Imagem Sérgio Augusto
Colunista
Sérgio Augusto
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Frankenstein da Mesopotâmia

O Estado Islâmico, a Al-Qaeda da vez, é criação dos americanos em terras de Saddam e Assad

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

30 Agosto 2014 | 16h00

Terça-feira faz 40 meses que o presidente Obama marcou seu último gol no campo da política externa, liquidando Osama bin Laden. Desde então chutou quase todas para fora; algumas Putin e Bashar Assad defenderam. Se já estava duro jogar na Champions League dos conflitos internacionais, particularmente no Oriente Médio, com a encruada crise na Síria e a entrada em cena de um novo Bin Laden, ramo salafista, chamado Abu Bakr al-Baghdadi, a situação complicou de vez. 

O Estado Islâmico, califado criado por Al-Baghdadi no Iraque e na Síria ao mesmo tempo, é a Al-Qaeda da vez. Com endereço conhecido, entre outras consideráveis diferenças. Seus jihadistas, ao menos por enquanto, não estão cometendo atos de terror fora da Mesopotâmia. O EI é um flagelo localizado e seu califa, o Gêngis Khan do Tigre e do Eufrates. Mas, desde que em junho capturou o reduto sunita de Mossul, no Iraque, não para de se expandir pela região. 

No início do ano encontraram um laptop enterrado numa província síria próxima à Turquia com ameaças terríveis atribuídas ao grupo, entre as quais espalhar peste bubônica mundo afora. Mas queira Alá que os arquivos, a que a revista Foreign Policy só teve acesso dias, atrás sejam tão fantasiosos quanto as armas de destruição em massa que o governo Bush inventou para ter uma desculpa de invadir o Iraque há 11 anos e precipitar a insânia em curso.

A tal ponto chegou a insânia que, por algumas horas da última segunda-feira, ventilou-se a hipótese de uma eventual aliança de conveniência entre Assad (islâmico alauita) e uma coalização de forças liderada pelos Estados Unidos visando a exterminar o EI, inimigo mortal do governo sírio. O presidente François Hollande já tirou a França da jogada. Hollande não confia em Assad, e mais: o tem na conta de principal aliado dos fanáticos salafistas. Como então explicar o massacre de 200 soldados do Exército de Assad, no nordeste da Síria, por combatentes do EI, anunciado quinta-feira pela rede de notícias Al Jazeera?

Os celerados do EI são guerreiros movidos pelo ódio mais indiscriminado e sanguinário. Invadem e saqueiam cidades e aldeias habitadas por curdos yazidis, xiitas, sunitas e outros “heréticos” islâmicos, roubam bancos, espancam e imolam homens e crianças, apedrejam mulheres, incendeiam casas e destroem tesouros arqueológicos (conforme denunciou esta semana o Washington Post). Nota alta na escala Pol Pot de atrocidades. Sexta-feira é seu dia sagrado de chibatadas, mutilações e execuções em praça pública; se é que a imprensa ocidental não vem exagerando na cobertura, pintando o diabo ainda mais rubro e bárbaro do que é, como se isso fosse necessário depois da decapitação do jornalista americano James Foley. Há mais de dois meses o EI sitia Amerli, no norte do Iraque, com 12 mil turcomanos xiitas condenados a morrer de fome e sede. 

Foley pode ter sido a primeira vítima de uma série de cruéis represálias ao socorro que iraquianos armados pelos Estados Unidos prestaram a foragidos yazidis, nas montanhas de Sinjar, duas semanas atrás. Terça-feira passada, a mãe de outro jovem jornalista americano, Steven Sotloff, pediu num vídeo que Al-Baghdadi poupasse a vida de seu filho, ameaçado de degola na Síria. Três dias antes, mais um americano, Douglas McAuthor McCain, 33 anos, morrera na cidade síria de Marea, não decapitado por ordem do califa, mas lutando em suas hostes, sinal de que o EI prefere pôr inimigos convertidos na linha de fogo a recambiá-los à América como terroristas.

Pelo menos quatro americanos já morreram desde o início do conflito na Síria, em 2011, participando da jihad islâmica. Com adesões plurinacionais que se infiltram com mais facilidade pelas porosas fronteiras da Turquia, o EI tornou-se uma espécie de Legião Estrangeira a serviço do fanatismo religioso, em defesa de dogmas petrificados no século 7º, razão pela qual se arvoram os únicos representantes da “verdadeira jihad”. 

A força de seu proselitismo, em especial junto a jovens desencantados e ingênuos, via redes sociais, se deve em grande parte ao fato de que seus integrantes, ao contrário dos da Al-Qaeda e demais grupos radicais islâmicos, não apenas ameaçam e cometem atentados contra os “ímpios”, mas também atuam à sombra de um arremedo de país estabelecido em determinado espaço físico, de resto, com invejável infraestrutura.

O secretário de Defesa americano, Chuck Hagel, não faz por menos: “É a maior ameaça da militância islâmica que já enfrentamos”, nivelando-a, com algum (quem sabe, muito) exagero ao 11 de Setembro. O general John Allen, ex-comandante das tropas americanas no Afeganistão, pediu a Obama que varresse o EI do mapa “a qualquer custo”; ou seja, que outros militares concretizassem o que nem ele, Allen, nem outros nove comandantes dos Estados Unidos conseguiram no Afeganistão, uma galinha morta se comparado à Síria. 

Mesmo pressionado por alguns milicos e belicistas de gabinete, como o comentarista neoconservador Bill Kristol (que há dias pediu que se bombardeasse logo a Síria), e pela necessidade de marcar um gol no exterior, Obama só deverá se arriscar na grande área síria se convencer o eleitorado e o Congresso de que o EI é um perigo real e imediato, nível 11 de Setembro. Ainda assim terá de formar uma força de coalizão com aliados et pour cause renitentes em se agregar à destruição do frankenstein muçulmano que os próprios americanos, em mais um gol contra, criaram e armaram nas terras de Saddam Hussein e Assad. 

Mais conteúdo sobre:
Estado IslâmicoObama

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.