente áspero e nas sondagens de opinião os cidadãos mais uma vez refletem majoritariamente seu pessimismo sobre os rumos do país.

Esse panorama não é, contudo, o resultado necessário da má gestão de Barack Obama. O saldo de seu primeiro ano é, paradoxalmente, bastante favorável. Os Estados Unidos estão hoje melhores que em janeiro de 2009 e, embora subsistam algumas das causas de tensão mundial, o novo governo recuperou prestígio e autoridade para desenvolver sua política externa com o respaldo internacional adequado.

No plano interno, a ameaça de colapso que pairava sobre a economia americana desapareceu. O sistema financeiro se recuperou. Os bancos devolveram a maior parte do dinheiro que o Estado lhes entregou para sua salvação e hoje tornam a fazer negócios. As empresas estão se recuperando pouco a pouco de sua letargia, inclusive a malparada indústria automobilística que, com ajuda do governo, começou a reestruturação de que precisava e já apresenta benefícios. A bolsa sobe como reflexo das previsões otimistas que os analistas emitem, embora com reservas. Mesmo aceitando que o plano de estímulo de cerca de US$ 800 bilhões aprovado em fevereiro passado não tenha causado um impacto decisivo na melhoria da situação, o governo merece uma parte do crédito pelo que se alcançou.

No âmbito internacional, rompeu-se basicamente o isolamento em que os Estados Unidos haviam caído durante a administração anterior e estabeleceram-se as bases para a cooperação com Rússia e China e para um melhor entendimento com a União Europeia com respeito ao Irã e ao Oriente Médio. Eliminou-se o maniqueísmo que lastreava a guerra contra o terrorismo e fortaleceram-se os argumentos americanos com a abolição das medidas que turvavam seu sistema democrático.

Em condições normais, esse balanço seria suficiente para reconhecer uma boa atuação. Mas não é assim. Obama perdeu mais de 20 pontos de popularidade nesses 12 meses e ficou abaixo até de 50% de aprovação numa pesquisa da cadeia CBS na semana passada. De todos os ângulos da cena política, disparam contra ele. A direita o acusa de ter socializado a economia do país, a esquerda o critica pela guerra do Afeganistão e por não tem conseguido fechar Guantánamo, e os independentes estão decepcionados com a exacerbação da luta partidária.

Cada um pode encontrar um assunto em que Obama lhe falhou, embora esses sejam às vezes contraditórios. Onde os conservadores veem a prova de que a nação se precipita para o comunismo, os liberais observam o exemplo de que Obama se entregou aos grandes interesses de sempre. De um extremo a outro, o estado da opinião se radicaliza a cada minuto em meios de comunicação cada vez mais expostos à precipitação e à superficialidade.

Isso é o que Paul Starr, professor de sociologia da Universidade Princeton chama de "governar na era da Fox News", a cadeia de televisão conservadora. "Quando Walter Cronkite é substituído por Glenn Beck (o titã ultra da Fox) e Keith Olbermann (seu equivalente de esquerda na MSNBC), a liderança política perde um parceiro imprescindível na construção do consenso. Esse é o problema com o qual Obama se defronta", afirma Starr.

O amplo debate sobre a reforma da saúde é o paradigma do que ocorreu nesse ano. Ainda pendente de ratificação pela comissão mista do Senado e da Câmara de Representantes, não é exagero dizer que mesmo a versão mais modesta dessa lei constitui um passo de gigante para o sistema de saúde dos Estados Unidos. A garantia de um seguro de saúde para mais de 30 milhões de pessoas que hoje não o têm por falta de recursos para pagá-lo ou por padecer de enfermidades crônicas que as tornam inadmissíveis para as companhias representa um feito extraordinário. Jonathan Cohn, especialista da revista New Republic, o considera "a peça legislativa mais importante em uma geração". É um êxito que, como ocorreu em seu momento com a Previdência Social ou com os direitos civis, deveria esta fora de qualquer discussão.

No entanto, não é assim. O debate sobre a reforma da saúde, provavelmente mal dirigido pela Casa Branca e grosseiramente manipulado pela oposição, é a batalha na qual se forjaram os piores estereótipos sobre Obama e na qual ele perdeu a maior parte de seu crédito. Se agora que a parte mais difícil desse debate já passou não se corrigirem as impressões criadas, essa iniciativa pode acabar sendo, como adverte a escritora e colunista Peggy Noonan, "uma vitória desastrosa".

Na opinião de Noonan, Obama cometeu um erro ao priorizar a aprovação da reforma da saúde num momento em que a preocupação do público estava centrada exclusivamente na falta de empregos. Seja ou não assim, o certo é que, segundo a pesquisa da CBS, atualmente apenas 36% da população apoiam essa legislação, ante 54% que a repudiam.

Para a direita, essa iniciativa é o exemplo do modelo de economia centralizada e intervencionista, ao estilo socialista, que o presidente quer impor. Para a esquerda, a lei aprovada na véspera de Natal pelo Senado é a culminância de uma política entreguista por parte de Obama e uma traição à mudança prometida. Arianna Huffington, um dos emblemas progressistas do país, disse que se trata de "uma reforma só no nome''. O ex-presidente do Partido Democrata e ex-candidato presidencial Howard Dean pediu para os congressistas votarem contra. Ralph Nader chegou a considerá-la "um produto de Pai Tomás".

Todos eles passam por alto dos méritos de uma legislação que, segundo o cálculo feito por Harold Pollack, professor da Universidade de Chicago, entregará a cada ano subsídios para ajudar as famílias a pagar seus seguros de saúde no valor de US$ 196 milhões, mais que o Estado aporta atualmente em todos seus programas de assistência social.

Talvez toda essa discrepância entre os feitos e as percepções seja consequência da excitação em meio à qual Obama assumiu a presidência. Talvez Obama esteja simplesmente sendo vítima da paixão que ele mesmo gerou. Certamente, a mesma energia que o levou à Casa Branca serviu para revitalizar contra ele as bases conservadoras que hoje agitam com êxito a América profunda com os chamados "tea party". Sobre esse movimento, Palin e seu grupo do Partido Republicano estão construindo a estratégia para a reconquista do poder.

Se for assim, se os Estados Unidos vivem sob o ofuscamento próprio da paixão, o juízo sobre a presidência de Obama poderá ser mais ponderado com o passar do tempo. Um ano, em todo o caso, não é tempo suficiente para qualificar uma gestão de governo. É um prazo, como os cem dias, útil para os jornalistas, mas como afirma David Greenberg, professor da Universidade Rutgers, insuficiente para os historiadores. "Nenhum dos presidentes que serviram de modelo a Obama ? Lincoln, Roosevelt ou Kennedy ? conseguiu, em seu primeiro ano, marcar a direção de sua presidência. As mudanças não ocorrem da noite para o dia", afirma Greenberg.

As mudanças, apontam distintas fontes no entorno de Obama, começarão a ser notadas a partir de agora, quando diminuir o atrito pelo assunto da saúde, quando a maior criação de emprego aliviar a angústia cidadã e, sobretudo, quando se reduzir a expectativa por resultados imediatos.

Será o momento então de conhecer de verdade que tipo de presidente é Obama. Até agora, a poeira levantada pelo impacto de sua eleição não permitiu ver com clareza o fundo de sua personalidade e de seus recursos de governante. Alguns esboços surgiram, contudo.

O primeiro: ele é um homem muito reflexivo. Levou meses, por exemplo, para tomar a decisão de reforçar com 30 mil soldados a campanha no Afeganistão. E prudente. Manteve um difícil equilíbrio entre a pressão popular contra Wall Street e a necessidade de proteger o sistema financeiro. "Ao contrário da geração Twitter que apoiou sua campanha, ele não acredita que sua primeira ideia é a melhor ideia. Ele tem uma preferência acadêmica pela precaução", opina a jornalista e editora Tina Brown.

Esse primeiro ano revelou também um político essencialmente pragmático que acredita que o melhor resultado é o que se pode obter. "Não convertamos o melhor em inimigo do bom" é uma frase que Obama repetiu na polêmica da saúde, na cúpula do clima ou nas negociações entre israelenses e palestinos. "Ele não é uma figura de argila ideológica, é uma personagem que prefere fazer coisas e deixar que outros moldem sua imagem. Não porque seja bom para isso, é que, num universo político de vociferadores ideológicos, ele carece tanto da ideologia como do instinto de fazer-lhes frente", opina o colunista Richard Cohen.

Por isso a esquerda sente-se tão decepcionada com um presidente que, em que pese o fracasso do bipartidarismo, nega-se a governar contra a metade do país. E, por isso, a direita teve que recorrer a seus argumentos mais baixos e pueris, o do racismo e da ameaça bolchevista, para tentar neutralizar um presidente imbatível no intercâmbio civilizado de ideias.

Talvez, como sugerem alguns obamólogos emergentes, Obama seja demasiado civilizado para o cargo que ocupa. Talvez seu estilo didático e suas qualidades oratórias, fabulosas para uma campanha eleitoral, não se coadunem com as exigências de seu terrível cargo.

Talvez. Mas é mais certo que o perfil de uma presidência vai se moldando com o exercício do poder. Como o próprio Obama disse em 2006, "não creio que ninguém saiba o que é ser presidente até ser presidente". Ou, como afirma o professor Greenberg, "as verdadeiras conquistas de uma presidência ocorrem quando é preciso combater contra ventos tempestuosos de frente".

Agora esses ventos estão soprando. Soprarão mais fortes ainda nas eleições legislativas de novembro. Esses ventos medirão a integridade dessa figura esbelta que cativou o mundo. Esses ventos, que já levaram a paixão desatada às ruas em 20 de janeiro de 2009, provarão agora se Obama é o presidente transformador que a história americana produz uma vez em cada geração ou uma figura efêmera de YouTube. Tradução de Celso Mauro Paciornik

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