Forjam-se terroristas no Waziristão

Dona de um prontuário histórico de guerra santa, área tribal paquistanesa é tida como um formidável esconderijo da Al-Qaeda

Declan Walsh, The Guardian, O Estado de S.Paulo

17 de setembro de 2007 | 12h28

Uma região acidentada do Paquistão, envolta num manto de segredo e habitada por tribos conservadoras que têm uma afinidade histórica com a Jihad, a guerra santa, o Waziristão é um esconderijo formidável - tão bom que os serviços de inteligência dos Estados Unidos acreditam que a Al-Qaeda o venha utilizando para tramar seu próximo ataque.Os problemas do Waziristão têm raízes na história. Por mais de um século a região foi regida pela chamada Frontier Crimes Regulation (FCR), um conjunto de leis estabelecidas pelos britânicos nas áreas habitadas pelas tribos pashtun, leis da era colonial que concentravam o poder nas mãos de um poderoso agente político, um representante do governo que podia prender indefinidamente e sem julgamento qualquer pessoa e impor sanções a vilarejos inteiros.Os partidos políticos continuam proibidos no Waziristão, embora grupos religiosos façam campanha nas mesquitas radicais que existem em cada cidade ou vilarejo.A pobreza crônica está na base dessa anarquia. Por todas as áreas tribais do Paquistão 60% a 80% dos homens estão desempregados e há um médico para cada 6 mil pessoas, segundo dados oficiais. Apenas 3% das mulheres são alfabetizadas.Devido ao terreno montanhoso - tão frio no inverno que muitas famílias migram para regiões mais baixas -, o contrabando e o dinheiro enviado pelos emigrantes são as principais fontes de renda. A região é também um importante ponto de passagem de veículos roubados. Tradicionalmente os agentes políticos trabalham com os maliks, pessoas mais velhas da localidade pagas para manter as tribos na linha. Mas nos últimos anos a função dos maliks vem sendo usurpada por uma força poderosa que reúne pistoleiros locais e jihadistas estrangeiros.Os problemas começaram depois dos ataques de 11 de setembro de 2001 nos EUA, quando Osama bin Laden e seus combatentes driblaram uma investida americana no Afeganistão e fugiram pela fronteira para o Paquistão. Muitos desses combatentes foram para o Waziristão, entre eles centenas de usbeques que lutavam pelo Movimento Islâmico do Usbequistão (MIU), liderados pelo religioso Tahir Yuldashev.Na semana passada um grupo dissidente do MIU ficou em evidência quando três de seus membros foram presos na Alemanha, acusados de tramarem um atentado a bomba contra bases americanas naquele país. Eles teriam sido treinados no Waziristão.O vespeiro foi agitado pela chegada do Exército paquistanês, que no início de 2004 lançou operações militares na área por insistência americana. Para o Exército, foi um desastre a fogo lento. Oficialmente, mais de 600 soldados morreram, mas o número real provavelmente é muito mais alto.Os soldados remanescentes parecem ter perdido a vontade de lutar, refletindo a imensa impopularidade da campanha empreendida. Essa semana, os militantes islâmicos, que já detinham 260 soldados seqüestrados em 30 de agosto, seqüestraram outros 18 em um posto de segurança da cidade vizinha de Bannu.Inúmeros luminares da Al-Qaeda passaram pelo Waziristão nos últimos anos, incluindo Abu Faraj al-Libbi, descrito como o número 3 da Al-Qaeda depois da sua prisão, em 2005. Para analistas, no entanto, é improvável que Bin Laden esteja refugiado ali, devido ao alto grau de vigilância.Aviões não tripulados americanos Predator dispararam mísseis contra diversos alvos da Al-Qaeda no Waziristão e agentes da Agência Central de Informações, CIA estão discretamente posicionados dentro de bases paquistanesas.Na semana passada o Exército paquistanês informou ter matado 40 militantes num ataque com helicópteros a esconderijos desses combatentes. Talvez não por coincidência, a notícia foi dada quando funcionários do alto escalão do governo americano visitavam Islamabad.Mas, como acontece com tudo que diz respeito ao Waziristão, a informação não foi confirmada. Jornalistas estrangeiros estão proibidos de entrar na área e muitos repórteres locais fugiram da região por medo.

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