Floresta da memória

Entrevista com

Paula Sampaio

Georgia Quintas, O Estado de S. Paulo

04 Outubro 2014 | 16h00

O percurso refletido neste ensaio O Lago do Esquecimento, de Paula Sampaio, fotógrafa mineira radicada em Belém, mostra o avesso de sua trajetória documental, permeada por pessoas, histórias, encontros. Mas mesmo aqui, onde só parece haver água e troncos, a fotografia de Paula acontece por eles: os encontros. O lago que vemos é o da Usina Hidrelétrica de Tucuruí, no Pará. Surgiu pela primeira vez diante dela por meio do susto, do desejo de descobrir vozes diluídas naquelas águas. Entre 1975 e 1984, a região foi alagada para a construção da usina. Terras foram desocupadas, mas não todas. Famílias passaram a viver nas mais de mil ilhas que se formaram depois da inundação. Porque um lugar não deixa de existir, e o exílio nele mesmo pode ser a única escolha.

A estética humanizada dos trabalhos anteriores de Paula desviou-se pelo horizonte dramático de árvores que brotam como seres potentes e estranhos de águas calmas. Árvores que representam o sufocamento da vida, cemitério de sonhos. Espécie de floresta ruína da memória. A paisagem trouxe questões sociais e políticas não pelo que evidencia. A ausência dos remanescentes habitantes nas imagens potencializa o teor simbólico do lago. As pessoas vivem isoladas e destituídas de relevância política, de assistência social. Vivem sem existir aos olhos dos outros. Pois com as imagens silenciosas d’O Lago, a fotógrafa decidiu que seu olhar seria cúmplice da natureza para descortinar essas histórias de Tucuruí. E ela sempre relata com emoção que numa de suas viagens, ao despedir-se de um senhor, seu Jurandir, ele lhe faz um pedido: “Dona, fale para as pessoas que a gente existe aqui”.

Como foi seu encontro com o lago?

O mais arrebatador que tive na vida. Parte do que sempre acreditei naufragou em 2011, quando dei de cara com essa floresta fossilizada, mas estranhamente viva e forte. Entendi finalmente que a espécie humana é a mais infantil e devastadora deste planeta. Fiquei envergonhada, chorei muito. Mas, esse percurso foi longo. Comecei a viajar para Tucuruí em 1994, em busca de remanescentes da rodovia Transamazônica, que teve um trecho alagado depois da construção da hidrelétrica. Como viajava em direção às áreas mais habitadas do lago, nunca tinha visto a floresta alagada. Em 2011, a pesquisadora Edilene Portilho, nascida em Tucuruí, me convidou a conhecer a ilha onde seus avôs moravam no lago. Atravessamos o cemitério de árvores para chegar lá. Um espanto. Foi assim que tudo começou.

Sua fotografia quase sempre narra histórias de pessoas. Mas aqui há uma relação forte com a paisagem. Como foi a ‘troca’?

Num primeiro momento fiquei perdida. Foi como levar um soco. Tomei consciência de que algo estranho estava acontecendo comigo quando tive a impressão de ter visto uma pessoa se afogando no lago. Mas quando o barco chegou mais perto vi que era uma árvore, de “braços abertos”, mergulhando nas águas bravas. Naquele momento entendi que havia algo maior, além de mim, de meu entendimento, naquele lugar. Eu me perguntava como falar da vida das pessoas com fotografias onde não existia ninguém, só árvores mortas. Bem, acabei entendendo que árvores e gente não têm tanta diferença assim e não é à toa que dediquei o livro a um sentimento: o amor. Para mim, a única possibilidade de encontro que temos.

Há algum limite em sua fotografia?

Nós inventamos os limites, as fronteiras, os conceitos, preconceitos e tantas outras coisas. Isso acontece porque precisamos investigar a existência de tudo para entender nossa própria sorte neste mundo. E também porque somos incapazes de lidar com as diferenças e com a liberdade. O único limite que, para mim, de fato existe é nossa incapacidade de compreender esse processo de nascer, viver, morrer, renascer como algo natural e os relacionamentos que estabelecemos (ou não) ao longo da jornada. Enfim, agora, finalmente, estou tentando me dedicar a viver, simplesmente. Inclusive abrindo mão de fotografar em muitas ocasiões, porque preciso ouvir, ver sem a mediação de um instrumento, ficar em silêncio, fechar os olhos... Descobri que essa é também uma forma de ser fotógrafa e fazer fotografias.


Georgia Quintas é antropóloga, pesquisadora e crítica de fotografia, autora, entre outros livros, de Inquietações Fotográficas: narrativas poéticas e crítica visual (Olhavê/Tempo D'Imagem)

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