Fronteiras movediças

Da mistura de autobiografia com ficção, Babenco extrai o triunfo, sempre incerto e temporário, da vida sobre a morte

Sérgio Telles , O Estado de S.Paulo

01 Novembro 2015 | 02h02

Meu Amigo Hindu, novo filme de Hector Babenco, retoma uma questão de grande interesse em artes narrativas como literatura e cinema: a importância dos elementos biográficos na obra do autor, a maneira como ele transita entre ficção e realidade.

Mais do que nunca é difícil traçar as fronteiras entre esses dois campos, pois os autores dispõem de diversas recursos para expor esse material, desde o conhecido roman à clef até as narrativas ficcionais autobiográficas, a autoficção. Os exemplos são muitos, como Fellini em 8 ½ e, mais recentemente, a literatura do norueguês Karl Ove Kanusgard, que tem produzido uma espécie de hiperautobiografia, na qual expõe minuciosamente sua intimidade e a de seus familiares e amigos. Babenco centraliza seu filme nessa questão, ao nele colocar episódios de sua vida conhecidos pelo grande público.

Se no cinema e na literatura é comum a indiscriminação entre personagem e autor, especialmente entre narrador e autor, essa confusão é potencializada atualmente pela cultura de massa, que rompe os limites entre público e privado, e pela indústria do entretenimento, que fornece de forma sistemática suprimentos diários de factoides sobre a vida das celebridades. Assim, a ousadia de Babenco em utilizar no filme fatos conhecidos sobre sua pessoa, numa propositada confusão entre vida e arte, personagem e autor, pode estimular a curiosidade do espectador, fazendo com que, somente num momento segundo, ele se aperceba das qualidades específicas da película.

O roteiro de Babenco trabalha com um duplo conflito dramático. O primeiro, manifesto, é o aparecimento de um câncer, a ameaça da morte, a luta do personagem para continuar vivendo e produzindo. O segundo, latente, decorre de sua novela familiar. O filme abre com os três irmãos esperando a notícia do falecimento do pai, "um grande contador de histórias", diz no enterro o rabino. As dificuldades da relação pai-filho ficam insinuadas no fato de o personagem não esperar pelo cumprimento dos ritos fúnebres. No desenrolar da ação, são mostradas as rivalidades fraternas, a presença forte da mãe, os amigos, a profissão, os conflitos amorosos. Ao lado dos graves problemas trazidos pelo câncer, o personagem tinha outro tipo de sofrimento - os conflitos familiares, a culpa por ter deixado o lar paterno numa pequena cidade para buscar seu caminho mundo afora. Dessa maneira, ao alívio proporcionado pela recuperação da saúde física corresponde a paz trazida pela reconciliação com a família, um dos momentos comoventes do filme.

É curioso que Babenco tenha escolhido um título que evoca mundos exóticos e distantes para um filme que fala do que lhe é mais íntimo e próximo. Talvez com isso revele a tentativa de sair de si mesmo e de seu entorno, de se afastar da experiência devastadora que ameaçava destruí-lo. Ao mesmo tempo, ao mencionar o amigo hindu, Babenco se reporta a momentos de extraordinária vulnerabilidade, nos quais a morte estava muito próxima. E é nessas circunstâncias que o diretor reencontra sua capacidade de narrar, valioso dom que estabelece um traço de identificação com o pai. Naqueles duros momentos, o poder libertador da narração se revela com toda a força, possibilitando driblar a angústia ao criar novos mundos, escapar de uma realidade insuportável, recompor forças para continuar lutando.

Na história que Babenco conta, a morte parece um caixeiro viajante, um funcionário subalterno de uma multinacional, bem diferente da figura imponente e assustadora de Bergman. Condizente com nossos tempos agnósticos, portanto despida de toda transcendência, a morte não nos leva mais para paraísos ou infernos. Ela simplesmente nos elimina do jogo da vida. Essa mudança não diminui muito (talvez até maximize) o terror que ela inspira, que, neutralizado por sua aparência banal, ressurge com intensidade na grotesca figura de sua amante.

Meu Amigo Hindu começa com a morte do pai e termina numa exibição de grande força vital, com Bárbara Paz dançando Singing in the Rain. Assim Babenco comemora o triunfo (sempre incerto e temporário) da vida sobre a morte, celebra o amor e, ao mesmo tempo, declara sua paixão pelo cinema.

Não é raro que diretores homenageiem o cinema citando cenas de antigos musicais americanos. Tais filmes eram produtos comerciais que pretendiam apenas divertir o grande público. Que tenham transcendido esse despretensioso objetivo e se constituído como ícones da cultura do século 20 mostra como muda ao longo do tempo a avaliação de uma criação artística.

Certamente as plateias atuais e futuras saberão reconhecer o valor de Meu Amigo Hindu, sóbria e bem lapidada meditação de Babenco sobre a condição humana.

Sérgio Telles é psicanalista e escritor, autor de Visita às Casas de Freud e Outras Viagens (Editora Casa do Psicólogo)

 

Mais conteúdo sobre:
O Estado de S. Paulo

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.