Fora, Trump? Será possível virar a mesa e impedir que o magnata assuma a presidência dos EUA?

A rivalizar com as profecias sobre a vitória do magnata, surgem agora os que preveem que ele não assumirá; será que essa mesa pode mesmo virar?

Sérgio Augusto, Impresso

17 Dezembro 2016 | 16h00

Não foi por falta de advertência. Se Isaías profetizou a vinda de Jesus com séculos de antecedência, o filósofo Richard Rorty previu a ascensão de Donald Trump com uma diferença de tempo só inferior à de um e outro ficcionista visionário, como Sinclair Lewis, o exemplo mais notório. Lewis publicou It Can’t Happen Here, romance distópico sobre a tomada da Casa Branca por um ditador, no início dos anos 1930; Rorty teorizou a respeito dessa possibilidade no plano do real, no final dos anos 1980. Sua profecia aparece num pequeno livro, Para Realizar a América, traduzido em 1999 pela DP&A Editora e por aqui há muito esgotado.

Pouco antes de Rorty, o historiador e cientista político Edward Luttwak, romeno naturalizado americano, arriscara prever que as velhas democracias industrializadas se encaminhavam para um período parecido com o da República de Weimar. O fascismo pode ser o futuro da América, antecipou Luttwak num estudo sobre, em última análise, o fim do sonho americano. E que seguia este roteiro: trabalhadores (sindicalizados ou não) desiludidos com o governo que nem sequer tentava impedir a queda dos salários ou a exportação de empregos canalizavam sua insatisfação acumulada para uma revolta à mercê de algum aventureiro político.

Neste ponto, Rorty entrou em cena. Com mais detalhes: “O eleitorado não-suburbano decidirá que o sistema fracassou e começará a olhar em volta em busca de um homem forte em quem votar – alguém disposto a assegurar-lhes que, uma vez eleito, os burocratas presunçosos, os advogados ardilosos, os vendedores de títulos que fazem muito dinheiro (...) não mais darão as ordens”. Mas “uma vez que esse homem forte assuma o poder, ninguém pode prever o que acontecerá”.

O filósofo arrisca uma hipótese: as melhorias alcançadas em décadas passadas pelas minorias desaparecerão; “o descaso jocoso pelas mulheres voltará a ser moda”; palavras como crioulo voltarão a ser ouvidas nos locais de trabalho; e “todo o ressentimento que os americanos mal educados sentem por ter suas maneiras ditadas por pessoas que têm um curso superior encontrarão uma válvula de escape”.

Para quê? Para nada. Pois depois que o homem forte imaginário criado por Rorty estiver em exercício, “rapidamente fará as pazes com os superricos internacionais, do mesmo jeito que Hitler com os industriais alemães (...) será um desastre para o país e o mundo”.

É ou não é uma prévia dos brancos ressentidos do chamado Cinturão de Ferrugem que elegeram Trump? E do próprio Trump, que começou a montar um gabinete de bilionários ligados à indústria de petróleo e ao mercado financeiro globalizado que ele tanto fustigou durante a campanha, acrescidos de inimigos declarados da maioria das conquistas populares dos últimos 40 ou 50 anos.

Antecipando uma perplexidade ora corrente no mundo inteiro, Rorty, que morreu em 2007, imaginou pessoas especulando sobre o porquê de tão pouca resistência à ascensão do seu homem forte. “‘Onde estava a esquerda americana?’, perguntarão uns. ‘Por que apenas direitistas como Pat Buchanan falaram aos trabalhadores sobre as consequências da globalização?’, perguntarão outros. E outros mais cobrarão da esquerda por ter sido ‘incapaz de canalizar a fúria dos mais despossuídos’.”

Com 30 anos de antecedência, nada mau, hein? Noam Chomsky também aventou esse pesadelo, mas só seis anos atrás, com o Tea Party já em plena atividade.

Fechando a raia, um surpreendente profeta, o documentarista Michael Moore. Em agosto deste ano, a três meses das eleições americanas, ele, a contragosto e contrariando pesquisas e vaticínios de analistas políticos, previu que Trump levaria a melhor sobre Hillary. Há dias, a pouco mais de um mês da posse do novo presidente, arriscou outro palpite: Trump não será o próximo presidente do país; o Colégio Eleitoral tem até o dia 20 de janeiro para confirmar sua vitória, e não o fará.

Hillary, como em 2000 ocorrera com Al Gore na disputa com George W. Bush, ganhou na votação popular (por 2,7 milhões de votos), mas perdeu na contagem de delegados do Colégio Eleitoral. Neste ponto da história entra outro profeta, bem mais remoto que os até aqui citados: Alexander Hamilton, um dos “pais fundadores” da república americana e signatário de sua Constituição, em 1788.

De volta à ribalta, literalmente, como personagem do musical de maior sucesso da Broadway dos últimos tempos, Hamilton foi quem teve o estalo dos colégios eleitorais, com o explícito objetivo de evitar que eventuais manipulações do voto popular pudessem alçar à presidência algum aventureiro ou demagogo qualquer; alguém como seu rival – e afinal algoz num duelo – Aaron Burr; alguém como Donald Trump.

Na prática, o “eleitorado Hamilton” acabou beneficiando, ao menos desta vez, o tipo de candidato que pretendia barrar. Como a votação colegiada precisa ser ratificada até a terceira semana de janeiro, renasceu a esperança de que vários delegados republicanos, arrependidos de seus votos e horrorizados com as reincidentes insânias de Trump, venham solidarizar-se com a vontade das urnas – e com os princípios que nortearam a instituição do Colégio Eleitoral.

Um deles, aliás, também exige que o eleito não tenha se beneficiado de qualquer tipo de ajuda ou influência estrangeira. O fato de que a palavra hacker significava outra coisa em 1788, não tira a ciberpirataria russa da equação. Nem a CIA e demais agências de espionagem dos Estados Unidos.

“Se não utilizarmos o Colégio Eleitoral para impedir um demagogo como Trump, não haverá mais motivo para sua manutenção”, justificou a democrata do Colorado Polly Baca, há 56 anos no Colégio. Ela lidera o movimento visando negar os 270 votos necessários ao crisma eleitoral do candidato republicano, um antecipado “Fora, Trump!”, um impeachment preventivo.

Um dos aliados mais empenhados de Baca, o republicano texano Chris Suprun, publicou há dias um artigo no New York Times defendendo sua posição com fervor. Se o movimento conseguir convencer mais 36 republicanos, a mesa será virada. Mas o próprio Suprun está cético quanto ao êxito da empreitada.

Os trumpistas alegam que 29 estados e o Distrito de Columbia têm leis que proíbem a desobediência eleitoral pelos integrantes do Colégio. Lawrence Lessig, professor de direito constitucional em Harvard e líder de um escritório da advocacia da Califórnia que dá suporte legal aos rebeldes, argumenta que a Constituição fala mais alto. “Os eleitores são autoridades federais e os estados não lhes podem restringir a liberdade de votar em quem bem entendem.”

Que outro profeta apareça para anunciar que 2017 começará com uma ótima notícia.

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