Fronteiras perdidas

Uma voz contra a Angola dos excessos, do separatismo e de um mandato presidencial sem fim

Christian Carvalho Cruz, O Estado de S.Paulo

17 de janeiro de 2010 | 01h14

O escritor José Eduardo Agualusa passou bom tempo indeciso quanto ao que seria um lugar ideal para morrer. Benguela, no litoral de sua Angola natal, ou Olinda, no Nordeste brasileiro, um refúgio de largas temporadas. Huambo, onde ele nasceu há 49 anos e viveu até ir fazer faculdade de agronomia em Portugal, não parece ser uma opção. Nem a capital, Luanda. Esta, com todas as contradições de uma cidade cada vez mais rica e moderna e cada vez mais miserável e padecedora de um pós-colonialismo mal resolvido, ele guarda ou para seus romances, como o recente Barroco Tropical (Companhia das Letras, 2009), ou como motivo de apreensão.

"Vou a Luanda ansioso, porque não sei se consigo sair. Qualquer pessoa que tenha opiniões próprias e a possibilidade de se fazer ouvir, principalmente fora do país, tem problemas em Angola", conta, de sua casa em Lisboa. Há dois anos, ao cabo de uma massacrante campanha de insultos e ameaças via jornais e internet, um parlamentar ligado ao governo central chegou a sugerir sua prisão. O crime de Agualusa: ter classificado o ex-presidente Agostinho Neto de "poeta medíocre".  

 

Parte dessa Angola afogada em problemas ancestrais - e outros nem tanto - assustou o mundo na sexta-feira 9, quando separatistas da região de Cabinda metralharam o ônibus da delegação de futebol do Togo, que chegava para disputar a Copa Africana de Nações. Dois togoleses morreram, oito ficaram feridos, e a equipe se retirou da competição, desnecessária para Angola, segundo Agualusa, "um exercício populista do governo para tentar devolver a autoestima a uma população que não tem muito do que se orgulhar". Mas nem por isso, diz, é correto pôr em xeque a capacidade da vizinha África do Sul de realizar a Copa do Mundo.

"A África do Sul, como outros países do continente, tem uma democracia estável, uma sociedade bem organizada. É assim em outras partes também. Os conflitos diminuíram e a África melhorou muito nos últimos 20 anos. Só que o seu lado bom não é notícia, infelizmente." O dito Ocidente continua a olhar pouco para lá. O que não é de todo ruim, ele acredita. "O desinteresse do mundo está a fazer os africanos solucionarem sozinhos os seus problemas, a pressionarem mais os seus governantes."

Quanto ao melhor lugar para morrer, Agualusa, por ora, se decidiu: "No momento, prefiro viver".

O NOVO CONFLITO

"Passados 35 anos da independência e outros 8 do fim da guerra civil, Angola é um país a crescer com enormes distorções. Enquanto em Luanda a febre da construção de prédios muda a paisagem a ponto de você não reconhecê-la a cada quatro meses, o fosso social se aprofunda. Basta ficar parado numa rua qualquer da capital por dez minutos para contar uma série de carros de luxo, desses americanos Hummer, que nunca vi sequer no Brasil. Pertencem aos estrangeiros que trabalham com petróleo, ou a angolanos empregados de empresas estrangeiras ligadas ao petróleo ou à construção civil, ou a pessoas ligadas ao aparelho do Estado. O restante da população não tem nada. Não existe classe média. Ou você tem muito dinheiro ou dinheiro nenhum. A boa notícia é que agora se pode circular livremente. Por outro lado, constroem-se muito mais condomínios de luxo do que escolas, e a corrupção e a ausência de mecanismos democráticos de controle do poder impedem um desenvolvimento mais saudável.

QUE DEMOCRACIA?

"Ainda não existe democracia em Angola. O poder real está nas mãos do presidente da república, José Eduardo dos Santos, que ocupa esse lugar desde 1979 sem nunca ter sido eleito. Não há previsão para a realização de eleições presidenciais e nem sinais de que ele vá sair. O partido no poder, o MPLA, está a tentar aprovar uma Constituição que estranhamente não prevê eleições diretas para presidente. Talvez o regime tenha se dado conta de que não precisa de democracia para sobreviver. Ou seja, que para ter o apoio do Ocidente não é necessário mudar. Enquanto o país estiver a se desenvolver e for economicamente estratégico para Portugal ninguém vai cobrar isso. A crise financeira internacional aumentou a importância de Angola, que está a receber muitos desempregados portugueses, sobretudo jovens. Já há empresas angolanas a comprar partes de empresas portuguesas. Por esses dias um jornal de Lisboa noticiava que o setor de artigos de luxo em Portugal só não sofreu com a crise graças aos clientes angolanos, que representaram 16% de suas vendas em 2009.

ONDE MORA A ESPERANÇA

"Outro grande problema em Angola, talvez o maior, é a inexistência de quadros. Nunca houve preocupação em formar pessoas capazes de gerir o país, nem antes nem depois da independência. O ensino básico é muito ruim. Nas escolas públicas as crianças muitas vezes não têm onde sentar. E nas particulares só estudam os filhos das famílias ricas. Eu tenho dois meninos numa escola privada onde se paga uma fortuna, US$ 20 mil por ano. Em relação ao ensino superior, aqueles que podem vão estudar no estrangeiro. Mas está a haver uma mudança importante. Antes, esses não regressavam. Hoje, sim, porque são muito bem pagos pelas companhias estrangeiras com negócios em Angola. Há muita gente mesmo a regressar. Jovens angolanos que viveram em países democráticos e têm outra mentalidade. Mas também é verdade que muitos desses jovens são silenciados tão logo regressam, porque em Angola recebem um ordenado três ou quatro vezes maior do que poderiam ter no Brasil, em Portugal ou na Inglaterra. Então, os poucos que chegam com alguma posição contestatória acabam facilmente calados. Apesar de tudo, a esperança de dias melhores para Angola passa pelo regresso.

ESPÍRITOS EM PAZ

"Eu contesto a realização da Copa Africana de Nações deste ano em Angola. Diz-se que o governo gastou US$ 1 bilhão na construção e reforma de estádios, estradas e hotéis. Num país onde falta quase tudo é muito difícil compreender tal opção. Creio que é um exercício populista para tentar devolver algum orgulho e autoestima à população. Enquanto isso, em Luanda não há mais que cinco bibliotecas públicas para uma população de quase 5 milhões de pessoas. E nessas há filas enormes para entrar: jovens com vontade de ler, de aprender, horas debaixo do sol para retirar um livro. É de partir o coração. Todavia, o futebol pode ser importante para aumentar a autoestima de um povo que não tem muito do que se orgulhar. Pode contribuir para combater a cultura de exclusão enraizada nas mentalidades angolanas desde a guerra civil. Na seleção nacional há jogadores de vários grupos étnicos. Isso ajuda muito. O futebol pacifica os espíritos. Futebol também é cultura, embora eu prefira ouvir o Chico Buarque a cantar do que vê-lo a jogar futebol.

ESPÍRITOS EM GUERRA

"Em Cabinda, a região onde os separatistas metralharam o ônibus da delegação togolesa, uma porcentagem considerável da população não se reconhece como angolana. É um território rico em petróleo e madeira que se tornou parte de Angola com a independência. Antes, era um protetorado de Portugal. Devia ter sido tratado de forma especial, talvez com um estatuto de autonomia como o da Madeira e Açores, em vez de ser simplesmente anexado. Os cabindenses sentem que têm sido explorados pelo regime que se instalou em Angola. E a riqueza local, realmente, não reverteu nunca a favor dos povos de Cabinda. É disso que se queixam os separatistas. No fundo, trata-se só outra faceta do processo de colonização malfeito que tivemos. Os portugueses tinham responsabilidades históricas que não seguiram. À época também metidos numa revolução no próprio território, lavaram as mãos e foram-se embora.

HOOLIGANS

"Não passa de preconceito tomar o episódio de Cabinda para questionar a capacidade da África do Sul de realizar a Copa do Mundo. O chefe do comitê organizador do Mundial, Danny Joordan, alertou para isso e eu acho que ele tem razão. A África do Sul está perto de Angola de um ponto de vista geográfico, mas na realidade é como se fosse outro planeta. É um país com uma democracia estável e com uma sociedade bem organizada. Não acredito, por exemplo, que os hooligans (hoje sinônimo de torcedores violentos, racistas, que namoram o fascismo e invariavelmente arrumam brigas em Copas do Mundo) tenham coragem para manifestarem publicamente a sua estupidez num país como a África do Sul. Nem sequer acredito que viajem até lá. A África do Sul representa tudo o que eles detestam - um país que derrotou o racismo. O mundial será importante para devolver o orgulho e a dignidade aos africanos todos. Hoje, a situação no continente já é muito melhor do que há 10 ou 20 anos. Ainda existem regiões em conflito, mas são poucas. E há países exemplares, como a Namíbia. Quando o Lula esteve lá disse que nem parecia África. É uma observação que qualquer africano poderia fazer também. Não se vê um papel no chão, lembra a Suíça. Botsuana talvez seja o melhor país do mundo em gestão ambiental. Tem a maior parte de seu território protegido e desenvolveu um sistema de turismo de alto luxo que funciona e traz dinheiro. Mas ninguém fala da Namíbia ou de Botsuana. A imprensa internacional não se interessa pelas boas notícias da África.

TAMBÉM SOMOS CULPADOS

"A comunidade internacional olha pouco para o continente africano. Mas esse desinteresse tem seu lado benéfico. Recentemente, fez com que alguns países começassem a procurar soluções por si mesmos. Nós também somos responsáveis por nosso desastre, mas durante muito tempo tentamos culpar o outro, numa tentativa de nos desresponsabilizar. Uma economista zambiana chamada Dambisa Moyo defende em seu livro Dead Aid que os movimentos de ajuda à África fazem com que se perpetue a imagem dos africanos como incapazes de proverem o próprio sustento e seu desenvolvimento. Portanto, esse relativo desinteresse da Europa pela África permite que os africanos comecem a assumir suas responsabilidades, que as populações exijam mais responsabilidade de seus governantes. Veja o caso do país de Dambisa, a Zâmbia, assolada pela aids. A maior parte da assistência dada aos doentes é por meio de uma entidade estrangeira, a Usaid. Isso é inacreditável. Imagine os americanos ditando as políticas de combate à aids no Brasil. É incrível que os africanos aceitemos isso. Essa coberta de ajuda a África está a impedir o desenvolvimento da África. É uma ajuda perversa. As pessoas ficam inertes, a espera dela, e não lutam por mudanças."

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