Forte nas urnas,fraco na política: eis o novo PT

Antes de se esvaziar no poder, o partido se esvaziou ao perder a capacidade de manter democraticamente sua rica diversidade interna

José de Souza Martins*, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2007 | 01h37

A desordem no governo ficou exposta pelos dois acidentes aéreos recentes, pelo caos nos aeroportos e por reiteradas palavras e atitudes irresponsáveis de alguns de seus membros a propósito dos acontecimentos. Aos poucos o país vai se dando conta de um complicado aspecto do governo Lula. Cada membro puxa sua cota de mando e decisão numa direção diferente, fora do controle da cabeça que deveria dirigi-lo. O governo, indevidamente chamado de coalizão, acabou resumindo-se a uma articulação para loteamento do Estado que no fundo esvazia e anula as promessas de suas origens. O PT tornou-se um partido eleitoralmente forte e politicamente fraco, o que faz o governo depender muito mais do carisma de Lula que do partido. Mas o governo consome o carisma de Lula como combustível de emergência para aparentar que no País há ordem e progresso. É esse artifício que se reflete nas pesquisas de opinião, que favorecem Lula, apesar das incertezas evidentes. As reiteradas crises do governo, desde o primeiro mandato até o evidenciado na tragédia de Congonhas, nos mostram um comando político vacilante, conseqüência da partilha do poder e do debilitamento da autoridade presidencial. Essa crise de autoridade chegou a tal ponto que a posse do novo ministro da Defesa, Nelson Jobim, foi tratada e recebida como a posse de um novo primeiro-ministro. A divisão no governo reflete o caráter fragmentário do PT, que antes de esvaziar-se no poder, esvaziou-se na incapacidade de manter democraticamente sua rica diversidade interna. Aferrou-se a um difuso projeto político para o país baseado nas hipotéticas esperanças de uma classe social, ela própria em crise profunda decorrente das transformações nas relações de trabalho e do desemprego. O PT chegou ao poder sem ter chegado, desprovido de um projeto de nação, munido apenas de um fantasioso projeto de classe social. Para governar, perdeu-se na loteria do poder nas mãos de partidos fisiológicos. O poder não inaugurou a dilaceração interna e o esvaziamento do PT. Apenas consumou-os. Os seus fatores podem ser rastreados nas próprias circunstâncias e características históricas do partido. No final de um processo de fragmentação das esquerdas brasileiras, que marcou basicamente o período da ditadura militar, mas vinha de antes, surgiu o PT e, polarizando-o simbolicamente, a figura do operário Lula. Um sonho proletário emergiu como partido e como carisma. Em nome de uma revolução difusa, invertebrada, que reuniria todos os nossos messianismos e milenarismos, lá se foram o partido e seu messias em direção ao poder. Mas o povo perdeu o medo de ser feliz nas migalhas do assistencialismo. O nascimento e o crescimento do PT se deram em função da concentração da classe operária na região industrial do ABC, no rastro das greves de confronto com a ditadura. Parecia que o operariado se levantava politicamente e uma classe social literalmente se tornava um território. Mas o partido que nascia era um partido da elite sindical dos operários qualificados e bem pagos e não um verdadeiro partido de descamisados, da ilusão dos intelectuais e dos religiosos. Inovou, incorporando a territorialidade como princípio lógico de seu expansionismo, a lógica do pedaço, do onde eu piso ninguém pisa. Expandiu-se por meio da criação, demarcação e posse de novas espacialidades na política, fazendo o que os outros não fizeram. Trouxe para a vida partidária a mentalidade de paróquia e suas ricas e contraditórias possibilidades. Nessa concepção corporativa e despolitizante da política, não há crises, o que dá vitalidade ao partido e ao governo. Esse partido regional compreendeu, e bem, que para se tornar um partido nacional teria de fazer algumas transposições conceituais que mascarassem sua solidão social e territorial. "Classe operária" virou "trabalhador", o conceito mais abrangente e de menor conteúdo. Uma categoria da luta de classes tornou-se categoria do mero conflito de interesses entre grupos sociais opostos, uma adesão sutil ao capitalismo antes combatido. A categoria "trabalhador" incluiu tudo e todos na mística operária, um verdadeiro adeus ao proletariado. Já às vésperas do acesso ao poder, e pelo poder, o PT foi mais longe, alargou ainda mais sua categoria social de referência: se havia passado do operário ao trabalhador, passou agora do trabalhador ao pobre. Passou do que reivindica ao que pede, o oposto da referência de classe de sua origem. Num certo sentido, essa imensa mudança introduz uma anomalia no cenário histórico e político brasileiro. O PT e Lula chegaram ao poder ao mesmo tempo em que as bases sociais de sua referência ideológica e doutrinária foi e vai sendo historicamente minimizada pelas transformações econômicas e sociais, pela reestruturação produtiva, pelo desemprego. É como se, de repente, o edifício ficasse sem alicerces. As crises e as incertezas do governo Lula expressam esse descolamento e a falta de sua compreensão.

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