Fotografo, logo compartilho Gal Oppido ilustra esta edição com imagens que ele clica e joga no Instagram, sob o pulsar da vida

JULIANA SAYURI

O Estado de S.Paulo

30 de dezembro de 2012 | 02h06

Tempo de muitas imagens. E imagens fortes. Só para lembrar algumas que marcaram 2012: os corpos olímpicos de Londres, os corpos esquecidos na Síria, o histórico pouso do Curiosity em Marte, o salto de um austríaco alucinado na estratosfera, a rebeldia das Pussy Riot, a fúria da tempestade Sandy, o aceno de Julian Assange na embaixada equatoriana, o punhado de manifestações coloridas ao estilo Anonymous, Occupy, #YoSoy132 e, literalmente, a torcida do Corinthians. Imagens tradicionalmente classificadas como fotojornalismo. Enquanto isso, no paralelo, outras imagens se destacaram: o político viajando com a família no helicóptero oficial, o outro político fazendo careta no corpo a corpo na periferia, o ministro, o presidente, o céu da cidade, a luz, o trânsito, o flagra, a pose, a rua, o cotidiano. Torrente visual de milhares de fotografias digitais compartilhadas, feitas por anônimos e famosos, amadores e profissionais, no Instagram, uma simples rede social disponível para iPhone e Android - fundada pelo brasileiro Mike Krieger e pelo americano Kevin Systrom, e neste ano arrematada por Mark Zuckerberg, do Facebook, por US$ 1 bilhão.

Emolduradas com um quê de Polaroid e uma notável paleta de cores, efeitos e filtros, as fotos instantaneamente caem em outras redes, como Facebook, Twitter, Foursquare, Tumblr. O Instagram conquistou mais de 100 milhões de usuários desde sua estreia, em outubro de 2010, um tempo recorde para a popularização de um apetrecho tecnológico plugado em um aparelho móvel que, num tempo não muito distante, servia expressamente para receber e realizar simples chamadas telefônicas. E foi pensando nesse potencial imagético que o Aliás convidou o fotógrafo Gal Oppido para ilustrar as páginas da edição especial Travessia 2012/2013 com uma seleção de fotos que ele fez usando exclusivamente o iPhone, todas lançadas no éter do Instagram, ao ritmo de 50 por dia.

"O Instagram é quase um confessionário. Você clica e imediatamente compartilha seu olhar com os outros. Assim, os usuários se tornam cronistas do cotidiano, uma pauta ambulante em termos de visualidade", diz. Paulistano de 1952, Gal Oppido é arquiteto formado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, fotógrafo desde meados da década de 1970, músico e desenhista desde que se entende por gente. Assinou livros e participou de diversas publicações internacionais sobre fotografia brasileira e latino-americana. Além de endereços paulistanos como MIS, Mube e Pinacoteca, já fez exposições em galerias americanas, cubanas, francesas, holandesas, entre tantas outras.

No arquivo pessoal, reúne quase 30 mil imagens feitas com o iPhone. "Mas não sou tecnófilo. Comecei a operar mais eletrônicos porque gosto de dividir imagens. Ali, tudo é imediato: nós temos o impulso do pensamento para fotografar; logo fotografamos, logo compartilhamos. Isso nos conecta com o outro. E cria uma noção de pertencimento ao mundo", diz o fotógrafo.

Vale dizer que as fotografias selecionadas para esta edição não foram feitas especialmente para os artigos publicados. No entanto, ensaiam certa correspondência, interface e ponte com os textos, de forma abstrata, simbólica e sutil em certos momentos, e mais direta em outros. "E, como sabemos, nenhuma imagem é real. Qualquer captação de imagem abandona o espaço tridimensional da realidade e se torna uma representação bidimensional", teoriza.

Ainda nesta edição, na página 6, a jornalista Lúcia Guimarães, colunista do Estado, reflete sobre o Instagram, atualmente na mira de processos judiciais nos Estados Unidos, após a "revolta viral" contra as possíveis mudanças na política de privacidade da mídia social.

Essa discussão não deve terminar tão cedo. Tampouco a discussão sobre o próprio potencial das imagens alastradas nas redes. "A partir dessas possibilidades da captação eletrônica, talvez nos próximos 10 ou 20 anos veremos gerações de renascentistas eletrônicos. Gerações de jovens artistas, músicos e instrumentistas, gente interessada em produzir imagens interessantes. As redes estão se tornando um suporte em que podemos discutir a vida e o mundo", arrisca Gal Oppido. Seremos renascentistas eletrônicos no futuro? Talvez. Mas isso é história para outra travessia...

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