Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

Fotógrafa Maureen Bisilliat abre sua segunda mostra este ano

Artista também volta à pintura, tratando imagens dos anos 1960/70 com ecoline

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

07 de agosto de 2020 | 05h00

Com uma exposição aberta em fevereiro, Devolução, no Instituto Moreira Salles, e fechada por causa da pandemia da covid-19, a fotógrafa Maureen Bisilliat, às vésperas de completar 90 anos, cumpre religiosamente o ‘carpe diem’ em tempo de isolamento social. Inaugurou na quarta-feira uma outra exposição na Galeria Marcelo Guarnieri, Ecolines, que apresenta uma série inédita de fotografias pintadas como aquarelas. A exemplo de Miguel Rio Branco, que também começou sua carreira como pintor, Maureen decidiu voltar à primeira paixão, a pintura, que aprendeu com ninguém menos que o cubista André Lhote (1885-1962), também professor da modernista Tarsila do Amaral.

“Pasternak costumava dizer que estamos sempre em busca da impressão inicial”, diz Maureen, evocando o criador de Doutor Jivago, cujo pai pintor, como se sabe, ilustrou livros do amigo Tolstoi, proximidade decisiva para que Boris Pasternak se transformasse num grande poeta e romancista. Fotógrafa, documentarista, pintora e pesquisadora das manifestações populares brasileiras, Maureen tem igualmente uma ligação estreita com a literatura (muitos de seus livros são releituras de obras-primas brasileiras). Acompanha esse exercício erudito a sua curiosidade natural, o que a levou aos confins do Brasil como profissional das revistas publicadas pela Editora Abril, como Quatro Rodas e Realidade, entre 1964 e 1972. São dessa época algumas fotos em preto e branco que Maureen pinta agora com ecoline, aquarela sobre papel especial prateado.

O resultado é muito próximo às experiências cromáticas pop dos anos 1960 – cores saturadas, efeitos de solarização e um cruzamento híbrido entre a foto documental e a invenção tropicalista. Evoque-se que a fotografia teve um papel muito importante no advento da arte pop inglesa, como comprovam seus expoentes (Richard Hamilton, Gerald Laing, Peter Blake). E também no pós-pop, bastando citar o caso do cineasta inglês Peter Watkins (The War Game e Privilégio), que nasceu pertinho da cidade natal de Maureen, em Surrrey. Watkins, vale lembrar, é documentarista, autor de um grande filme sobre o pintor norueguês Edvard Munch. Persona non grata na Inglaterra, por causa do polêmico The War Game (censurado pelo governo britânico), ele hoje mora na Lituânia.

Maureen, que também vive longe de seu país de origem, diz que sua formação foi no Brasil – e que ela se identifica mais com a terra da saúva. Nascida em Englefield, Surrey, mudou-se para o Brasil nos anos 1950 e aqui desenvolveu um trabalho de investigação antropológica com exemplos selecionados na mostra do IMS sob supervisão de Sérgio Burgi – desde dezembro de 2003, sua obra está incorporada ao acervo do Instituto Moreira Salles, totalizando 16.251 imagens de tribos indígenas, festas populares, manifestações religiosas e releituras fotográficas da paisagem descrita em clássicos como Os Sertões, de Euclides da Cunha, Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, e O Turista Aprendiz, de Mário de Andrade.

Impressionada com um documentário do veterano Ken Burns (Prohibition, sobre as relações entre imigração e alcoolismo nos EUA), Maureen pensa em como unir as várias linguagens que conhece num jogo de equivalências que dê como resultado a convergência de diversas manifestações artísticas – como nesta exposição, em que estão presentes a pintura, o docudrama da religiosidade sertaneja e o filme etnográfico sobre índios (há nela uma foto de um índio da aldeia mehináko, no Alto Xingu, de 1979, que reflete toda a ternura de um pai segurando o filho, cujo irmão a fotógrafa reencontrou por acaso em São Paulo anos depois).

Esses encontros reais com o antípoda não permite que Maureen veja com bons olhos o sarcasmo de um Martin Parr ao lidar com pessoas comuns. “Não gosto desse tipo de ironia”, diz ela sobre o fotógrafo documental britânico conhecido por sua visão satírica da classe trabalhadora inglesa. Maureen pensa o mundo como uma sucessão de fragmentos em que as mãos de um personagem sejam o prolongamento de um gesto de outro numa mesma cena – daí o aspecto de ‘collage’ dessas ecolines.

Uma série que exemplifica bem esse pensamento é Sertões, com fotos feitas entre 1967 e 1972 em aldeias e lugares sagrados de Juazeiro do Norte, no Ceará, e Bom Jesus da Lapa, na Bahia, que deram origem ao livro que traduz em imagens o clássico de Euclides da Cunha. Fotos em preto e branco passaram por um processo de digitalização e impressas em escala maior com a ajuda de colaboradores (ela destaca Marcos Albertin pelo traçado conjunto da exposição e Sílvio Pinhatti e sua equipe pelo tratamento das imagens).

“Quero um dia reunir alguns outros fragmentos num documentário, algo como um trecho de Burle Marx cantando uma ópera, seguido pela voz de Pietro Bardi falando sobre arte.” Essa é sua “ânsia” de captar a essência das pessoas com apenas um ou dois toques, incentivada por exemplos como os de Bill Brandt, que registrou a realidade chocante de mineiros ingleses nos anos 1930/40, por James Nachtwey, fotojornalista de guerra, e o citado Ken Burns, que realizou um documentário definitivo da história do jazz usando a mesma lógica cubista dos fragmentos.

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