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Érico Hiller
Érico Hiller

Fotógrafo Érico Hiller retrata a escassez de água no Brasil e no mundo em livro

'Para muitos a recomendação da OMS de lavar as mãos não é uma opção', afirma o fotógrafo em entrevista ao 'Estadão'

João Prata, O Estado de S.Paulo

18 de março de 2021 | 05h00

O fotógrafo documental Érico Hiller lançou recentemente o livro Água, registro impactante, realizado em diferentes localidades do mundo que enfrentam a escassez dessa fonte primária de vida. São 170 imagens, feitas em dez regiões, durante dois anos, com um relato em primeira pessoa. Ainda este ano deve ser lançado também um documentário com direção de Lucas Bogo, que acompanhou a viagem.

Nessas periferias, mulheres e crianças são os responsáveis pela tarefa de conseguir água para a família. Na Índia (Ladaque e Rajastão), Bangladesh, Jordânia, Palestina, Chile, Bolívia, Brasil, Quênia e Etiópia, não importa o lugar. É à custa da força feminina e de uma infância roubada que as famílias sobrevivem. Todo esforço por uma água, muitas vezes, suja, imprópria para consumo. Segundo a Organização Mundial da Saúde, 80% de todas as doenças do mundo são causadas pelo consumo de água suja.

As imagens e o relato de Hiller são ainda mais urgentes em um momento de pandemia. A higiene das mãos e o distanciamento social não são opções para essas milhares de pessoas. “Tem muita gente que não pode se dar ao luxo de usar a água para isso. Não tem água, quanto mais sabonete”, analisou Hiller.

Quando surgiu a ideia de fazer o livro?

Sou fotógrafo documental há quase 20 anos. A água, por diversas razões, nunca tinha me tocado tanto. Mas foi um assunto recorrente ao longo da minha trajetória fotográfica. Já fotografei crise mundial dos rinocerontes, fiz um livro sobre Mahatma Gandhi. Fotografei países emergentes, lugares ameaçados do planeta... Isso me fez rodar muito e compreender contextos, histórias que me tocavam e interessavam. O problema da captação da água e o esgotamento da água começaram a se tornar inconvenientemente recorrentes. Onde quer que fosse estava sempre diante dos meus olhos. Em 2018 juntei as peças, me organizei com equipamento, tempo e grana e comecei a fazer.

Como definiu as dez regiões registradas no livro?

Fiz toda a pesquisa. Era eu diante de uma tela em branco. Imprimi um mapa bem detalhado do globo. No Google dá para visualizar um mapa da crise hídrica, que pinta de tons mais quentes os locais onde a crise é mais evidente. O problema se concentra bastante na linha do Equador, nos grandes desertos, nas grandes cidades. Mas se olhar os extremos, na Califórnia, na Austrália e aqui ao sul da América do Sul a questão da água é bastante latente também. Quando falo em água, não falo para tomar banho, lavar roupa. Estou falando para o básico, beber e comer. Porque 90% dos alimentos que a gente põe à mesa precisam de água para sua elaboração.

Você cita no livro que muitas pessoas gastam mais tempo para buscar água do que para trabalhar.

É impressionante. Tem um local que foi muito emblemático. Quase metade do livro me dediquei a ele, que é o extremo sul e extremo norte da Etiópia. A Etiópia não é o país mais pobre do mundo, mas é o país que tem menos água disponível por habitante. A água disponível é de qualidade ruim e é o segundo país mais populoso do continente, só perdendo para a Nigéria. Fui para lá duas vezes, cada uma com um mês de duração. Andei quase 5 mil quilômetros. É muita gente, criança e mulher principalmente, acordando às 5h30 da manhã, metendo o balde amarelo na cabeça para buscar água.

Como era sua estrutura de trabalho? Havia guias que te ajudavam nesses países?

Cada local que eu ia tinha um ou dois guias, que eram facilitadores de acesso e intérpretes de dialetos mais específicos. Dependendo do local, precisei acampar, fazer comida e demandava uma equipe maior. Mas, via de regra, trabalho sozinho. A equipe tinha a mínima interferência na minha rotina.

Você chegou a ter algum problema de saúde ao visitar esses locais?

Já fiz tantas viagens de trabalho que acredito que tenha me imunizado bem em relação a muitos vírus. Não tive um desarranjo intestinal digno de registro. Tive cuidado com roupa, botas impermeáveis. Levava spray contra malária para tudo quanto é canto. Precisei tomar água suja em alguns momentos. Sentia o estômago arder um pouco, mas passei bem.

A foto de um rapaz sem equipamento desentupindo uma latrina na favela de Kibera, em Nairóbi, capital do Quênia, chama a atenção. Ele lhe contou que perdeu amigos por falta de higiene. Impossível não remeter aos protocolos desta pandemia.

Kibera é a maior favela do mundo, dez vezes maior do que o Complexo da Rocinha, no Rio. São 2,5 milhões de habitantes, a maioria sem saneamento básico. Só de caminhar lá dentro a visão é impactada. Na comunidade tem esse serviço que cai nas costas de algumas pessoas e que ninguém quer fazer: limpar um buraco que é usado por cerca de 60 famílias. Não é nem um banheiro, é um lugar que a comunidade construiu para as pessoas não terem de fazer suas necessidades na esquina de casa, como acontecia até pouco tempo atrás. Esse rapaz tem que jogar querosene no buraco para aguentar o mau cheiro. Não é só o manuseio, que é terrível, mas pelo fato de ser mortífero mesmo. Ele disse o seguinte: “90% dos meus amigos que fazem isso saem do expediente e vão encher a cara para aguentar essa vida. E quando vão beber, esquecem de lavar a mão. Aí começam a perder as unhas, dentes, têm problemas de verme, que chega nos olhos, no cérebro e por fim acabam morrendo”. Esse rapaz perdeu vários amigos. Nesse dia senti que estava fotografando heróis. E eles se sentiram valorizados.

Como foi a escolha da capa?

A foto cresceu em termos de significado e ganhou a capa faltando dois dias para entrar em gráfica. Ficou bem emblemática. Sabia que em uma tribo da Etiópia o pessoal descia em um tanque de captação de água de chuva. Entrei com a água na metade da coxa. Era uma cisterna bastante grande, de uns 15 metros de diâmetro. As mulheres entravam uma a uma descendo a escada. Enchiam um galão de 20 litros e subiam a escada com os pés descalços e molhados. Estava literalmente no fundo do poço. Relutei muito em colocar (a foto) na capa, porque achava que era muito étnica. Mas, no final das contas, é um livro que mostra a tragédia do gênero feminino, o quanto que a mulher sofre mais com o problema da água. A imagem é a mulher dentro desse poço escuro, subindo a escada. Tem uma luz vindo do céu que é como uma saída que ela pode escalar.

O livro também tem relação com a pandemia. Ou melhor, mostra parte da população que não tem nem como se cuidar.

Para muitos a recomendação da OMS de lavar as mãos não é uma opção. Tem muita gente que não pode se dar ao luxo de usar a água para lavar a mão. Não tem nem sabonete. Combater a pandemia dessa maneira não é uma opção para milhões e milhões de família pelo mundo. O livro traz um pouco dessa perturbação.

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