Tyler Hicks/The New York Times
Tyler Hicks/The New York Times

Fotógrafos que estão retratando a pandemia enfrentam dilema ético

Obrigação moral de registrar crise para a posteridade entra em conflito com a questão da invasão de privacidade em um momento de sofrimento

The Economist, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2020 | 16h00

Em meados de abril, muitos dos leitos de terapia intensiva do Hospital Lenox Hill em Nova York estavam ocupados por pacientes de covid-19. Karen Cunningham cuidava deles: entubando os mais afetados e respondendo a incontáveis chamados de emergência do sistema de som do hospital. Ela também tirava fotos, capturando imagens de equipes médicas que, para sua surpresa, estavam ansiosas para aparecerem nas imagens. Cunningham diz que se sentiu na obrigação moral de transmitir ao público as experiências de seus colegas.

Fotógrafa profissional, ela também se formou enfermeira dez anos atrás. Quando um amigo da New Yorker sugeriu que ela levasse a câmera para o trabalho, Cunningham ficou na dúvida. Mas os relatos de dentro dos hospitais eram raros na época e, em meio à pandemia, as fotos poderiam ser uma poderosa ferramenta de saúde pública. Então, ela concordou em fotografar as enfermarias, muitas vezes deixando a câmera de lado para ajudar a virar os pacientes de bruços, na tentativa de aliviar suas dificuldades respiratórias.

Os resultados são uma representação íntima da zona entre a vida e a morte. Na imagem de um paciente entubado, você pode ver os pelos do peito e da barba do homem, a idade revelada pelos redemoinhos cinza entre os negros. Sua pele vulnerável contrasta com a armadura dos equipamentos de proteção usados pelos quatro médicos ao seu redor. Enquanto isso, Philip Montgomery, que já havia feito a crônica da epidemia de opioides nos Estados Unidos, estava visitando os hospitais públicos de Nova York para a New York Times Magazine (NYTM). Ele também trabalha em preto e branco, suavizando a luz berrante do hospital para transmitir o movimento e a intensidade dos cuidadores. Nas fotos de Montgomery, seus membros ficam borrados porque eles estão sempre correndo entre um leito e outro.

A fotografia, escreveu a crítica Susan Sontag, “vem acompanhando a morte desde que as câmeras foram inventadas”. Este ano, ajudou a contar a história da covid-19. Fotógrafos de todo o mundo documentaram sofrimentos e tratamentos que, de outra forma, não seriam vistos. Em seu trágico tema e papel informativo, as imagens da pandemia se assemelham a fotografias de guerra - com a diferença de que, em vez de capturar conflitos distantes, os fotógrafos voltaram as lentes para suas próprias comunidades. Como numa guerra, surgiram intricadas questões éticas: sobre a intrusão da câmera na dor, sobre a maneira como se conta a história da doença.

O uso do preto e branco é uma escolha fundamental. Historicamente, diz Jennifer Good, especialista em fotojornalismo do London College of Communication, a paleta “tem uma função particular na fotografia de guerra, porque nega a chocante vermelhidão do sangue”. Algumas das imagens mais famosas da guerra do Vietnã, por exemplo, foram feitas dessa forma. Mas também existem precedentes ilustres em tempos de paz. Cunningham diz ter se inspirado em Country Doctor, série que W. Eugene Smith fez para a revista Life em 1948 - para a qual ele acompanhou um médico pela zona rural do Colorado. O sujeito em questão, Ernest Ceriani, é retratado como um salvador carismático e de cabelos escorridos (veja a imagem abaixo). O preto e branco, diz Good, pode ser “uma medida de distanciamento. Corta alguns dos elementos estéticos mais marcantes ou chocantes da imagem, criando elegância e atemporalidade”.

Além dessas associações, a fotografia em preto e branco também consegue chamar a atenção. Montgomery usou uma iluminação estroboscópica para direcionar o olhar do observador, pondo o foco nas ações individuais dentro de enfermarias muitas vezes caóticas. Numa das imagens, o braço de um paramédico realizando reanimação cardiorrespiratória está tenso, a força do movimento está clara, mas o resultado é desconhecido. Quando a equipe de saúde olha diretamente para a câmera, os espectadores se sentem transportados para o hospital - admirando os médicos e enfermeiros, mas perturbados por seu próprio voyeurismo.

O front interno

Tanto para o observador quanto para o fotógrafo, há uma linha tênue entre a observação compassiva e a intrusão indecente. As enfermarias dos hospitais estão repletas de informações confidenciais que devem ser reposicionadas ou omitidas nas fotografias. Pacientes e médicos precisam expressar seu consentimento antes que alguém os fotografe. Ser enfermeira, diz Cunningham, “me deu uma certa liberdade moral e ética. Eu sabia que tinha uma linha que eu jamais cruzaria”.

Sua perspectiva dentro do hospital era única. Mas a série que Montgomery fez na Casa Funerária dos Farenga Brothers, no Bronx, envolveu desafios éticos ainda mais espinhosos. As imagens dos mortos e de seus parentes enlutados têm como objetivo humanizar o fato da mortalidade (veja a foto abaixo). E também recuperam a individualidade de algumas das muitas vítimas da pandemia.

“Os dilemas morais eram gigantescos”, reconhece Kathy Ryan, da NYTM. “Na nossa cultura, não é muito comum ver fotos que lidem com os mortos dessa forma”. Numa das imagens, os editores desfocaram uma etiqueta presa a um saco para cadáveres. A série também mostra caixões abertos e caminhões de cadáveres refrigerados, mas as cenas mais gráficas foram omitidas. Os Purewal, a família que protagoniza a sessão, deixaram-se fotografar como uma maneira de homenagear seu falecido pai. Para algumas pessoas que não puderam velar seus entes queridos, as fotos de Montgomery se tornaram um memorial.

Para o Ocidente, foi um encontro incomumente íntimo com a morte. E isto iluminou as perspectivas sob as quais o sofrimento é retratado em outras partes do mundo. Em março, depois de ver a devastação que a covid-19 estava provocando na Lombardia, o fotógrafo ganense Nana Kofi Acquah postou uma mensagem para jornalistas brancos no Instagram. “Será que vocês conseguem fotografar a África com o mesmo nível de respeito e empatia?”, perguntou ele. Azu Nwagbogu, diretor da African Artists’ Foundation, espera que a natureza global da pandemia leve a um equilíbrio na forma como a angústia é captada em diferentes lugares. “Acho que agora surgiu uma compreensão mais clara da dignidade e do respeito pela vida humana com que precisamos tratar todos os pacientes”.

As fotografias são, afinal, uma das maneiras pelas quais a posteridade se lembrará da pandemia e das vidas que ela destruiu. As instituições de arte já estão começando a moldar a forma como a covid-19 será vista - e não vêm contando apenas com profissionais. A National Portrait Gallery de Londres, por exemplo, recebeu mais de 30 mil inscrições para Hold Still [algo como “segure firme”, em tradução livre], um projeto de fotografia comunitária lançado em resposta ao vírus. “Vejo pessoas expressando gratidão e manifestando sonhos com tempos, vidas e amores melhores depois do lockdown”, a curadora Magda Keaney disse sobre as inscrições. Os profissionais ainda traçam os contornos da nossa percepção das crises, tentando lidar com seus próprios motivos e responsabilidades enquanto fotografam. Mas eles não estão mais sozinhos. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

© 2020 The Economist Newspaper Limited. Direitos reservados. Publicado sob licença. O texto original em inglês está em www.economist.com

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