Joseph T. Zealy
Joseph T. Zealy

Fotos de escravos do século 19 levantam questões sobre a ética das imagens

Livro reúne daguerreótipos produzidos em 1850 a pedido do zoólogo de Harvard Louis Agassiz

Parul Sehgal, The New York Times

03 de outubro de 2020 | 16h00

Por um século, elas ficaram mofando no sótão de um museu. Quinze caixas de madeira, do tamanho da palma de uma mão e forradas com veludo. Encapsuladas dentro estão algumas das imagens mais cruéis e controversas da história - as primeiras fotos, acredita-se, de seres humanos escravizados.

Alfred, Fassena e Jem. Renty e sua filha Delia. Jack e sua filha Drana. Eles nos encaram diretamente em uma imagem e estão de perfil na imagem seguinte, corpos presos por uma cinta de ferro. Os daguerreótipos de Zealy, como são conhecidas as fotos, foram tirados em 1850 a pedido do zoólogo de Harvard Louis Agassiz. Defensor da poligênese - a ideia de que as raças descendem de origens diferentes, noção contestada em sua própria época e refutada por Darwin - ele mandou tirar as fotos para apresentar a prova dessa teoria.

Agassiz queria imagens de barbárie e as conseguiu - envolvendo apenas a si mesmo. Ele escolheu a dedo seus participantes na Carolina do Sul, procurando tipos - “espécimes”, como ele disse - mas cada daguerreótipo revela um indivíduo profundamente digno e expressivo. 

Sua mágoa, desprezo, cansaço, recusa total são inequívocos. O fotógrafo Joseph T. Zealy, que se especializou em retratos da sociedade, não alterou seu método para a filmagem. Ele continuou como sempre, usando a mesma luz, os mesmos ângulos, dando às imagens sua perfeição formal e perturbadora.

Agassiz exibiu as fotos apenas uma vez. Elas foram então guardadas no Museu Peabody de Arqueologia e Etnologia de Harvard. Redescobertas em 1976, elas têm estado no centro de debates urgentes quanto a fotografia desde então.

Existe uma maneira correta de encarar essas imagens? Devemos ver essas ou qualquer imagem forçada, afinal? A quem elas pertencem? Elas aceleram ou entorpecem a consciência? Exibi-las traumatiza quem está vivo? É cuidado ou covardia mantê-las escondidas? O que devemos aos mortos?

Estou olhando as fotos agora, em um belo volume publicado recentemente; o carmesim profundo de sua capa combina com o interior luxuoso das caixas dos retratos. “Para fazer o seu próprio caminho no mundo: o legado duradouro dos daguerreótipos Zealy,” editado por Ilisa Barbash, Molly Rogers e Deborah Willis, reúne um grupo de estudiosos da escravidão, história americana, memória, fotografia e ciência. O objetivo deles é contar “de forma mais completa a complexa a história das pessoas nessas imagens icônicas”.

Os especialistas cuidam de suas próprias seções, como os cantos de um imenso quebra-cabeça. Lentamente, a era é reconstituída em detalhes abundantes, por meio de histórias do daguerreótipo e reconstruções da vida cotidiana dos fotografados. A artista Carrie Mae Weems discute sua famosa reinterpretação das fotografias. O romancista Harlan Greene investiga a história racista da Carolina do Sul, onde 165 anos depois de Zealy terminar a série, um adolescente branco chamado Dylann Roof postou trechos da pseudociência racista do século XIX nas redes sociais e matou nove fiéis negros da Igreja Africana Metodista Episcopal de Emanuel.

Esses ensaios - tão ricos em contexto - nos ajudam a ver melhor as fotos? Talvez uma pergunta melhor seja: eles fornecem o contexto necessário? Eles resolvem a tensão que sinto ao olhar para Drana e registrar tanto o apelo em seus olhos quanto a certeza absoluta (pois ela está orgulhosa - sinto na configuração de seu queixo) de que odiaria estar neste livro, talvez odeie até mesmo ser invocada neste ensaio - despida, encarada, opinada? E, no entanto, a noção de que ela foi esquecida, invisível, também é intolerável. É a tensão de “sentar na sala com a história”, como escreveu a poetisa Dionne Brand.

É a tensão e a ironia enterrada no título “Para fazer seu próprio caminho no mundo”, extraído de um ensaio de Frederick Douglass. Douglass, o americano mais fotografado do século XIX, é um personagem recorrente neste livro. Não há evidências de que ele sabia dos daguerreótipos, mas ele falou publicamente contra a pseudociência e, como Sojourner Truth, astutamente divulgou sua imagem como uma contranarrativa aos retratos racistas. Em “Conferência sobre fotos”, ele elogiou a democratização do daguerreótipo. “As imagens, assim como as canções, devem ser deixadas para fazer seu próprio caminho no mundo. Tudo o que elas podem razoavelmente pedir de nós é que as coloquemos na parede, na melhor luz, e quanto ao resto, permitamos que falem por si próprias. ”

À primeira vista, é um sentimento incontestável. Os editores desejam claramente fornecer a quem as vê ampla informação de contexto e, então, confiar nele e na fotografia. Compare isso com, digamos, o furor recente em relação a quatro museus cancelando uma retrospectiva da obra de Philip Guston, preocupado que suas representações da Ku Klux Klan não tivessem contexto suficiente para a conjuntura atual.

O curioso a respeito do título é que a história dos daguerreótipos de Zealy é uma propriedade inquietante e contestada. Harvard, que possui as fotografias, por muito tempo protegeu zelosamente os direitos autorais, ameaçando processar Carrie, que reproduziu as imagens em sua série de 1995 ". Daqui eu vi o que aconteceu e chorei ". Depois de decidir que ela tinha um caso moral, se não legal, Carrie encorajou o processo: “Acho que, na verdade, você me processar seria uma coisa muito boa”, ela se lembra de ter dito a Harvard. "Você deve fazer isso. E devemos ter essa conversa no tribunal. Acho que seria muito instrutivo por uma série de razões.” Harvard acabou adquirindo a série.

Em 2019, Tamara Lanier, agente de condicional aposentada que vivia em Connecticut, alegou ser descendente direta de Renty. A família dela há muito contava de geração para geração histórias sobre “Papai Renty” e Tamara se dedicou a encontrá-lo, vasculhando o censo, os registros de óbitos e os inventários de escravos, finalmente localizando-o na Carolina do Sul.

As descobertas de Lanier foram verificadas por genealogistas, incluindo Toni Carrier, uma colaboradora da série da PBS "Vidas Afro-americanas", apresentada por Henry Louis Gates Jr., que escreve a introdução do livro. A revelação de Lanier chega em meio a movimentos descoloniais ao redor do mundo, pedidos a museus para repatriar relíquias roubadas e universidades examinando suas ligações com a escravidão.

Ela encontrou apoio popular. Quarenta e três descendentes de Agassiz assinaram uma carta ao presidente da Universidade Harvard, Lawrence Bacow, pedindo à escola que entregasse as fotos. Este mês, o Conselho de Graduação de Harvard votou unanimemente para aprovar uma declaração condenando a propriedade dos daguerreótipos pela universidade, escrevendo: “Imagine que seus bisavós foram escravizados, explorados, forçados a ficar nus, fotografados contra sua vontade, essas fotos são divulgadas publicamente hoje ... e não havia nada que você pudesse fazer sobre isso. ”

Alguns colaboradores do livro expressaram ceticismo quanto a descendência de Tamara - embora apenas Gates a mencione diretamente. Molly, uma das editoras e autora de um livro anterior a respeito das imagens, "Lágrimas de Delia", afirma que rastrear a hereditariedade sob a escravidão é complexo. “Não é necessariamente por sangue”, disse ela quanto aos registros familiares. 

“Podem ser pessoas que assumem a responsabilidade umas pelas outras.” Em sua introdução, Gates minimiza a conexão de Tamara com Renty. “Em um sentido mais amplo, qualquer pessoa pode ser a herdeira dessas fotografias, ou a responsabilidade por elas recai sobre todos nós para protegê-las como relíquias de arquivo da história, para serem estudadas, ponderadas e consideradas?”

É uma declaração estranha. Por que o direito de Tamara sobre as fotos ameaçaria a "reflexão" e a proteção delas? O que ele imagina que Tamara tem em mente para elas? Alguns escritores já começaram a abordá-la diretamente para pedir simbolicamente sua permissão para usar as imagens - Thomas A. Foster, por exemplo, autor de “Repensando Rufus: Violações Sexuais de Homens Escravizados”. Tamara o encorajou, disse ele, porque “ela acredita que a história dos daguerreótipos e da exploração sob a escravidão precisa ser contada”. O próprio advogado de Tamara afirmou que um uso ideal das fotos poderia ser uma exposição itinerante.

Mas em um aspecto, Gates está absolutamente correto. Se Tamara tiver os direitos, as fotos não serão mais conhecidas apenas como “relíquias de arquivo”. Renty e Delia não são relíquias para Tamara - eles são família. Renty é conhecido não como um objeto de estudo, mas uma fonte de conforto e orgulho, a estrela das histórias de ninar da família, um homem que secretamente ensinou a si mesmo e aos outros a ler. 

Nas histórias de Tamara, ele nunca foi invisível, nunca perdeu, nunca precisou de "descoberta". Que tipo de erudição, que tipo de crítica ele vai provocar se for visto dessa forma - não como uma figura que precisa ser reivindicada ou objeto de fascínio, mas como um ancestral que merece proteção, cuja memória foi, de modo improvável, preservada?

Daguerreótipos, como é frequentemente observado, são superfícies espelhadas sensíveis. Você precisa encontrar o ângulo preciso que bloqueia seu próprio reflexo. Tudo o que você vê depende de onde você está.

TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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