The Washington Post
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Fragilidade da Terra é tema de Edward O. Wilson

O entomologista tem três de seus livros mais celebrados reeditados pela Library of America

Balaji Ravichandran, The Washington Post

22 de maio de 2021 | 16h00

Há um ano, quando a primeira onda da pandemia do coronavírus tomou conta do mundo, ela levou vários países a uma paralisação. Viagens e turismo cessaram, as atividades industriais diminuíram, o ar e a poluição sonora declinaram. Por toda a parte, a natureza parecia renascer. Era uma rara oportunidade, muitos esperavam, para a humanidade parar e corrigir os danos calamitosos que há muito tempo vinha causando para o meio ambiente. Hoje, contudo, à medida que nos precipitamos para retornar à “normalidade”, essa oportunidade parece cada vez mais perdida.

Muito afortunado e providencial é o fato de a Library of America ressuscitar agora a obra de Edward O. Wilson. Afortunado porque não existe escritor mais abalizado ou mais eloquente para falar sobre o mundo natural. Providencial porque o momento não poderia ser mais oportuno à medida que saímos de uma crise aguda para enfrentar outras, mais crônicas.

O trabalho publicado reúne três livros mais celebrados de Wilson: Biofilia, A Diversidade da Vida e Naturalista. Os dois primeiros tratam da diversidade do mundo natural e o lugar da humanidade dentro dele. O terceiro, uma autobiografia de Wilson, parece de algum modo deslocado em relação aos outros, mas oferece um insight fascinante da formação de um grande cientista.

Edward O. Wilson nasceu em 1929 em Birmingham, Alabama. A primeira metade do livro Naturalista é um retrato primoroso de uma infância no Sul, que abrangeu uma solidão dolorosa, uma curiosidade sem limites e uma ambição extrema.

A história de como Wilson se tornou entomologista tem algo de lendária. Quando ele tinha sete anos de idade e pescava na costa da Flórida, um peixe se lançou contra seu rosto e perfurou a pupila do seu olho direito, cuja visão ele perdeu. Mais tarde, na adolescência, ele também perdeu parte da audição, talvez por questão genética. Foram acidentes como esses que forjaram sua vocação. Como ele escreveu, “sou cego de um olho e não consigo ouvir sons em alta frequência: portanto, sou entomologista”.

Do Alabama, Wilson mudou-se para Harvard onde fez seu doutorado e se tornou um professor titular. A primeira parte da sua carreira foi devotada ao estudo da organização social dos insetos, particularmente as formigas, pelo qual ele ficou famoso. Depois, à medida que o escopo da pesquisa ampliou, ele se tornou cada vez mais preocupado com a questão da biodiversidade na Terra e o impacto humano sobre ela.

Biofilia, publicado em 1984, marca a primeira incursão de Wilson na área da conservação. Ele propôs esse nome, Biofilia, que significa amor à vida, como um termo geral para descrever o que via como uma afinidade profunda e natural entre a mente humana e o mundo natural. Por exemplo, ele viu esse amor no predomínio das plantas e das formas animais em todas as artes e ofícios, no fato de os seres humanos, tanto na selva tropical como na selva urbana, sonharem com cobras à noite e na observação de que, se fosse possível, as pessoas escolheriam viver próximas de um espaço verde e de um corpo de água.

Ele não propõe Biofilia como uma teoria científica coerente. Seu argumento é de que não somos programados – nem pela evolução e nem pela cultura – para viver sem o mundo natural. É isso que nos torna o que somos e nos conforme, e ignoramos o nosso próprio risco. Como ele escreve, “no sentido mais completo somos uma espécie biológica e vamos encontrar pouco sentido básico além do remanescente da vida”. Não se trata apenas do fato de que a Terra se tornará inabitável sem as forças dos ecossistemas ricos e diversos que sustentam a vida, mas que nós, seres humanos, não desejaremos viver num planeta empobrecido. Vista dessa maneira, a conservação do mundo natural é o nosso problema ético mais urgente.

Não surpreende assim que um maior sentido de urgência, até alarme, domina a peça central do volume, A Diversidade da Vida. É, ao mesmo tempo, uma introdução às origens da biodiversidade na Terra e uma investigação profunda da ameaça cada vez maior que as atividades humanas têm criado. A pergunta que conduz o livro, como o próprio Wilson afirma, é: “Quanto de força é necessário para quebrar o cadinho da evolução? Para afrontar essa questão Wilson precisou primeiro estabelecer quão rara e preciosa é a vida, o quão longo, lento e difícil é o arco da evolução e o quão complexas e frágeis são as redes de ecossistemas em todo o mundo. O resultado, na primeira parte do livro, é um guia denso, mas lúcido, para a história e a biologia da especiação na Terra.

A segunda metade, embora escrita há quase 30 anos, ainda é uma leitura pungente. Os seres humanos, ao que parece, são uma espécie peculiarmente sedenta de sangue. Logo que os primeiros humanos surgiram na África eles liquidaram outras espécies, e às vezes gêneros, às dezenas, Quando surgiram, começou a extinção. Dentro de mil anos da sua chegada à América do Norte, todas as três espécies de mamutes, que durante dois milhões de anos viviam tranquilos, foram extintas. À medida que se disseminaram da América do Norte para a do Sul, os seres humanos destruíram cerca de três quartos das grandes categorias de pássaros e mamíferos dos dois continentes. Tudo isso antes de as forças da industrialização e do imperialismo começarem a operar.

Desde então, aumentamos as espécies em extinção de todas as maneiras imagináveis. Caçamos animais por esporte. Só na Índia 80 mil tigres foram abatidos entre 1875 e 1925. Destruímos habitats e ecossistemas inteiros para plantar ou criar um animal. Em nenhuma situação, isso é mais verdade do que no caso das florestas tropicais, das quais menos da metade resta da sua superfície pré-histórica. Levamos nossos pets, pestes e pestilência conosco aonde vamos e vamos a todos os lugares. Gatos selvagens nos Estados Unidos matam 2,4 milhões de pássaros a cada ano. Construímos hidroelétricas, poluímos o ar e a água e introduzimos espécies estrangeiras, tudo pelo lucro questionável no curto prazo. A introdução da perca-do-nilo (peixe) no Lago Vitória para impulsionar a indústria da pesca já destruiu mais de 200 espécies nativas de peixe e ameaça o ecossistema como um todo. E o pior de tudo, inundamos a atmosfera de gases com efeito estufa a tal ponto que uma mudança global do clima hoje não só é inevitável, como não mais prevenível. No melhor dos casos, a esperança é mitigar o pior.

Porque tudo isso importa? Não podemos eventualmente aprender a viver com um subconjunto reduzido de plantas e animais? Wilson previu essa questão e mostra que a biodiversidade é indispensável para a vida humana. Ele observa, por exemplo, que a biodiversidade é crucial para o problema de como alimentar o mundo. À medida que a população mundial incha, caminhando para 10 bilhões de pessoas em 2050, o que foi previsto pelas Nações Unidas, e a mudança climática deixa grandes áreas da Terra inférteis, é ainda mais importante identificar novas espécies que crescerão em situações de seca e produzirão melhor nutrição para cada unidade de terra cultivada. Ele sublinha também que muitos dos nossos medicamentos mais úteis, dos antibióticos aos anticarcinogênicos – vêm das plantas. Quanto maior a diversidade, mais ricas as fontes potenciais de novos remédios, cuja necessidade ganhou nova atenção durante a pandemia.

Naturalmente, há uma razão mais fundamental pela qual temos de nos preocupar com a biodiversidade. O delicado equilíbrio dos nossos ecossistemas e da nossa atmosfera, depende dela. A extinção de uma espécie ameaça um ecossistema inteiro e isto, por seu lado, tem um enorme impacto sobre o mundo todo, incluindo nós. Quanto mais destruirmos o ecossistema fotossintético do mundo, por exemplo, mais sofreremos com os efeitos da mudança climática.

Mas a que ponto chegou o problema? É difícil dar um número sobre a rapidez dessa extinção, mas mesmo as estimativas mais conservadoras sugerem que podemos estar perdendo uma espécie por hora. Wilson, há 30 anos, calculou que seriam no mínimo três espécies por hora. Embora a natureza tenha se tornado mais resiliente e diversa depois de cada grande extermínio ocorrido no passado, não há garantias, diante da escala e da rapidez da extinção atual, que tudo isso seja reversível.

No final, somos as únicas espécies na Terra, até onde sabemos, a ter consciência do nosso próprio passado evolucionário e do nosso lugar dentro do plano maior da vida e do universo. Somos também a única espécie que pode alterar o cadinho da evolução. É essa consciência, e esse poder, que nos tornam uma espécie excepcional e ética. Se agirmos agora e consagramos, como Wilson sugere, a preservação da biodiversidade nas nossas leis, nossas economias e nossas constituições, ainda poderemos proteger o pouco que resta do mundo natural e preservá-lo para as futuras gerações. Se não o fizermos, não temos nenhuma razão para acreditar que a natureza salvará o que nós destruímos. /Tradução de Terezinha Martino

 

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